Escrever é preciso! Inclusive este parecer! Ossos do ofício!
Mas este escrever não está sendo confirmador ou negador... É sim, uma "provocação de um horizonte mais vasto, como o descortinar de novo campo para os exercícios do imaginário, um incendiar da imaginação levando à aventura de novas hipóteses e novos caminhos". Dito pelo querido colega e agora amigo Mário Osório Marques. Tânia o cita tão bem, entre outros momentos, na página 124, fechando o seu trabalho. Digo fechando porque ela o cita, já na página 124 e o seu texto tem o seu final com o seu "mapa aberto" apenas três páginas adiante, na 127. Não fecha nada. Não é para fechar. Não pode propor fechamentos. Tem que abrir, descortinar, enfrentar o novo, entre o medo e o encantamento como ela afirma no título de seu trabalho.
Este é o momento histórico. Altas velocidades, transformações alucinadas, profusão de fios metafóricos, imagens e informações. Carreras nas Missões, eu aqui, ela lá. Antes de aqui chegar fisicamente já estive aqui. O de lá veio até aqui. O daqui foi acolá. Um mundo de comunicações instantâneas e que Tânia Hetkowski consegue, com este trabalho, traçar de forma clara. E para tal, identifica e potencializa o conflito que viemos neste mundo contemporâneo, ao articular de forma muito bem escrita - tornando-se um prazer a sua leitura - parte de seu movimento pessoal como uma profunda reflexão teórica associada à praticas de tantas outras pessoas já citadas neste texto mas, muitas, nem mesmo citadas. Estas serão, certamente, seus leitores. Leitores que estarão vivendo exatamente este movimento de oscilação permanente entre o medo e o encantamento. Entre o pertencer e o desenraizar. O ir sem sair do lugar.
Creio que o trabalho consegue de forma muito harmônica possibilitar uma navegação - não muito hipertextual, é verdade! - desde as primeiras angustias, da dificuldade em se lidar com o novo - no momento materializado pelos computadores e pelas redes de comunicação - até suas últimas angústias, desta vez já com o tal bicho papão identificado e respeitado. Respeitado, porque, como bem diz Tânia, usando entre outros Pierre Lèvy, não estamos tratando de máquinas obedientes que nos servem ou servirão. Estamos trabalhando com tecnologias - que na ausência de melhor denominação chamamos de novas - tecnologias da inteligência.
Nesta navegação temos a oportunidade de passear pelo importantíssimo terceiro capítulo (Harmonizando os fios da educação e tecnologia), com um referencial bibliográfico básico e fundamental para a área da educação, pego emprestado das ditas ciências duras. Momento de felicidade... Pessis-Pasternack lhe auxiliou, e aqui sustenta o meu argumento: "pedra angular de todas as mudanças [...} uma nova aliança, para a convergência de duas culturas, científica e humanista, que se interrogam sobre a significação dos mesmos fenômenos: o devir , a reabilitação da desordem e o acesso desorganizador." (p. 36)
Isto já começava a ser apontado nas páginas anteriores. Na página 28, ao sugerir que "não é apenas de maneira racional que a tecnologia precisa ser enfocada", Tânia sugere considerar também, "que os espectadores estabelecem uma miscelânea de razão e emoção dentro de um relação de fraternura ecológica e subjetiva." Lindo!
Exatamente com o objetivo de entender um pouco mais este momento contemporâneo a autora escreve o seu importante capítulo Protótipos de uma nova sociedade. As referências básicas de Mário Osório Marques, Teixeira Coelho, Marcos Palácios, Pierre Lèvy, McLuhan, Guatarri, Babin, dão conta, na minha ótica, da configuração deste protótipo. Justamente porque apontam para o fazer histórias (pag. 64) congregando diferentes agenciamentos socio-técnicos, como diz Lèvy.
A partir do terceiro capítulo passa a fazer parte desta Jacquard a questão curricular. Um dos pontos centrais deste processo. Central sim porque a crise da escola passa certamente pela crise deste currículo fechado, que quer resolver a sua ineficácia pela companhia das máquinas - ontem as behavioristas de ensinar , hoje as ferramentas para preparar o ser humano para o mercado de trabalho. Que este mercado de trabalho é este que serve de argumento para introduzirmos os computadores nas escolas com o objetivo de ensinar a digitar? Ela mesmo responde, na página 77 mas, na minha opinião de forma muito tímida: "é necessário construir estratégia de uma verdadeira capacitação profissional numa instância de multiplicadores de olhares de homens-cidadãos-sujeitos e agentes, não homogeneizadores, mas determinantes no fazer e conduzir a história social, política e cultural de forma humanística".
Ao referir-se, na página 79, ao ensino superior, Tânia deixa transparecer, muito provavelmente pela construção adotada, que somente este nível de ensino será encarado como um etapa mobilizadora de transformações, o que obviamente discordo completamente.
Outro aspecto que merece atenção para que se tome bastante cuidado é a utilização de trechos de autores que, no conjunto de sua obra, divergem do enfoque do conjunto da obra da autora. Ao utilizarmos apenas trechos, deixamos transparecer que existe uma sintonia entre estes autores e o conjunto da bibliografia utilizada o que não é verdade. Cito, apenas dois dos casos que considero mais evidente: Neil Postman e Samuel Pfrom Neto, que tradicionalmente tem se manifestado de forma mais cautelosa com as novas tecnologias e a educação.
Ao pensar a escola ela pensa o currículo e passa a assumir, corretamente - vejo apenas um pequeno problema, já que não está dito mais claramente a fonte - uma nova concepção de currículo. Currículo enquanto espaço multireferencial de aprendizagem.
Chegamos ao mito e novamente a retomada das angustias da introdução dos computadores nas escolas. Excelente capítulo que aponta para a possibilidade de superação dos medos a partir do enfrentamento com base no conhecimento deste elementos maquínicos, cada dia mais hominizados.
Apesar da qualidade geral do texto a versão que li apresenta um considerável números de erros de digitação, concordância e redação que não prejudicam evidentemente a compreensão mas que precisam ser revistos para a versão definitiva. Também existem problemas na normatização das referências bibliográficas que precisam ser corrigidas.
No mais, aceito o desafio. Creio que temos pela frente uma grande tarefa de buscar, de forma intensa, esta relação penetrante, complexa e interativa entre a imaginação e ciência... O convite para olhar pela fresta da porta já foi feito... para mim...convite aceito.
Este é o meu parecer.
Savador, 02 de dezembro de 1997.
Nelson De Luca Pretto