Nelson Pretto - pareceres emitidos
Parecer Final de Nelson Pretto (orientador) para a dissertação de Cristiane Nova.
Parecer Final de Nelson Pretto (orientador) para a dissertação de Cristiane Nova.
Misto de ficção com realidade. Realidade do real e realidade do virtual. Daquilo que existe em potencial. Assim é Novas Lentes para a História: uma viagem pelo universo da construção da história e pelos discursos audio-imagéticos, texto muito bem escrito de Cristiane Nova. Assim, no fundo, é a própria autora. Conheci CrisNova – chamada por nós pelo seu login mesmo! – nas atividades da Oficina Cinema-História, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. A conheci como uma estudante de graduação que efetivamente metia a mão na massa. Coisa rara na Universidade. Em quase todas, não só na UFBA.
A Oficina, sem dúvida empurrou-a para estudar mais a temática e, com isto, a idéia do mestrado na Faculdade de Educação da UFBA. Fui a vítima escolhida para a orientação.
Pessoa difícil, é verdade. Característica principal (claro, depois de amar e ser dona de dúzias de cachorros com seus peculiares mitológicos nomes): não gostar de sala de aula. Não gostar de escola. E adorar cinema. Este mundo mágico, cheio de estilos, maneira de representar, de viver realidades. Cheio de escolas, é verdade. Dentre as muitas escolas de cinema que existem no mundo, uma se destaca e tem sido muito grata à cinematografia nacional. Trata-se o chamado cinema de autor que, talvez, seja o que mais seduza a todos! Talvez, por isso, este jeito de CrisNova, meio sem escolas ou, quem sabe, da escola do cinema de autor. Um jeito meio, acima de tudo e de todos. Um jeito… como ela mesmo diz na sua home page e na abertura da sua dissertação, um jeito de não esperar. De sequestar. Ou, como ela cita: " sejamos realistas: façamos o impossível!".
Aí, evidente, o ouvinte e leitor deste parecer já identificará minha grande crítica ao trabalho: ele esta meio acima de tudo e abrange uma espectro muito amplo, as vezes meio passando por cima ou fazendo algumas generalizações precipitadas. Por isso, quase que como conseqüência natural, correu-se o risco de algumas superficialidade que, prejudicaram um pouco o trabalho. Não o desqualifica mas em minha opinião prejudica pois deixar o leitor um pouco irritado com algumas das típicas generalizações da autora. Típicas porque são parte intrínseca de sua personalidade, de seu estilo. De ser, de viver, de pesquisar e de escrever. Este último, sem sombra de dúvida, é um dos ponto alto deste trabalho. Ler as 255 páginas desta dissertação foi uma tarefa extremamente prazerosa. É como o assistir a um filme, numa sala escura, silêncio, o som e uma projeção de qualidade e um roteiro bem estruturado. Não podemos esquecer de mencionar a produção e as locações, que foram feitas com esmerado cuidado. Os personagens e colegas diretores estavam todos ali. Godart, Chaplin, Eisenstein, Orson Welles, Nelson Pereira dos Santos, Ana Carolina, Eduardo Coutinho, Galuber, Ridley Scott, Kulbrich – pessoa difícil e, quem sabe, um perfeccionista como ela, exigente e com isto criador de muitas encrencas, "mau humorado" (por favor, leia as aspas!) – todos eles, estiveram neste percurso e, sem a menor dúvida, ajudaram a construção desta leitura sobre as relações entre a historia, o cinema e a educação. Coisa importante para nós educadores que ainda insistimos em ver as coisas de forma muito fragmentada. Nisto, mais uma enorme qualidade do trabalho
As minhas criticas foram feitas ao longo destes dois anos. E é assim mesmo o trabalho do orientador. A pesquisa e o texto final são da autora, não meus. Minha função - aqui mais do que em qualquer outra anterior orientação – foi a de dar algumas pistas para a navegação. Com elas, cabia à CrisNova, se desejasse e concordasse, seguir as minhas rotas ou, pelo menos, minhas tentativas de construção de algumas planilhas de navegação.
Para exemplificar um pouco o que estou dizendo, vejamos a parte das políticas brasileiras para a área que relaciona tecnologia e educação. Algumas questões são colocadas de forma precipitada. E aí, apesar de estar plenamente de acordo com ela sobre os equívocos que estão sendo cometido pelo governo na implantação das políticas publicas para a área, algumas confusões e generalizações contidas no texto são, em minha opinião, inaceitáveis. Só vou citar um exemplo pois não creio ser o caso de se mexer em nada disso uma vez que são questões de como a autora do texto, vê o presente e o seu desenvolvimento. Na pagina 77 você se refere ao Vídeo Escola, TV Escola e PROINFO e os coloca num mesmo conjunto de categoria que, de fato, não são. Suas referências sobre o equivoco do PROINFO são vagas, apesar de eu mesmo ser testemunha do fracasso em muitos dos aspectos desta política. Só que creio que as afirmações que você faz poderiam ser melhor fundamentadas. Mas lhe faltou paciência. Muito por conta de que você não queria reduzir o escopo da pesquisa. Ampliou o espectro sem poder dar conta de aprofundá-lo o quanto seria desejável.
Mais uma vez, pegando só mais um exemplo, creio que você, ao tratar do Vídeo Escola, deixa de fazer referência mais explicita a autores que já disseram o mesmo que você, e lhe foram leituras úteis. Junto com isso, você generaliza e simplifica. O problema do Vídeo Escola não é só de concepção pedagógica ou cinematográfica. É político também. De um lado foi bom você não ter aberto mais este campo de investigação. De outro, tem que cuidar mais com as generalizações que faz.
Enfim, chegamos ao fim. Não poderia deixar de publicamente colocar estas questões porque afinal, as coloquei ao longo destes dois anos. E o faço sem problemas porque acho o seu trabalho muito bom.
Considero que a seriedade com que você desenvolveu este projeto muito importante para ser destacada neste momento.
Até mesmo o final desta sua dissertação se deu de forma especial, como aliás, não poderia deixar de ser em se tratando de CrisNova. Agora, não mais crisnova ponto br mas crisnova ponto fr. Eu indo para Londres, num vôo da VARIG cruzando o Atlântico e carregando os quilos de sua dissertação, lendo-a e anotando coisas na expectativa de, rapidamente mandar o meu parecer, sugerindo a defesa imediata. Achava que já dava. Mas não... você resolve mexer em tudo. Já na França, eu em Londres, o Brasil do outro lado, e mais discussões pela rede. Eu preocupado... VixÊ!!! a mãe-CAPES vai baixar o conceito da pós-graduação porque temos uma estudante de valor que quer um trabalho perfeito e, com isso, vaiperder o prazo! Desespero. Começo ver você falar na Biblioteca Nacional Francois Mitterand. Mais desespero. Ela vai começar a visitar a mediateca de Paris. La Vilette. Bouborgh. Louvre. Ela vai querer mudar tudo!!! Tensão. A música em bg aumenta. Corta!
Uma casa num subúrbio de Paris. Eros, Psique, Ego..... os seus cachorros correndo pelo jardim. Uma queda – o santo é forte! – e eis que você tem que ficar de molho um mês com uma perna engessada. Corta! Em Londres, orientador dá risadas de felicidade e toma mais uma Guinness. Termina a dissertação no prazo. Alívio para o orientador. A esta altura um orienta-a-dor mesmo! Final feliz. Enfim, como você mesmo escreve em algum lugar do texto: de volta ao começo, ao fundo do fim.
Considero aprovada a dissertação.
Parabéns.
Nelson Pretto