Telemática para a paz

Nelson Pretto *

publicado em A Tarde, de

 

O sucesso da Internet já virou lugar comum. Fala-se da rede das redes em todos os lugares e as aplicações ampliam-se cotidianamente. Empresas, escolas, casa, pequenos negócios, buscam plugar-se no mundo através da Internet. Uma das áreas que vem ocupando este novo espaço de comunicação sem fronteiras é aquela liderada pelas Organizações-Não-Governamentais (ONG's).

Foi lançado este ano na Itália, pela APOGEO - Informática, Realidade Virtual, Ciberespaço, o livro Telmática para paz - cooperação, direitos humanos, ecologia..., um importante trabalho de síntese dos diversos movimentos e associações preocupadas com a paz em nosso planeta.

A idéia que perpassa todo o livro é a busca de confrontar os movimentos violentos de guerra com uma Defesa Popular Não-Violenta (DPN). Para tal, segundo os autores, nada melhor do que utilizar-se as novas tecnologias da comunicação que desenvolvem-se de forma veloz, possibilitando uma atuação cada vez mais eficiente das ONG's preocupadas com a diminuição das diferenças entre Norte e Sul, com maior justiça social, com liberdade de expressão na rede e fora dela.

O livro italiano dá um destaque especial à rede mundial PeaceLink (http://www.freeworld.it/peacelink), que nasceu em 1991 a partir de grupos pacifistas de Taranto e de Livorno na Itália.

A utilização das novas tecnologias nesta área visa o estabelecimento de uma comunicação global buscando-se ser e estar cada vez mais presente em cada parte do planeta. Como dizem os autores, "não podemos ficar esperando porque as tecnologias estão prontas. E nós?!"

As experiências em andamento

Este grande movimento articulado de pacifistas, voluntários, religiosos, pesquisadores de todo o mundo, tem um amplo campo de atuação e penetração.

O estabelecimento de redes cada vez mais específicas, não impediu que ao longo dos anos, diversos movimentos fossem convergindo para estruturas mais amplas de articulação. Um dos maiores exemplos nesta área é a APC (Association for Progressive Communication), que tem no Brasil a liderança do IBASE "do Betinho" ( email: ibase@ibase.br). Estas redes surgem e crescem com o objetivo maior de descentralização da comunicação sem a perda de uma maior aglutinação de esforços. "A rede não tem um centro direcional privilegiado. 'Dirige' quem faz mais coisas, quem organiza e troca idéias e propostas de ações com os outros, não quem busca 'institucionalmente' a prerrogativa da direção e da centralidade organizativa." Para os autores, é exatamente por esta característica de horizontalidade que as redes são por natureza antiburocrática e irreverentemente libertárias.

O livro de Carlo Gubitosa (c.gubitosa@peacelink.it), Enricco Marcandalli (enrico@urra.it) e Alessandro Marescotti (a.marescotti@freeworld.it) faz uma análise do envolvimento dos países do terceiro mundo na montagem destas redes, retomando o trabalho de Charle Foubert nas Filipinas e posteriormente em Roma, com a criação da INTERDOC, um circuito telemático para interconectar os centros de documentação do Sul do mundo que, já em 1989, experimentou um intercâmbio telemático via rádio entre Holanda e localidades remotas da Bolivia, Colombia, Kenya e Bostwana.

Destaca também o esforço que vem sendo feito no continente africano em busca do aperfeiçoamento das suas conexões, visando promover efetivamente a solidariedade entre os povos através das ações telemáticas, sem no entanto, perder-se de vista que estas ações virtuais precisam ser acompanhadas de ações reais em seus locais de origem. Não se pode imaginar que as navegações e as possibilidades de comunicação sejam o suficiente para operar as transformações sociais necessárias para a paz. "A telemática pode ser espetacular mas não faz milagre sozinha. Não transforma a realidade. Não realiza automaticamente os nossos desejos e não produz efeitos concretos se não se atua diretamente com os sujeitos de mudança social. Somente a interação entre comunicação virtual e realidade dos movimentos pode gerar as bases de uma eficácia ação não-violenta. Caso contrário, a telemática corre o risco de ser uma fabrica de palavras presas em um circuito distante da realidade", afirmam os autores do livro.

Na busca de evidenciar ações concretas em andamento no mundo, o livro recupera a história de movimentos como o dos Zappatistas no México (http://peak.org/~justin/ezin/ezin.html), do Greenpeace (http://www.greenpeace.org/), da ALCEI (Associação pela Liberdade de Comunicação Eletronica Interativa - htttp://www.nexus.it/alcei.html), entre outros.

Telematica per la pace possui um capítulo bastante extenso (Páginas Amarelas) com a indicação de endereços na Internet e descrição das atividades de entidades ligadas ao meio ambiente, direitos humanos, drogas, educação, ex-Iugoslávia, Trabalho e Sindicatos, Mafia, Homossexualidade, povos indígenas, entre outros.

Sem dúvida, uma boa contribuição para as navegações na Internet em busca de um planeta mais justo e mais alegre. Como diz a fábula de Gianni Rodarri, na abertura destas Páginas Amarelas, "a salvação da humanidade depende de uma mensagem que um mudo deve transmitir por telefone a um surdo." Nossa esperança reside na possibilidade de termos as novas tecnologias a serviço do nosso desenvolvimento e harmonia. Independente de sermos surdos, mudos, brancos, pretos, italianos ou baianos...

Salvador, Bahia - ago.96

*Nelson Pretto

E.mail: pretto@ufba.br

home-page: http://www.ufba.br/~pretto

Professor da Faculdade de Educação da UFBA. Doutor em Comunicação pela USP. Autor do livro Uma escola sem/com futuro - educação e multimedia, pela Editora Papirus.