http://www.wam.umd.edu/~markv/Dairy-L.html            Abaixo os portais-currais...

uma homenagem a André Lemos da FACOM que detonou brilhantemente esta questão

    trecho do meu texto apresentado na ENDIPE, maio.2000.

    o artigo de André Lemos no www.pilula.com.br. Aqui ou !

 

Linguagens e Tecnologias na Educação

Nelson De Luca Pretto

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Indivíduos e grupos articulados em várias partes do mundo, usando intensamente as TICs, passam a ter importante papel como uma possibilidade de quebra da presença homogeneizante da mídia tradicional, centrada ainda na forte concentração de propriedade dos meios e naquilo que denomina-se de sistema broadcasting de comunicação. Ou seja, um sistema que espalha a informação, emitida em poucos centros, para uma multidão de receptores.

Mesmo com a tendência a uma convergência dos equipamentos e também das empresas, vemos que a própria mídia vive um momento de transição muito forte. Ainda temos uma simples migração da mídia impressa tradicional para a Web. São os jornais ocupando esse espaço e colocando as redações que produzem o jornal impresso diário, ao mesmo, alimentando os sites on line, sítios que, no fundo, reproduzem o jornal impresso apenas acrescentando um pouco mais. Isso está mudando. Começam a surgir as redações específicas para a rede. Começamos a viver a febre dos portais, que passam a ocupar as manchetes dos mesmo jornais e publicidade e das mesmas TVs, significando um movimento quase alucinado de perda de controle do que a Net pode significar para a mídia e a para a sociedade em geral. Para dar conta disso, o que começamos a ver é a montagem de verdadeira redações específicas para esse mundo da rede, com a busca do velho sistema de furo jornalístico, notícia em primeira mão e, no fundo, uma busca desenfreada de organizar tudo. De imaginar o leitor, o cibernauta, como um ser incapaz que precisa ser guiado na sua navegação no ciberespaço.

Como afirma André Lemos, estamos presos aos Portais-currais que "configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que nos tratam como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos. Devemos nos afogar em números"

Em outras palavras, exatamente o oposto daquilo que entendemos como sendo a característica de maior valor da rede e do ciberespaço. Ainda de acordo com Lemos,

O limite da emissão sempre foi o que deu poder às mídias clássicas e agora os Portais, sob a balela de nos ajudar à não nos perdermos nesse mar de dados, nos aprisionam e limitam nossa visão da rede (do mundo?), fazendo fortuna de novos jovens nasdaquianos. Dizem que tudo existe num Portal, e que não precisamos nos cansar em buscar coisas lá fora. Mas quem define o que é tudo? Voltaremos à edição clássica dos conteúdos que fez o quarto poder dos mass media?

Embora busquem agregar supostos conteúdos importantes, os Portais nos tiram, enquanto fenômeno hegemônico (e é aqui que quero situar minha crítica) a possibilidade da errância, da ciber-flânerie, nos transformando em surfers-bois, marcados pelo ferro do e-business. Devemos reverter a hegemonia e a pululação desta nova prisão eletrônica que se configura com a atual onda de Portais-currais.

 

Se retomarmos a 1998, quando a organização W3C [http://www.w3.org] apresentava o crescimento do número de usuários da rede e constatava que 50% dos cliques levavam a apenas 1% de sítios visitados e 80% levavam à apenas 26% dos sítios existentes, podemos ver o quão preocupante é a questão.

Como já afirmava anteriormente,

"preocupante porque a Internet tende a se tornar o maior repositório do conhecimento humano, embora ainda mantendo o mesmo estilo de concentração na produção do conhecimento e na divulgação de informações dos chamados tradicionais meios de comunicação de massa. Não chegamos a afirmar que temos o mesmo sistema de broadcasting, de distribuição de informações via meios centralizados, como vemos no caso dos sistemas de televisão. No entanto, nos parece um importante indicador para que possamos pensar na pouca diversidade de sítios sendo localizados por estas buscas indicando-nos, consequentemente, a necessidade de um repensar sobre a sistemática de produção e divulgação de sítios que expressem as diferentes culturas e valores locais"

 

O movimento foi rápido. A febre dos portais tende obviamente a ser uma tentativa de por ordem no caos! Em outras palavras, organizar a Internet para que o leitor (receptor?!) saiba para onde ir. Ainda em outras palavras,: saiba o que consumir!

