A partir deste número do Jornal da Ciência Hoje, o leitor poderá acompanhar um debate – que gostaríamos que fosse o mais amplo possível! – sobre o Programa Sociedade da Informação, lançado pelo Governo Federal em dezembro de 1999. Vamos estar publicando vários artigos sobre a temática e no primeiro, já nesse número, discuto os aspectos mais gerais do programa, principalmente a sua forte tendência de alinhamento com a considerada inexorável lógica de mercado do mundo contemporâneo. O próximo artigo, de Flávio Wagner, professor da UFRGS e Presidente da Sociedade Brasileira de Computação, tem o seu foco nos aspectos de Pesquisa e Desenvolvimento. Os dois últimos artigos dessa primeira série, são de Maria helena Bonilla, doutoranda da Faculdade de Educação da UFBA, que discute o capítulo de Educação do livro Verde. Carlos Afonso, um dos fundadores do Alternex e do IBASE, estará, no quarto artigo da série inicial, concentrando sua análise na implementação do Fundo de Universalização de Acesso – o famoso FUST - que demorou nada mais nada menos que três anos para ser regulamentado.
Lembramos a todos que o Programa Sociedade de Informação possui um sítio na rede Internet estando Livro Verde em fase de discussão pública. E existe um formulário para as contribuições no próprio sítio do Programa em www.socinfo.org.br. Gostaríamos muito de poder fazer desse espaço da SBPC um fórum privilegiado para discutir essas questões. Sendo assim, fica o convite para que o leitor possa aqui se manifestar a partir desse número, seja com comentários sobre os textos já publicados , seja pelo envio de novos artigos para dar continuidade ao debate. Pretendemos, após isso, fazer uma síntese do que aqui foi discutido e publicado de tal forma a ser mais uma contribuição da SBPC e da comunidade acadêmica para a implantação de um Programa Sociedade da Informação que, efetivamente, atenda aos interesses da sociedade brasileira como um todo. A discussão está aberta.
Os artigos que estão nessa página são maiores do que os que foram publicados no Jornal da Ciência Hoje por razões de espaço por lá. Os próprios autores reduziram seus artigos.
Nelson De Luca Pretto (*)
Durante o ano de 2000 o governo brasileiro implementou um grande projeto que envolveu mais de uma centena de profissionais, entre acadêmicos, políticos, administradores públicos, empresários, lideranças comunitárias, para produzir um documento inicial que definisse as bases para a inserção do país na chamada Sociedade da Informação.
O Programa foi lançado pela Presidência da República em dezembro de 1999 e, durante cerca de um ano, 12 Grupos de Trabalho (GT) buscaram elaborar uma proposta política para essa inserção, considerando as mudanças que estão acontecendo no mundo em função da presença generalizada das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). O objetivo foi o de construir um documento inicial - conhecido internacionalmente como Livro Verde (Green Book) - que, após a sua publicação, ocorrida em setembro passado, pudesse ser amplamente discutido pela sociedade brasileira, através de audiências públicas, congressos, conferências e discussões em associações, sindicatos, federações, empresas, universidades, escolas, enfim em todos os espaços sociais. As discussões já foram intensas durante as reuniões desses GTs. Como o leitor pode imaginar, essa foi uma empreitada difícil já que, entre tantos outros pontos, as diferenças de concepções políticas e ideológicas sobre o que significa essa tal sociedade da informação, estiveram sempre presentes. E de forma muito intensa, tanto nas linhas como nas entre linhas. Pior, às vezes já nas primeiras linhas. De fato, desde a primeira versão do Livro Verde, a página de abertura continha a seguinte frase: "assistir televisão, falar ao telefone, movimentar a conta no terminal bancário e, pela Internet, verificar multas de trânsito, comprar discos, trocar mensagens com o outro lado do planeta, pesquisar e estudar são hoje atividades cotidianas, no mundo inteiro e no Brasil."(pag. 3 - grifo meu). Juntamente com Leonardo Lazarte, da UnB, coordenei ao longo desse tempo, o Grupo de Trabalho sobre Educação e, desde o início, combatemos fortemente essa abertura já que ela não representa a realidade brasileira e muito menos serem essas, "atividades cotidianas" nesse nosso país de tantas diferenças econômicas e sociais.
