Carta de demissão da coordenação da Rede Bahia


Aos usuários da Rede Bahia,

Ao longo dos últimos dois anos estive colaborando, enquanto Assessor do Reitor da UFBA, para a consolidação da Rede Bahia e da informatização da UFBA.

As dificuldades que venho encontrando no relacionamento externo à Universidade, no plano municipal, estadual e federal me obrigam prestar aos usuários da Rede algumas explicações que fundamentam o meu pedido de afastamento como representante da UFBA no Comitê Gestor da Rede Bahia, renunciando, conseqüentemente, à Coordenação da Rede Bahia.

Pelas razões que passarei a expor, estou, ao mesmo tempo, sugerindo à UFBA o seu afastamento da Rede Bahia e a comunicação ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e Rede Nacional de Pesquisa (RNP) a decisão de não mais sediar o Ponto-de-Presença (POP) da RNP no Estado. Como alternativa, estou sugerindo ao Magnífico Reitor da UFBA, que a Rede UFBA seja conectada a um provedor comercial presente no estado, que possa oferecer melhores condições de velocidade da que nos vem sendo oferecido pela RNP.

Como deve ser do seu conhecimento, desde 1991 a Universidade Federal da Bahia está conectada à RNP através de linhas de 9.600 bps. No início, estas linhas atendiam basicamente aos professores da UFBA e poucas outras instituições externas. Ao longo destes anos tentou-se fazer uma articulação maior com o Governo do Estado para a montagem de uma rede que apoiasse o desenvolvimento, científico, tecnológico, cultural e educacional no nosso estado.

Inúmeras reuniões foram promovidas a nível local na tentativa de articularmos solidamente uma rede estadual interligada à RNP que, neste período, consolidava-se como um esforço do MCT para implantar no Brasil um backbone de qualidade para a utilização da Internet. Este esforço local culminou com a criação da Rede Bahia em 1994, através de protocolo de cooperação firmado pela UFBA, Governo do Estado, Prefeitura de Salvador, Federações da Indústria, Comércio, Agricultura, SEBRAE, IEL e Telebahia.

Naquele momento acreditávamos na possibilidade da montagem de uma rede conjunta, mista, que pudesse atender aos interesses acadêmicos e comerciais, público e privado.

A nível nacional, o projeto da RNP começava a sofrer a concorrência da Embratel, estabelecendo-se uma discussão pública, já do conhecimento de todos.

Durante todo este período, inúmeras vezes tive a oportunidade de manifestar-me sobre a necessidade de uma maior articulação entre o projeto RNP e a redes regionais que, paulatinamente, consolidavam-se. Acreditava, e ainda acredito, na necessidade de que este projeto nacional fosse uma conjugação de esforços regionais, sob a liderança clara do MCT/RNP. Infelizmente, se isto ocorreu, foi sem a presença da Rede Bahia. Recebemos um pacote pronto, designando-nos uma linha de 128 Kbps. até hoje não implantada.

Durante todo este período, insistíamos, daqui da Bahia, sobre a necessidade de implantar este backbone misto a partir de parcerias locais com os setores de comunicação uma vez que a vocação das universidades públicas não era - e não é! - a de vender Internet. No nosso caso, com a Telebahia, já estávamos com uma minuta de convênio pronta, discutida durante quase três meses, para implantar a Internet no estado de forma conjunta. No entanto, a Telebahia montou seu próprio serviço Internet e passou a atender os provedores de acesso na Bahia já que oferecia melhores condições, obviamente por se tratar da empresa de telecomunicações no Estado.

Mesmo assim, a UFBA insistia na necessidade de uma parceria efetiva com o Estado e a Prefeitura, com o objetivo de termos uma rede acadêmica pública consolidada, com eficiência, confiabilidade e velocidade de conexão. Mais uma vez, praticamente somente a UFBA investia na Rede, com equipamentos, linhas, pessoal, atendimentos a usuários, assistência técnica, inclusive para a montagem das redes de nossos parceiros e concorrentes.

Mesmo assim conseguimos, em condições tão adversas, criar e/ou catalisar a criação de um POP específico para as ONGs (mais de 15); ter um site como o da PROMOEXPORT, com todas os dados da economia, cultura, infra-estrutura física e de serviços, produtos para importação e exportação do nosso Estado, voltado basicamente para o comércio internacional; ter o resultado do vestibular na Internet, com busca automática por nome; ter um site específico sobre o Carnaval baiano, com uma conexão direta com a Casa do Carnaval; ter em sua rede cerca de 82 outras instituições entre públicas e privadas (centros de pesquisa, hospitais, escolas públicas de primeiro grau, ONGs, empresas estatais, universidades, sindicatos, associações).

No entanto ...

* continuamos bloqueados, com a irrisória velocidade de 9.600 Kbps

* não participamos, em nenhum momento, das discussões do novo backbone que a RNP está implantando e impondo ao Brasil como sendo "a solução técnica mais viável".

* continuava não havendo nenhuma articulação com as redes regionais que compunham o projeto RNP. Apenas recebíamos as definições do que esta sendo designado para a Bahia.

* estamos tendo, em média, 10 Instituições por mês pedindo desligamento da Rede em função da nossa baixa velocidade de conexão.

As novas linhas de 2 Mbps começaram a ser implantadas no Brasil e, somente então, a RNP fez o pedido das demais linhas, inclusive a nossa. Qual não foi a minha surpresa ao saber que tanto Embratel como Telebahia não tinham possibilidade de atender o nosso pedido de 128 Kbps antes do próximo mês de setembro (fax da Telebahia dirigido à Rede Bahia).

Claro que isto nos leva, mais uma vez, a questionar os critérios utilizados para a designação das novas velocidades? Porque os pedidos de viabilidade técnica, feitos pelo CNPq à Embratel para os não contemplados com 2 Mbps ficaram aguardando a execução desta conexão primeiro? Porque tudo não foi solicitado conjuntamente? Problema de caixa, argumenta-se na RNP... mas para pedir viabilidade técnica precisamos de caixa?!!

O resultado desta desastrosa ação é que, no caso baiano, nossa conexão a 128 Kbps só poderá ser atendida no próximo (sic!) mês de setembro. Como alternativa, estuda-se agora uma conexão dupla de 64 Kbps.

Não bastasse a difícil situação nacional - ou justamente por causa dela! - também foram aumentando os problemas locais. Ninguém estava mais agüentando a situação. Desde janeiro deste ano a PRODEB, representante do Governo do Estado na Rede Bahia, contratou uma conexão Internet à Telebahia. A PRODASAL, representante da Prefeitura de Salvador na Rede Bahia, fez parceria com um provedor comercial com maior velocidade de conexão, para colocar as páginas do carnaval e manter a sala de imprensa atendendo a correspondentes estrangeiros que estavam na Bahia para cobrir a festa. Um número muito grande professores da UFBA já procura outros provedores para abrir contas e com isto poder pesquisar com mais velocidade.

Estes fatos levaram-me a pedir a demissão do cargo de Coordenador da Rede. Lamentavelmente, a meu ver, com isso, encerramos nosso esforço de implantar e manter na Bahia, uma rede acadêmica pública que pudesse prestar um serviço de qualidade visando o nosso desenvolvimento, científico, tecnológico, cultural e educacional. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente a todos usuários e a imprensa em geral, que sempre deram apoio amplo ao trabalho que vinha fazendo a UFBA nesta direção.

Atenciosamente,

Nelson Pretto

Salvador, 05 março de 1996.


Para maiores informações, email-me:

pretto@ufba.br
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