Educação em tempo de conexões totais

Nelson Pretto @

publicado no jornal O Paulino, Colégio São Paulo, Salvador/BA, ano 2, n°3. 1997. p.7

 

Sentado frente a meu computador dou um pulo ali na Inglaterra e vejo os resultados de pesquisas que fizeram Dolly a partir de uma senhora ovelha de seis anos. Uma nova ovelhinha que não se sabe ainda, na verdade, se nova é. Depois, cansado de clones, pulo para ver notícias on-line sobre a festa do Oscar, em Hollywood. Dou um pulo maior e encontro os Orixás nas páginas das ONGs baianas, abrigadas pela Rede Bahia. O tamanho do pulo não tem mais a ver com distância. A distância física que nos acostumamos a medir com alguns instrumentos e que indicavam o quão distante uma coisa ou pessoa estava. Hoje, estar aqui e acolá, é apenas uma questão de conexão. E, mais precisamente, de velocidade de conexão.

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia nestes últimos anos vem se dando de forma muito veloz sendo o sistema de comunicação aquele que mais tem vivido esta alucinação. Muitos dos leitores destas linhas viveram uma Bahia com uma única TV Itapoan em preto e branco. Poucos aparelhos, programação pequena, começava sei lá que horas, propagandas e programas com um tempo que hoje nem podemos imaginar. Um tempinho atrás só tínhamos a TV ao vivo, pois ainda não existia o videoteipe (lembra que falavamos assim?!). Os filhos cresceram... a gente envelheceu mas.. nem tanto e... quase já estamos vivendo o fim da televisão. Se você tiver curiosidade e ler o livro de George Gilder (A Vida depois da Televisão - Ediouro) vai perceber que muito provavelmente antes mesmo de irmos embora deste mundo, vamos ver a morte da televisão, nós mesmos que acompanhamos o seu nascimento cerca de 50 anos atrás. Aquela comunicação baseada na emissão central, vinda de um estúdio que espalha informações e a gente do lado de cá, passivo, recebendo sem possibilidade de interferir, está com seus dias contados...

Assim também está acontecendo com a escola, que insiste em trabalhar na perspectiva de empurrar conhecimentos aos alunos. Uma escola que até coloca estas tecnologias no seu dia-a-dia mas... o faz de forma superficial. Termina fazendo porque, no fundo, todo mundo faz. E, com isso, entra neste mundo globalizado, pós-moderno, achando que fica atualizada sem perceber que, assim, está ficando mais atrasada ainda. Não basta colocar as tecnologias na escola. É preciso muito mais. É preciso percebermos que elas estão aí, mais do que simples máquinas que vão invadindo - e vão mesmo, tenha certeza! - o nosso mundo. Elas estão - as máquinas, sim! - estabelecendo uma outra relação com os seres humanos, constituindo-se nos elementos estruturadores de uma nova forma de pensar... Um nova forma de pensar que incorpora um pouco tudo aquilo que para nós pode parecer estranho em nossos filhos, alunos e amigos mais novinhos: a possibilidade de estabelecer, simultaneamente, inúmeros links, inúmeras conexões, como dizem os Titãs, tudo ao mesmo tempo aqui e agora!

No início deste ano letivo vim ao São Paulo conversar sobre estas coisas. Acho importante professores, alunos e pais pensarem mais, muito mais, sobre o que significa este momento histórico que estamos vivendo. Estas transformações não são pequenas. Pequena está sendo a nossa escola - seja pública ou particular - que continua olhando tudo que ocorre fora dela como algo apenas ligado à moda ou modismos de intelectuais, por um lado, ou, o que é pior, como uma grande orquestração de uns poderosos que imaginam dominar o mundo, como pensou George Orwell em seu antiguíssimo 1984.

Naquele dia, com os colegas professores e professoras aqui do ~São Paulo, refletimos muito sobre a necessidade de abrirmos nossos corações e mentes para este mundo que desabrocha a nossa frente mas, não como simples gamemaníacos, infomaníacos ou coisas do tipo e sim como profissionais especializados que somos - ou deveríamos ser - com capacidade de compreender e usar estes elementos do mundo contemporâneo, realizando a sua crítica e incorporando-os ao nosso cotidiano para, efetivamente, transformar a escola. Em última instância, transformar nossas vidas, possibilitando construir um mundo mais feliz e mais justo, com muito mais emoção.

 

 

@ Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da UFBA, Doutor em Comunicação pela USP, autor de A Ciência nos Livros Didáticos (EDUFBA, 1995) e Uma escola sem/com Futuro - educação e multimedia (Papirus, 1996).

Seu E.mail é "pretto@ufba.br" e você pode conhecer um pouco mais sobre ele visitando a sua home-page http://www.ufba.br/~pretto