Feliz Natal e boas NetCompras
Nelson Pretto
de Londres, especial para Gazeta Mercantil
Final de ano. Os shoppings estão cheios tanto aqui em Londres como em Salvador e no Recife. O espírito natalino incrementa o comércio, de forma assustadora, para a alegria dos comerciantes de qualquer lugar do mundo. No entanto, uma questão surge: de que comércio estamos falando?. Será que ainda nos referimos àquele das lojas da Avenida Sete, em Salvador, da Aldeota em Fortaleza, ou da High Street Kensignton, em Londres? Falamos destes também, mas não só. Ao contrário das iniciais expectativas dos analistas, o comércio através da Internet vem experimentando um crescimento vertiginoso. É o chamado e-comércio.
Aqui na Inglaterra, os principais jornais impressos apresentam, desde o início de dezembro, muitas análises e informações sobre o assunto. São inúmeras matérias com vários links, mostrando esse crescimento e dando dicas de onde se pode fazer boas compras sem sair de casa. A Inglaterra, que sempre foi lenta no processo de modernização tecnológica, vive um movimento muito intenso nessa direção. O número de usuários de Internet aqui cresceu, nos últimos seis meses, de 5.9 milhões para 7 milhões, segundo pesquisa da InternetTrak [http://www.zdnet.co.uk/news/1998/45/ns-6015.html], publicado pelo The Guardian [http://www.guardian.co.uk/], um dos jornais da chamada grande imprensa inglesa, que tem feito muita matéria sobre o tema. O número de visitas a sítios de compras, por exemplo, nesses mesmos seis meses, saltou de 2 para 3.3 milhões, segundo o jornal.
Eu mesmo tenho contribuindo para essas estatísticas. Faço compras pela rede, com certa freqüência, tanto no Brasil quanto aqui. Não cheguei ainda! ao limite de pedir pizza ou qualquer coisa do gênero para o restaurante da esquina mas, livros tenho comprado com freqüência e tenho feito bons negócios. Mas isso não acontece sem razão: este é o setor que tem mais experiência na área.
As primeiras tentativas de se vender alguma coisa via Internet aconteceram, justamente, com livros e softwares. A compra e venda de livros sempre teve um espaço privilegiado na Internet, mesmo quando ainda não se tinha segurança no envio dos dados pessoais via rede. Hoje, o desenvolvimento dos mecanismos de segurança já possibilita uma relativa tranqüilidade a ponto de bancos, financeiras, e o próprio comércio, usar a rede sem grandes problemas para essas transações.
Em todos os setores, esse crescimento é benéfico por um lado e assustador, por outro. Ainda o setor de livros é exemplar nessa questão. Qual o futuro das pequenas livrarias, aquelas que atuam numa relação mais próxima com o leitor, podendo ser consideradas até como formadoras potenciais de futuros leitores? Aquela livraria onde você senta no banquinho, folheia o livro, lê as orelhas, conversa com o livreiro que te fala das novidades que vão chegar. Esta, sem dúvida, está com os seus dias contados e este, certamente, é o preço que temos que pagar por algumas das facilidades de um mundo conectado.
O comércio eletrônico de livros deu um grande salto com a chegada da Amazon Book. Com um acervo monumental - que na verdade não existe fisicamente em nenhum lugar, são apenas referências! - iniciou nos Estados Unidos, passou a atender consumidores do mundo inteiro e, hoje, tem filiais na Dinamarca e na Inglaterra [http://www.amazon.co.uk]. No fundo, isso não faz diferença nenhuma para quem compra a não ser a possibilidade potencial de diminuição nos custos de transporte e rapidez na entrega. Seus preços sempre foram imbatíveis mas, aqui na Inglaterra, ela encontra um forte concorrente local. Ligada à grande cadeia de livrarias VHSmith, a IBS BookShop [http://www.bookshop.co.uk], oferece uma boa quantidade de livros e não cobra a entrega para grandes compras, o que torna os livros de 10 a quase 40% mais baratos. Considerando os altíssimos preços praticados por aqui, sem dúvida, esta é uma boa notícia para o consumidor.
Mas esse incremento no período natalino não é algo isolado. Nos últimos anos, o crescimento do comércio na Internet vem se dando de forma muito intensa em todas as áreas e já faz parte de estratégicos movimentos de mercado. Segundo a PCMagazine deste mês, revista americana especializada em computadores [http://www.zdnet.com/pcmag/news/trends/t981207a.html ], esse boom de vendas on-line não e só uma questão estratégica de curto prazo. Para a revista, a recente aliança entre a América OnLine e a Netscape já é uma estratégia desse novo mundo dos negócios. Um mundo que cresce de forma veloz, prevendo-se, segundo a revista, um salto nas vendas via rede dos atuais U$32 bilhões de dólares para cerca de U$425 biliões de dólares em 2002.
No Brasil também esse comércio tem sido incrementado e, pelas discussões que acompanho, tanto aqui como aí, isso vem exigindo de todos uma certa cautela. Também nesta área não podemos dissociar os movimentos econômicos e comerciais das questões éticas e sociais. Duas questões, a meu ver, merecem destaque para analisarmos esse crescimento e o seu futuro. De um lado, o sistema de entregas. De nada adianta rapidamente comprarmos livros, CDs, passagens, roupas e comidas e esperar dias e dias para recebê-los. De outro lado, torna-se necessário um código de consumidor que garanta, com agilidade, proteção ao consumidor que tenha problemas com entrega, qualidade dos produtos, condições de entrega, entre tantas outras situações.
Não resta a menor dúvida de que países como o Brasil encontram-se frente a grandes desafios. Sem que tenham sido encaminhadas questões éticas e sociais básicas, entramos, no mundo dos negócios, numa outra era. As perspectivas são boas mas, todo cuidado é pouco.
Londres, 13.12.98
Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Comunicação pela USP. Escreve uma coluna na Internet, diretamente de Londres, onde realiza pós-doutoramento no Centre for Cultural Studies/Goldsmiths College. Home-page http://www.ufba.br/~pretto