Observando o desenvolvimento das tecnologias de comunicação em todo o mundo podemos perceber que a tendência de que a comunicação continue a se dar em um único sentido é muito forte. Por exemplo, existe uma previsão na página da xHTML [http://www.w3.org/TR/xhtml1/#why] de que, em 2002, 75% dos acessos à Internet ocorrerá via "non-desktop manchines": celulares, decodificadores de TV por assinatura ("set-top boxes"), etc.. Em outras palavras, serão acessos a partir de equipamentos desprovidos de recursos de edição e formatação de mensagens o que significa, que, mais uma vez, os usuários serão apenas consumidores de informações geradas de forma centralizada. Mais uma vez, sem essas possibilidade de edição e formatação das mensagens - capacidades são indispensáveis à distribuição da inteligência – não se terá a possibilidade da escolha de o que, quando, como, em que nível de profundidade, abordagem, etc., se deseja interagir com o sistema. [contribuição de Cláudio Costa Pinto (FACED/UFBA)]

(...)

o texto completo estará sendo publicado em breve pela ENDIPE

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Morte
aos
Portais

++por andré lemos

++++++Febre da rede e paliativo contra o suposto excesso de informação, os Portais-currais configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que nos tratam como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos. Devemos nos afogar em números.

++++++O que fez da Internet o que ela é hoje foi a possibilidade de todos sermos emissores (e de qualquer coisa). Não é por acaso que pululam ICQs, web-cams e páginas pessoais as mais diversas. Essa busca de tactilidade e de emissão generalizada ampliou e fez surgir a quantidade de informações que temos hoje. Essa é a verdadeira vida digital.

++++++O que chamam de excesso não é novo e tem mesmo uma conotação negativa e moralista. Ora, a imprensa causou esse mal estar ao aumentar o volume de informações disponíveis; e podemos falar o mesmo das bibliotecas ou da nossa banca de jornal da esquina, onde não conseguimos tratar e compreender todas as informações que estão ali.

++++++Qual o limite para que algo seja considerado excessivo? Qual a solução para esse suposto excesso? Instituir editores e Portais-currais que nos levariam à informações já consagradas e estruturadas pela nova ordem digital? É isto que nos dizem os arautos da segurança e da mediocridade. E tudo isso para nos ajudar a não nos perdermos nas malhas da rede. Devemos insistir na perdição do afogamento, do naufrágio e não da navegação simplória rumo à um porto seguro.

++++++O limite da emissão sempre foi o que deu poder às mídias clássicas e agora os Portais, sob a balela de nos ajudar à não nos perdermos nesse mar de dados, nos aprisionam e limitam nossa visão da rede (do mundo?), fazendo fortuna de novos jovens nasdaquianos. Dizem que tudo existe num Portal, e que não precisamos nos cansar em buscar coisas lá fora. Mas quem define o que é tudo? Voltaremos à edição clássica dos conteúdos que fez o quarto poder dos mass media?

++++++Embora busquem agregar supostos conteúdos importantes, os Portais nos tiram, enquanto fenômeno hegemônico (e é aqui que quero situar minha crítica) a possibilidade da errância, da ciber-flânerie, nos transformando em surfers-bois, marcados pelo ferro do e-business. Devemos reverter a hegemonia e a pululação desta nova prisão eletrônica que se configura com a atual onda de Portais-currais.

++++++A palavra Portal têm uma conotação mística, como porta de passagem, como canal que nos abriria à outros mundos, à novos universos possíveis e impossíveis. O que está acontecendo agora não é a abertura ao imprevisível, ao excessivo e ao desmesurado, mas fechamento ao mesmo, à nossa limitação ignóbil que só busca a certeza, a segurança e a repetição.

++++++Contra a febre de emissão que criou e dá vida à rede, os Portais estão tentando nos fazer coach-potatoes digitais que acham-se felizes por encontrar aquilo que procuram e que pensam em manterem-se na segurança de suas limitações, não estando dispostos à perdição do imprevisto.

++++++Pela sobrevivência da vida e da emissão irrestrita no ciberespaço, deve-se gritar a morte simbólica dos Portais-currais que tratam o que é excessivo de forma moralizante, desviante, improdutiva ou dispersiva. Esqueceríamos assim que é esta despesa improdutiva que estrutura e dá alma a qualquer agrupamento social. A assepsia, a certeza e a segurança são sinônimos de morte, na rede e fora dela.

++++++Esperamos então a rebelião dos bois marcados em ferros de bits e bytes. Que eles possam arrebentar os currais digitais e as amarras dos infelizes Portais. Senão estaremos para sempre presos nas garras do banal, do mesmo ou do instituído, achando apenas o que procuramos, perdendo a possibilidade de cruzar com o inusitado que poderia balançar nossas certezas e nos fazer um pouco mais ricos e complexos.

André Lemos

Porto Alegre, junho de 2000