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Quinta-Feira, 15 de Fevereiro de 2001 |
Artigo
De olho no social
Pingue-pongue / Nelson Pretto
Marco
Gramacho
mgramacho.redacao@correiodabahia.com.br
Integrante do Grupo de Trabalho sobre Educação, do Programa Sociedade da Informação, Nelson Pretto, 46 anos, defende uma concepção de sociedade que privilegie menos o mercado e questões econômicas, levando a população a tornar-se produtora de conhecimento, e não mera usuária ou consumidora na internet. O diretor da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal da Bahia (Ufba) participou na última quinta-feira, no Centro Tecnológico de Educação da Bahia (Cefet), da primeira discussão pública sobre o Livro verde, programa de ações para democratização do acesso às novas tecnologias da informação, lançado há duas semanas.
Ele falou sobre a necessidade de diminuir o número de pessoas que não têm acesso à rede mundial de computadores e afirmou nesta entrevista que não se pode esquecer que a alfabetização digital está vinculada às "demais alfabetizações, da língua, dos números, da ciência, da expressão corporal", diz. "Em outras palavras, ou articula-se isto de forma intensa ou a alfabetização será pela metade e vai gerar o analfabetismo funcional digital".
INFORMÁTICA - Em que consiste a Sociedade da Informação?
NELSON PRETTO - O programa Sociedade da Informação foi desenvolvido por diversos países no mundo inteiro, com o objetivo de desenvolver políticas para a sua inserção neste mundo de conexões, tecnologias e de globalização muito intensa. A idéia desses países sempre foi a de juntar um grupo de especialistas em diversas áreas do conhecimento para elaborar as propostas iniciais em termos de educação, saúde, transportes e política de desenvolvimento científico e tecnológico no chamado Livro verde. O livro é a primeira etapa do processo. No meu ponto de vista, é o ponto fundamental: ele tem que ser amplamente discutido para se constituir em políticas que efetivamente atendam às necessidades da população. Paralelamente, já vão sendo implantados alguns programas.
I - Quais as implicações políticas desta sociedade?
NP - Do ponto de vista filosófico e político, quando se elabora um programa como este é necessário ter claro um projeto de sociedade, mais do que um programa de Sociedade da Informação. Temos que saber qual é a concepção de sociedade que estamos querendo. Dentre tantas concepções, a predominante vincula exclusivamente a questão do mercado, através do fenômeno da globalização. A questão econômica e a do mercado, na nossa concepção, têm que ficar subjacentes à questão social. Falamos da necessidade de formar um cidadão pleno, mas o que percebemos hoje é que o conceito de cidadania está enfraquecido. Hoje, associa-se apenas cidadania ao direito do consumidor, e isto é apenas uma parte da cidadania.
I - Quais são as ações do Livro verde na Bahia?
NP - Num esforço do Cefet, Universidade Federal da Bahia, Fundação Luís Eduardo Magalhães, dentre outros órgãos, já fizemos uma primeira audiência pública para começar a discussão. Agora o grande desafio é articular todas as universidades e faculdades (estadual, federal e particulares), governo do estado e iniciativa privada no sentido de efetivamente universalizar o acesso à internet e promover a democratização da informação. O que precisamos é articular todas as universidades públicas, e tenho certeza de que aceitam este desafio, numa grande conexão em rede, montando uma rede científica, cultural e educacional, para que, a partir de cada universidade, possa-se efetivamente conectar escolas públicas e, a partir daí, haver uma inclusão digital de toda a população.
I - Qual serão as ações de educação a distância do Livro verde?
NP - O Livro verde fala muito em educação a distância, mas temos que tomar muito cuidado com esta questão. O que precisamos hoje é fortalecer a conexão do sistema público de ensino, mais do que "centrar fogo" nas questões de educação a distância, apesar de sabermos que elas são importantes e devem ser consideradas. No entanto, no meu ponto de vista esta discussão é que mais tem gerado equívocos. Fala-se muito nas questões de alfabetização digital, mas não podemos esquecer que a alfabetização digital não está desvinculada das demais alfabetizações, da língua, dos números, da ciência, da expressão corporal. Em outras palavras, ou articula-se isto de forma intensa ou a alfabetização será pela metade e vai gerar o analfabetismo funcional digital. Não há como simplesmente dizer que se vai qualificar um trabalhador ensinando rudimentos de informática, porque ele vai ser um profissional de segunda categoria também.
I - O governo da França anunciou um projeto para ensinar aos estudantes a navegar na internet. Qual a opinião do senhor sobre isto?
NP - Não é necessário ensinar aos estudantes a navegar na internet. A "meninada" sabe fazer isto tranqüilamente. Eu acho que precisamos ensinar à população como participar de forma mais contundente da sociedade. A navegação é uma coisa absolutamente simples e, mais do que colocar a população como usuária, como consumidora, ela deve ser produtora de conhecimento. Se estas tecnologias forem colocadas dentro da escola, a "meninada" vai passar a utilizá-las de formas diferenciadas. Não precisa centrar esforços, no meu ponto de vista, em cursos famigerados para ensinar a navegar. A Faculdade de Educação fez recentemente um trabalho com o Movimento dos Sem-Terra e, numa única tarde, os monitores dos assentamentos já estavam navegando e utilizando e-mail. Ou seja, esta não é a questão central.
"Livro verde"
Lançado oficialmente na Fundação Luís Eduardo Magalhães, há duas semanas, o Livro verde prevê um investimento total de R$3,4 bilhões e um dos objetivos é levar o acesso a internet para 73 mil escolas públicas até o final de 2002. Em 2003, cerca de 36 milhões de usuários devem estar on-line no país, o que vai representar aproximadamente 20% da população brasileira.
Elaborado sob coordenação do Ministério da Ciência e Tecnologia como desdobramento do Programa da Sociedade da Informação, o projeto foi implementado em Salvador graças a uma parceria entre o Centro Tecnológico de Educação da Bahia (Cefet) e a Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.
Na Bahia, a Superintendência de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CACTD), ligada à Secretaria de Planejamento, Ciência e Tecnologia (Seplantec), será a responsável pela implementação do Livro verde no estado através da definição de prioridades e políticas.
"Livro branco"
As idéias e opiniões colhidas nas discussões sobre o Livro verde, como a da semana passada no Cefet, resultarão no plano definitivo das atividades do programa, intitulado Livro branco, cuja data de lançamento ainda não está prevista. Qualquer pessoa pode contribuir com sugestões, idéias ou propostas acessando a página do programa (www.socinfo.org.br), segundo a qual "todas as contribuições serão analisadas". As contribuições recebidas serão expostas publicamente no sítio. Os participantes poderão acompanhar o encaminhamento dado para a sua contribuição.
O Livro verde é distribuído gratuitamente, em formato eletrônico (www.socinfo.org.br/livro_verde/index.htm) ou impresso - que pode ser obtido na Assessoria de Comunicação Social do Programa, por e-mail, fax ou carta, bastando enviar solicitação. Devido à grande procura, apenas um exemplar é oferecido a cada interessado.
Em São Paulo, a experiência já colhe os primeiros frutos através do Sampa.org (www.sampa.org.br), projeto que oferece aulas de informática e promove o acesso da comunidade de Capão Redondo, um dos três distritos mais violentos da Grande São Paulo, berço do hip hop, aos computadores, através deste programa.
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