Em nossas reuniões, insistíamos na necessidade de considerar que esse Programa teria que estar centrado numa lógica diversa daquela imposta pela economia e pelo mercado internacional. Um Programa como esse, mais do que um projeto específico para a chamada sociedade da informação, tem que ser entendido como sendo um verdadeiro projeto de sociedade. É a concepção de sociedade que temos e que queremos que deverá presidir qualquer ação nessa área. Um Programa que busque dar conta das inúmeras desigualdades que vivemos no país e que, ao tratar das questões tecnológicas, não crie mais uma: aquela relativa aos sem-acesso às TIC. Um programa, em última instância, que esteja centrado na busca de, ao oferecer esse acesso, trabalhar para diminuir as outras desigualdades tão conhecidas em nosso país.
Um Programa como esse tem que estar, obviamente, preocupado com a modernização do governo, desenvolvendo propostas para uma administração eletrônica. Tem que estar preocupado com o desenvolvimento e a automação das linhas de produção, do sistema bancário, dos transportes, do comércio. Não imaginamos que seja possível esquivar-se dessas e de tantas outras questões mas, evidentemente, o que precisa presidir essas iniciativas e políticas é a busca da construção de uma sociedade menos injusta. No caso específico da Internet, os dados são assustadores e bem demonstrados tanto no próprio Livro Verde como também no excelente artigo "Internet no Brasil: o acesso para todos é possível?" de Carlos A. Afonso, diretor da Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS) e um dos integrantes do GT Educação. Menos de 6% dos municípios brasileiros têm provedores de acesso local à rede Internet e o número de brasileiros conectados é muito baixo, não chegando a 7% e, mesmo assim, a grande maioria pertencente às classes mais abastadas. Isso só vem a reforçar a chamada infoexclusão e coloca na mesa o nosso maior desafio: como aumentar a presença de toda a população brasileira na Sociedade da Informação? Pelo que temos visto até agora, a infoexlcusão tende a intensificar-se se não mudarmos esse enfoque, baseado num mesmo modelo e, principalmente, numa mesma lógica excludente, como acontece com todas as demais políticas brasileiras para a área social. Carlos Afonso propõe os Telecentros. Nós, na Faculdade de Educação da UFBA, os Ciberparques, necessariamente articulados com o sistema público de educação. A Telemar, junto com a Escola do Futuro, está criando comunidades virtuais nos estados onde opera. Outros, certamente, estão propondo diferentes iniciativas. Isso é importante mas não basta. Agora já temos o Livro Verde. Ele precisa ser discutido amplamente pela sociedade e não podemos esperar apenas a iniciativa do Programa, na promoção das chamadas audiências públicas previstas no próprio documento. Precisamos de outras e inovadoras iniciativas. Peça um Livro Verde! Promova e cobre do SocInfo [http://www.socinfo.org.br/] condições para discuti-lo na sua comunidade, no seu sindicato, associação, universidade, escola. Interfira de forma enérgica na mobilização da sociedade brasileira e, com isso, de nossos políticos e gestores das políticas, na montagem de um amplo programa de inclusão da grande massa da população brasileira na chamada Sociedade da Informação. Das primeiras às últimas linhas desse novo programa, certamente, teremos um texto que possa de fato refletir a realidade brasileira e, mais do que isso, possa se constituir num arsenal de inclusão. Inclusão de cidadãos, não como meros consumidores, seja de produtos ou de informações, mas como sujeitos plenos que participam do mundo contemporâneo enquanto seres éticos, autônomos e com poder de decisão.
(*) Nelson De Luca Pretto é Professor e Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Foi o coordenador, juntamente com Leonardo Lazarte (UnB) do GT Educação do Programa Sociedade da Informação. pretto@ufba.br http://www.ufba.br/~pretto
Maria Helena Silveira Bonilla (*)
Alfabetização digital é hoje, no contexto das chamadas Sociedades da Informação, um dos pontos mais enfatizados. No Brasil, o Programa SocInfo dá prioridade à informatização da economia mas, para que esse objetivo possa ser atingido, investe maciçamente na resolução de outras questões – universalização do acesso às tecnologias da informação e comunicação e preparação dos indivíduos para fazerem uso delas – consideradas básicas, necessárias à preparação do ambiente onde o setor econômico poderá desenvolver-se . O Livro Verde dá grande ênfase à alfabetização digital, como a habilidade necessária para que a população possa fazer uso das tecnologias de informação e comunicação, mas não precisa muito bem qual o significado desse termo. Nem mesmo no capítulo que trata da Educação na Sociedade da Informação, isso fica muito claro. Diz apenas que a alfabetização digital precisa ser promovida em todos os níveis de ensino por meio da renovação curricular, fazendo parte da capacitação necessária para atuar no âmbito do uso das tecnologias, sendo que para atuar no âmbito da aplicação e geração, outras competências tornam-se necessárias. Em um quadro destaque dá a entender que alfabetização digital é um processo "meramente" de compreensão de informações. Apesar do "meramente", ligar alfabetização à compreensão já é um avanço, pois historicamente, no país, é considerado alfabetizado todo aquele que consiga codificar e decodificar símbolos, independente do processo de compreensão. No entanto, nada disso está explicitado.
