Salvador, 13 de julho de 2001. Página 04

A SBPC, a Bahia e a festa da ciência

Nelson Pretto (*)

 

Mais uma vez a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência ocorre em Salvador. De 13 a 18 deste mês vamos receber na UFBA mais de dez mil pessoas, entre cientistas, professores universitários, políticos e estudantes que, ao longo de quase uma semana, discutirão questões ligadas a quase todas as áreas da ciência, tecnologia, cultura, educação e política.

Já recebemos aqui na Bahia outras reuniões dessa sociedade científica, criada em 1948. Emblematicamente aconteceram aqui a 11ª, a 22ª e a 33ª reuniões anuais. Dessa vez não esperamos mais dois anos para, continuando a série, recebermos a 55ª. Há 20 anos atrás, quando a reunião foi aqui na Bahia, todo o campus de Ondina foi tomado por uma multidão de pessoas. A UFBA ficou pequena, como pequena está também agora, para a 53ª reunião anual.

Durante a ditadura militar, a SBPC foi o placo de manifestações em defesa das liberdades políticas e pela volta do país ao regime democrático. Sou um desses que pode ser considerado meio que filho da SBPC. Desde o início da minha formação participei ativamente das reuniões da SBPC. Partíamos de ônibus para Natal, Recife, Porto Alegre, em delegações monumentais. Participávamos de tudo e até da policia apanhamos. Os um pouquinho mais velhos certamente lembram do cerco ao Beirute – bar sempre em moda na seca Brasília – quando a polícia e o exército reprimiam nossos movimentos, tanto os de ir e vir, como os de luta contra a repressão e a ditadura militar instalada no país. Quem não lembra da reunião de São Paulo, transferida às pressas porque o governo militar havia proibido a reunião prevista para Fortaleza? Naquele ano, em um tempo mínimo, organizamos um dos mais emocionantes eventos que já vivi, reunindo uma verdadeira multidão na PUC de São Paulo, com o histórico teatro Tuca sendo palco de grandes manifestações em defesa dos direitos humanos.

Os grandes encontros, históricos em vários momentos da vida brasileira, levam para os auditórios onde se realiza a SBPC, mais de um centena de pessoas. É comum se estar andando pelos corredores das universidades onde acontece a SBPC e observarmos uma multidão se deslocando em outro sentido para assistir a uma mesa redonda ou conferência que mudou de lugar por absoluta falta de espaço. De boca em boca, comenta-se: Milton Santos (o nosso saudoso!) mudou para o anfiteatro. Paulo Freire (nosso também saudoso!) foi transferido para o circo. Sim, para o circo, porque foi exatamente aqui na Bahia que demos inicio ao que hoje já é a marca da SBPC: a instalação de um circo para abrigar os grandes debates. Naquele longínquo 81, percebemos que a UFBA não possuía um auditório que pudesse comportar os grandes eventos. Não tivemos dúvida: montamos um circo, todo colorido, bem no meio do campus de Ondina. As delegações chegavam e ficavam encantadas com aquela inovação para um congresso científico. Claro, não faltaram os críticos que, com uma certa ironia e, certamente, uma enorme inveja, diziam: só podia ser na Bahia! E foi mesmo. E pegou! Hoje não tem SBPC que não tenha um circo encravado no meio dos prédios dos sisudos campi universitários. Uma verdadeira festa da ciência. Um festa que é básica para a formação de um cidadão pleno. Nesses dias neoliberais de tempo acelerado, poder ficar durante cinco dias, caminhando e conversando com colegas do Brasil todo, discutindo a crise energética, a sucessão presidencial, as políticas de educação, a biodiversidade, tomando alguma coisa nas inúmeras barracas que se instalam no espaço da reunião, é algo fundamental para a formação de todo pesquisador.

A SBPC está aí, e a Faculdade de Educação da UFBA, vai abrigar cerca de 800 jovens que estarão vindo para a SBPC. Para nós, lugar de jovem é na educação e é por isso que lá os abrigaremos. É a SBPC uma oportunidade sem igual para que todos nós, jovens e velhos, juntos, possamos discutir temas variados, convivendo com as diferenças de concepções políticas, ideológicas e cientificas, num espaço de alegria e reflexão teórica. Uma verdadeira festa da ciência e da cultura, que mais uma vez a Bahia abriga.

 

Diretor da Faculdade de Educação da UFBA. Doutor em Comunicação. http://www.ufba.br/~pretto

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