Ciência e Televisão.

Nelson Pretto

Desde o seu nascimento a televisão sempre foi associada à uma missão educativa. Frequentemente acompanhamos discussões - particularmente em tempos de regulamentação do sistema de comunicação - sobre o papel educativo das nossas televisões, sejam elas públicas ou comerciais.

A questão básica que se coloca é sempre a mesma: uma novela é um programa educativo ou educativo são apenas aqueles programas que reproduzem uma sala de aula ou um laboratório? Esta questão vem permeando esta discussão ao logo dos anos. Nela estão pais, professores, cientistas e também jornalistas.

Do lado dos meios de comunicação, o que vemos muitas vezes é a realização de um jornalismo que procura sempre os fatos mais sensacionais para ocuparem os grandes noticiários, valendo esta lógica, muitas vezes, para ao jornalismo científico. E aqui, é comum cientistas terem a tendência de se esquivar da questão argumentando ser a mídia, em especial a televisão, espaço inadequado para a divulgação dos fatos ligados ao mundo da ciência, da técnica e, muitas vezes, da educação. Associam de forma direta e linear, com frequência, o meio com o uso que se está fazendo dele.

Por outro lado, o desejo de utilizar a comunicação para a formação das pessoas sempre esteve muito presente, desde o nascimento do rádio. A primeira emissora de rádio no Brasil nasce, nada mais nada menos, que dentro da Academia Brasileira de Ciências, por iniciativa de Roquete Pinto e Henri Moritze, nos idos de 1923, para levar educação e cultura ao povo brasileiro. Se isto foi conseguido é uma outra história.

Na televisão, os chamados programas de divulgação científica começam a ganhar espaço na produção brasileira a partir da década de 70. Com o nascimento do Globo Ciência, veiculado pela Rede Globo de Televisão, este espaço passa a ser ocupado de forma mais sistemática mesmo que a veiculação dos programas sejam sempre em horários absolutamente secundários.

Timidamente começamos a ver uma razoável quantidade dos chamados programas de divulgação científica e educativos.

Mas, o que é mesmo um programa educativo? O que é um programa de divulgação científica? Estas não são certamente perguntas simples e elementares e não podemos deixar de refletir sobre elas. Principalmente se pensarmos que hoje, no Brasil, já existem, além das emissoras educativas espalhadas em praticamente todos os Estados, dois canais exclusivos para a educação: o TV Escola (MEC) e o Canal Futura (Fundação Roberto Marinho).

Quem são os produtores destes programas, que buscam divulgar a ciência e a tecnologia? Qual a concepção que está predominando no mundo destas produções? Onde está a produção local, a produção que valorize e divulgue nossos valores e culturas? Questões fundamentais neste mundo de comunicação generalizada. Questões básicas num mundo de conexão veloz e planetária. Precisamos estar de olhos abertos para o que lá fora é produzido para aprimorar e incentivar a nossa produção local. Uma produção que seja de qualidade e que reflita a nossa cultura, a ciência que aqui produzimos, as tecnologias que aqui são desenvolvidas.

Estar sintonizado com este mundo é praticar, ao mesmo tempo, um movimento para o interior e exterior, simultaneamente. É Ver Ciência. É ver o que se produz no mundo e no Brasil discutindo as nossas reais possibilidades de aumentar a produção local.

Isto é o que se quer com a Mostra Ver Ciência, que estará ocorrendo de 21 a 26 deste mês, simultaneamente no Sarah e na UFBA. Nestes dias poderão ser vistos, gratuitamente, produções da Venezuela, Hungria, França, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, entre outros, cobrindo diversas áreas do conhecimento. Ver Ciência é importante. Mas também é importante debater as concepções de ciência que estão sendo apresentadas na televisão, tanto aqui como lá de fora. No dia 24, às 15 horas, no auditório do PAF/UFBA (Ondina), estarão presentes Sérgio Brandão, criador do Globo Ciência, Paolo Marconi - diretor geral do IRDEB - e os professores Monclar Valverde, da FACOM, e Benedito Leopoldo Pepe do Instituto de Física, para discutirem esta temática. Ver Ciência é uma oportunidade, portanto, para exercitarmos nossos olhos e corações para este mundo de imagens e informações que a televisão mundial nos apresenta. É a possibilidade de ver, nestas imagens, elementos para o fortalecimento dos nossos valores locais de forma mais intensa. É portanto, a possibilidade para que cada um possa refletir sobre o fazer ciência, o fazer televisão e a relação entre estes dois mundos. Dois mundos? Talvez não.

Salvador, 13 de outubro de 1997.

 

 

 

Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da UFBA. Doutor em Comunicação pela USP. Home-page http://www.ufba.br/~pretto.