Destaca ainda que é preciso aumentar drasticamente o nível de alfabetização digital do País, condição necessária para que aumente o grau de penetração das novas tecnologias na sociedade brasileira, de forma que esta sociedade esteja mais bem preparada para as mudanças em curso. Mas para quais mudanças a sociedade precisa estar preparada? Se for para as transformações generalizadas que estão acontecendo na sociedade contemporânea, aumentar o nível de alfabetização digital não é suficiente. Agora, se for apenas para a informatização da economia, talvez isso baste...
É no capítulo que trata da temática da Universalização de Serviços para a Cidadania, que esse conceito é melhor explicitado. Diz ser imprescindível promover a alfabetização digital, de maneira a proporcionar a aquisição de habilidades básicas para o uso de computadores e da Internet, habilidades que aumentem as oportunidades no mercado de trabalho. Ou seja, ser alfabetizado digital é ser usuário de serviços oferecidos pelas novas tecnologias.
A meta prevista pelo Programa é que um em cada cinco brasileiros atinja um nível de alfabetização digital mínimo até 2003. Mas o que é mesmo um nível de alfabetização digital mínimo? Está indicada a oferta de treinamento básico para que a população possa adquirir essa habilidade nesse curto espaço de tempo. Sugere-se o oferecimento de (auto)aprendizado de noções básicas de uso de serviços de informática, Internet, etc., disponíveis a custo zero (em vídeo e/ou na rede), cursos livres, presenciais e a distância, testes de habilitação reconhecidos pelo mercado, como formas de promover essa "alfabetização" aligeirada.
Como pode-se perceber, a previsão de investimentos na capacitação da população é muito pequena, se é que podemos chamar alfabetização digital de "capacitação". Como o grande objetivo do Programa é a informatização da economia, essa nova economia, digital, necessita de um grande número de consumidores para não perder negócios. Entende-se que as comunidades de baixa renda constituem uma parcela significativa desses consumidores, sendo necessário prepará-los para poderem atuar na nova sociedade de forma que esse modelo econômico não corra o risco de estagnar-se. Além disso, considera que as habilidades necessárias para ser esse consumidor são as mais elementares possíveis – basta ser capaz de navegar e efetuar compras on-line. Daí a falta de uma política para democratização do acesso - entendendo democratização, é claro, para além da universalização do acesso e da alfabetização digital; como participação efetiva, onde os indivíduos têm capacidade não só de usar e manejar o novo meio, mas também de prover serviços, informações e conhecimentos.
Portanto, na concepção do Programa Sociedade da Informação no Brasil, a alfabetização digital consiste em ter habilidades básicas para poder usar as novas tecnologias numa perspectiva de usuário consumidor de bens, serviços e informações. O problema não está em conceber "alfabetização digital" nessa perspectiva, e sim em prever que isso é suficiente para considerar o indivíduo como "incluído" na Sociedade da Informação. É evidente que na perspectiva economicista, estar "incluído" significa ser consumidor; no entanto, inclusão é um conceito bem mais abrangente do que isso, significa que aquele que está incluído é capaz de participar, questionar, produzir, decidir, transformar, é parte integrante da dinâmica social, em todas as suas instâncias.
Como conseqüência dessa visão reducionista, as necessidades educacionais são minimizadas, uma vez que basta cursinhos de curta duração – treinamento – para "capacitar" a população a fazer uso das tecnologias. Em momento algum é considerado que essas habilidades básicas são adquiridas em alguns poucos contatos com a tecnologia, sem a necessidade de cursos de treinamento. Também não é considerado que a necessidade educacional básica da população brasileira é alfabetização sim, mas alfabetização em sentido amplo, em todas as áreas, abrangendo não só os processos de codificação, decodificação e compreensão, mas também processos de análise, organização, seleção, produção e socialização de informações e conhecimentos. Nessa perspectiva, uma política de educação de qualidade é fundamental.
