de Edivaldo Couto. FACED/UFBA. Orelha por Nelson Pretto.
Você está lendo a orelha de O Homem-satélite e o título pode parecer estranho e mais para um obra ficcional do que um estudo científico. E o texto é no entanto, um pouco isso. Um ficção real, como diz Edvaldo Couto, o autor. Estamos falando de nós mesmos, imersos nesse mundo de tecnologias inteligentes, rodeados de aparos tecnológicos. Agora mesmo, no momento que você deve estar lendo essa orelha, se estiver em um local público (uma livraria, por exemplo), poderá constatar um pouco disso tudo. Olhe para os lados e para os cantos. Sorria, você está sendo filmado. Seu corpo está sendo guardado, registrado, para controles posteriores ou não, em dezenas de bancos de dados informacionais. Em 1999, na Inglaterra, estimavasse que cada pessoa estaria sendo registrada diariamente nada mais nada menos que 600 vezes. Cameras aqui, satélites em órbita, mecanismos de registro de nosso cotidiano. O homem sendo vigiado e vigiando cada vez mais. Um dia, com um pequeno chip que poderá ser implantando em seu braço, como o fez Eduardo Kac para uma performance em São Paulo, você pode estar entrando nessa livraria que talvez você esteja e, ao ingressar, sua presença já estaria sendo registrada e aquele seu vendedor ou vendedora preferido estaria trazendo as novidades que certamente você gostaria de ler.
Você, com suas próteses implantadas, com suas extensões ampliadas, seus sentidos exacerbados, estaria vivendo plenamente a sua cultura Super Ciber, como afirma Edvaldo Couto nesse seu livro.
Um livro que vem de uma pesquisa de doutorado, que mistura de forma agradável a Bahia de todas as gingas com o mundo tecnológico do ciberespaço.
Edvaldo Couto vai fundo na forma como os baianos celebram a vida e a corporalidade. Partindo de entrevistas e conversas com pessoas do povo ele chega a um dialogo mais franco com os autores contemporâneos, quase todos francês, como ele mesmo afirma, trazendo-nos uma reflexão teórica de importantíssima para o momento contemporâneo. Das entrevistas emergiram modelos, modelos cinematográficos que são seguidos pelos baianos e baianas - seremos todos atores?! - Edvaldo analisa os principais filmes que foram citados nessas entrevistas, destaque, claro, para Robocop. Chegamos, então, a um delicioso conjunto sobre as transformações do corpo nesse mundo de profundas transformações. A grande constatação é a existência de uma certo otimismo com relação ao aperfeiçoamento físico. E o próximo passo, diz Edvaldo, é uma crescente mixagem dessa mixagem homem-máquina.
É esse homem-máquina, homem-satélite, que está inserido nessa era tecnológica, transformando-a e sendo por ela transformado. Para ele, o corpo exige uma abastecimento constante das chamadas nanotecnologias e "é preciso que o corpo, revigorado pelas próteses, no excesso e no luxo dos estimulantes químicos, se sideralize, gravite, também entre em órbita."
Entrar em órbita porém, sem perder o charme. O prazer dos contatos físicos, o gostoso jeito de ser de baianos, brasileiros e de muitos outros povos. Povos que dançam, que brincam, que interagem com outros povos e também com as máquinas, externas ou internas.
O Homem-satélite é um livro que pode nos ajudar a pensar sobre o nosso presente e encaminhar algumas reflexões sobre o nosso futuro. Um futuro que está sendo construído por cada um de nós, já meio homens e meio máquinas....
por nelson de luca pretto (pretto@ufba.br)