Mas onde está o MEC, que não participa desse processo? Na lista dos cerca de 150 especialistas que participaram da elaboração do Livro Verde não encontramos sequer um representante do Ministério da Educação. Como sempre, teremos programas oriundos de diferentes Ministérios, tratando da mesma temática, mas totalmente desarticulados. O que não é de estranhar, pois nem os programas do próprio MEC têm articulação uns com os outros. Dessa forma, fica difícil trabalhar com as questões educacionais básicas da sociedade brasileira hoje, como é o caso da alfabetização, da cidadania, da inclusão.
O próprio Livro Verde aponta as limitações da concepção que toma a alfabetização digital como indicador suficiente para considerar o indivíduo como incluído na Sociedade da Informação. O capítulo que trata da Universalização de Serviços para a Cidadania está apontando para a necessidade de, além da alfabetização digital, capacitar as pessoas para a utilização das mídias em favor dos interesses e necessidades individuais e comunitárias, com responsabilidade e senso de cidadania, permitindo que as pessoas atuem como provedores ativos dos conteúdos que circulam na rede, sendo que, para isso, não basta a universalização do acesso, é necessário também a democratização do uso.
O capítulo que trata da Educação na Sociedade da Informação também aponta nessa direção ao afirmar que as pessoas, embora "alfabetizadas" no mundo digital, necessitam de "algo mais para efetivamente funcionar na sociedade da informação". Traz a noção de fluência – proposto no relatório de trabalho do programa "FITness" (Fluency with Information Technology) do Conselho Nacional de Pesquisas dos EUA, em 1999 – como sendo a "capacidade de reformular conhecimentos, expressar-se criativa e apropriadamente, bem como produzir e gerar informação". No entanto, não explora com maior profundidade essa questão. Ao contrário, ao afirmar que essa capacidade está reservada a profissionais com conhecimentos especializados em tecnologias de informação e comunicação, aprofunda a polarização: alfabetização digital para a grande maioria da população, os consumidores, e fluência para a pequena parcela que consegue realizar cursos de graduação ou pós-graduação. Isso significa que somente estes terão a oportunidade de produzir e expressar-se? Por entender que produção e expressão estão intimamente ligadas ao conceito de cidadania, somente esses profissionais poderão ser cidadãos? Aliás, a marca do capítulo que trata da Educação é justamente a preocupação com a especialização – propondo inclusive que esta seja cada vez mais aligeirada - e não com a democratização do conhecimento.
Considero que (re)construir conhecimentos, expressar-se criativa e apropriadamente e produzir e gerar informação são capacidades que qualquer ser humano pode desenvolver, com ou sem as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação. No entanto, essas tecnologias possibilitam potencializar essas capacidades e abrem espaço para o surgimento de outras, independentemente de as pessoas terem ou não um curso especializado. Portanto, é possível trabalhar com a noção de fluência em tecnologias da informação e comunicação em todas as esferas sociais, relacionando essa noção com o conceito de cidadania e enfatizando o papel da Educação nesse processo, educação que acontece em todos os espaços de aprendizagem, formais ou não, e não apenas em cursos especializados.
Optar entre oferecer à população alfabetização digital ou alfabetização ampla ou fluência em tecnologias da informação ou qualquer outro conhecimento ou habilidade que esteja relacionado à educação é apenas uma decisão política, pois não existe nenhuma limitação, seja de natureza psicológica, pedagógica, sociológica, econômica, que impossibilite esse acesso.
(*) Doutoranda em Educação na Faculdade de Educação da UUFBA. Bolsista CAPES. Professora do Departamento de Tecnologia da UNIJUI bonilla@ufba.br http://www.ufba.br/~bonilla
Flávio Rech Wagner (*)
O Programa Sociedade da Informação, elaborado pelo MCT e consubstanciado em setembro de 2000 através do Livro Verde, deve ser analisado a partir de duas vertentes distintas. A primeira destas vertentes é sua função de definidor de uma política nacional que procura articular todos os aspectos relevantes para a Sociedade da Informação. Esta política nasce da concepção fundamental de que o país precisa ter objetivos nacionais bastante claros quanto à sua inserção competitiva no cenário internacional, de tal modo que as Tecnologias da Informação contribuam para nosso efetivo desenvolvimento econômico e social, tendo em vista a evidente importância das mesmas na definição de lideranças e iniciativas na sociedade do conhecimento que estamos começando a vivenciar. Como premissa básica desta política coloca-se a universalização do acesso da sociedade às Tecnologias da Informação, em especial à Internet e aos serviços que esta pode prestar. Como reflexo da visão articuladora desta política, o Livro Verde contempla questões ligadas a mercado e trabalho, universalização de serviços, educação, conteúdos e identidade cultural, serviços do governo, P&D e tecnologias-chave e infra-estrutura de redes e processamento de alto desempenho. Como formulador de política, o Livro Verde relaciona uma longa lista de ações prioritárias que deveriam ser executadas pelos muitos agentes públicos e privados de alguma forma vinculados aos objetivos do Programa.
Pela ótica desta primeira vertente, e considerada a questão numa visão macroscópica, pode-se afirmar que o Livro Verde atinge plenamente o objetivo de definir uma política clara e bem articulada, mesmo que se possa ter eventuais objeções a alguns aspectos desta política, como uma certa preponderância do econômico sobre o social. É ainda inegável o mérito de sua elaboração a partir de um trabalho exaustivo que envolveu acomodar contribuições vindas de pessoas e entidades das mais variadas áreas de conhecimento e setores da sociedade (governo, indústria, academia, sociedade civil).
No entanto, o Livro Verde também precisa ser analisado por outra vertente, ou na verdade muitas outras vertentes, correspondendo aos variados aspectos que são cobertos pela política por ele definida. Esta é uma visão mais microscópica, mas que precisa ser considerada com toda a atenção, para que a sociedade se certifique que as ações e diretrizes propostas conduzem o país efetivamente a alcançar os objetivos maiores do Programa. Este artigo considera, em particular, a questão da Pesquisa & Desenvolvimento, considerando três aspectos que consideramos essenciais.
A primeira constatação que salta aos olhos é o aparente descompasso entre a pouca ênfase dada a P&D no Livro Verde, e portanto no Programa e na política nacional para a área, e a origem dos recursos orçamentários previstos para o Programa no Plano Plurianual do governo federal. Este Plano prevê investimentos superiores a 3 bilhões de reais neste Programa. Destes recursos, parcela menor corresponde a investimentos diretos do governo federal, através de ações de seus ministérios e agências. De fato, a maior parte dos recursos deveria vir de investimentos feitos pela iniciativa privada, em consonância com os objetivos do Programa, com base na utilização de incentivos como os previstos na Lei de Informática. Ora, de acordo com esta Lei, os recursos aplicados pelas empresas estão direta e legalmente vinculados a atividades de P&D em Informática, realizadas nas próprias empresas ou em parcerias com instituições de ensino e pesquisa, já que a Lei está claramente comprometida com o desenvolvimento tecnológico autônomo do país. Seria portanto de se imaginar que, tendo em vista esta origem dos recursos, o Programa privilegiasse de alguma forma as atividades de P&D. No entanto, isto não ocorre. Pelo contrário, durante toda a fase de elaboração do Livro Verde, houve uma clara divergência de posições a respeito desta questão entre a coordenação do Programa e o GT formado para dar contribuições na área de P&D. No Livro Verde, P&D é apenas uma parte de um dos seus vários capítulos, e poucas foram as contribuições de fundo oferecidas pelo GT de P&D que foram incorporadas ao texto.
O problema talvez pudesse ser resolvido se houvesse uma distinção entre a definição de uma política nacional para a Sociedade da Informação, que certamente deve integrar múltiplas dimensões e não pode privilegiar apenas P&D, e a aplicação de recursos num Programa que é financiado em grande parte por empresas, com base num dispositivo legal que está vinculado a atividades de P&D. Mas esta distinção não está clara no Livro Verde nem nas manifestações dos responsáveis pelo Programa no MCT.
Uma segunda questão está relacionada ao enfoque dado a P&D no Livro Verde. Na realidade, o Programa pretende privilegiar P&D em tecnologias-chave, partindo da idéia que o Brasil deve identificar determinadas tecnologias que estejam mais diretamente relacionadas aos objetivos específicos do Programa (lembrando: universalização de acesso) e nas quais existam vocação e competências nacionais que permitam resultados a curto a médio prazos. Embora esta idéia possa parecer bastante pragmática para um país carente de recursos, ela encerra perigos.
Por um lado, é muito difícil, na área das Tecnologias da Informação, que se possa realmente identificar tecnologias que serão essenciais dentro de 5 a 10 anos. As mudanças tecnológicas, às vezes impulsionadas por conjunturas econômicas, ocorrem de forma imprevisível. Há menos de um ano atrás, havia uma febre mundial de investimentos nas empresas de Internet (as famosas "ponto com"), ocorria um surto de pequenas empresas e qualquer negócio nesta área parecia fadado ao sucesso inevitável. Hoje, pouco tempo depois, muitas destas empresas desapareceram, os investidores se retraíram e possivelmente apenas algumas grandes empresas sobreviverão. A atual diminuição no crescimento econômico nos Estados Unidos pode também motivar alterações bruscas e significativas nas estratégias mundiais das grandes empresas de alta tecnologia. Além disto, novas tecnologias, ainda em gestação em grandes empresas transnacionais, podem viabilizar novos produtos e serviços e tornar outros completamente obsoletos num curtíssimo espaço de tempo.
Por outro lado, nenhuma tecnologia pode ser dominada de forma independente de uma cadeia de conhecimentos que envolve muitas outras tecnologias relacionadas, tanto na mesma área de conhecimentos como em áreas próximas. Aliás, foi o próprio MCT quem utilizou a expressão "cadeias de conhecimento" para identificar as gamas de pesquisas que deveriam ser apoiadas pelos fundos setoriais recentemente criados. O domínio de uma dada tecnologia se dá, na verdade, como numa pirâmide, onde esta tecnologia está no cume de uma sucessão de camadas, cada vez mais amplas à medida que nos aproximamos da base. O domínio do cume não é possível sem uma base sólida.
É por estes motivos que o GT de P&D defendeu enfaticamente a necessidade do Programa apoiar pesquisas em um amplo espectro de tecnologias, evitando a concentração em algumas tecnologias-chave. Esta estratégia é que garantiria ao país o domínio de uma base tecnológica ampla e por isto mesmo flexível, capaz não apenas de permitir rápidas adaptações frente a mudanças tecnológicas e econômicas bruscas como também de criar condições de geração autônoma de novas tecnologias no país.
A terceira e última questão está relacionada à vinculação entre P&D e a formação de recursos humanos. O Livro Verde, no seu capítulo sobre Educação, dá um enfoque bastante amplo ao tema, considerando a necessidade de "alfabetização digital" da população, sem o que a universalização de acesso e a conseqüente democratização dos benefícios das Tecnologias da Informação não são possíveis. O mesmo capítulo do Livro Verde trata de todas as outras formas de educação associadas à Sociedade da Informação, incluindo-se aí a formação de recursos humanos especializados no desenvolvimento de novos produtos, serviços e, principalmente, tecnologias, ou seja, profissionais formados nos níveis de graduação e pós-graduação em cursos de áreas como Computação, Telecomunicações e Microeletrônica.
Sabe-se muito bem que P&D não sobrevive sem recursos humanos qualificados. Não se pode pretender traçar uma política nacional de P&D nas Tecnologias da Informação se esta não considerar, em altíssima prioridade, a vinculação entre o ensino e a pesquisa, que sabemos ocorre principalmente nas universidades. Esta vinculação ficou infelizmente perdida no Livro Verde. O capítulo que trata de P&D e Tecnologias-Chave apenas menciona esta vinculação, sem discuti-la em maior detalhe e sem considerá-la em alta prioridade. Ao contrário, o leitor é apenas remetido ao capítulo sobre Educação, onde, compreensivelmente, a formação de recursos humanos para o desenvolvimento tecnológico é tratada como mais um componente dentro de um contexto mais amplo.
Podemos identificar aqui, talvez, mais uma conseqüência da contradição intrínseca existente no Livro Verde, que pretende ser a um só tempo definidor de uma política nacional para a Sociedade da Informação e formulador de ações concretas para investimento num Programa financiado em boa parte por empresas com recursos da Lei de Informática e que devem visar P&D. No primeiro papel, podemos até considerar aceitável a discussão da formação de recursos humanos para o desenvolvimento tecnológico como parte de uma análise global da questão da Educação. No entanto, na formulação de um programa que deve priorizar P&D, a formação de recursos humanos sofisticados deveria se articular primordialmente com o desenvolvimento científico e tecnológico nas universidades e nos centros de pesquisa das empresas.
(*) Professor Titular do Instituto de Informática da UFRGS. Presidente da Sociedade Brasileira de Computação. E.mail: flavio@inf.ufrgs.br
Página inicial de Nelson Pretto.
Ou então vá/volte para outros textos meus