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"Agora eu entendi tudo. Quem inventou esse tal de computador com internet foi um filho que não agüentava mais a mãe. Aí ele deu esse treco prá ela e ela ficava batucando nas teclinhas achando que estava falando com ele!!!"
Minha mãe, maio de 99
Nelson Pretto*
Quem diria que nesses tempos em que tanto condenamos o nepotismo, resolvo começar um artigo citando nada mais nada menos que minha própria mãe. Desculpem mas, realmente, não tive outro jeito. Talvez o leitor ache que estou um pouco nostálgico por ter passado quase um ano fora da Bahia, mas não foi só isso. Durante o ano que vivi na Inglaterra, tive uma oportunidade sem igual. Vi começar a estourar por lá uma saudável briga pelo oferecimento gratuito de internet. A competição é grande e já estão oferecendo de graça a assinatura e também as ligações telefônicas. Ou seja, não se paga absolutamente nada para usar a internet.
Usei um destes provedores gratuitos e a experiência foi muito boa. Com ele, falava diariamente com minha mãe. Isso me levou a pensar sobre mais esse uso da internet. A oportunidade de pessoas mais velhas poderem estabelecer novas redes de relações e manter outras que, em função das distâncias físicas, podiam estar desaparecendo. Já estava acostumado com isso e conversava com amigos em diversas partes do planeta, mas o que mais me fascinou foi o processo vivido por uma pessoa com um pouco mais de 60 anos - não sejamos tão indiscretos assim! - que aprendeu a usar o computador e a internet com o objetivo de diminuir as distâncias.
Antes de viajar, tentei deixar tudo configurado. Ooopppsss... claro, com o cuidado de explicar as palavras! Configurado, conectado, ícone, inbox, tudo parte de um novo vocabulário de difícil explicação para pessoas habituadas a outro uso do vernáculo. Apesar de tudo acertado, as coisas não funcionaram como previsto. Tive que, a distância, experimentar toda a minha capacidade pedagógica para dar umas aulinhas. Ansioso, esperava as respostas. Não sabia se minhas explicações ajudariam alguma coisa. Podia pegar o telefone e dar novas orientações, mas isso eu já tinha feito. Tínhamos que usar a rede. Só se aprende essas coisas se, de fato, fizermos como as crianças que saem por aí futucando o que não conhecem. O argumento de que essas coisas são difíceis e não fazem parte do nosso ambiente natural parece ser um daqueles tradicionais argumentos que precisam urgentemente ser superados. Fazemos muitos discursos sobre as tecnologias, a globalização, as possibilidades de conexão e intercâmbio de culturas mas, concretamente, vemos que essas novidades, que podem ser usadas em uma perspectiva diferenciada, terminam sendo deixadas de lado, mesmo pelos mais jovens que, muitas vezes, já são bem velhos.
Estava vivendo um processo de pesquisa tão intenso quanto minha própria experiência pessoal de comunicação via rede. Mesmo com todas as minhas explicações, ficava preocupado porque as mensagens de minha mãe não chegavam. Um belo dia, eis a esperada resposta:
"Meu filho, estou piradinha com esse negócio, mandei tudo o que vi por aqui, não sei se vai dar certo. Parece que era mesmo o endereço errado (o e-mail, é isso?!). Agora, só falta tu me responderes para ver se deu certo. Um beijão da vovó trapalhona!"
As coisas funcionavam e o que mais me animava era ver como estava se dando esse processo de aprendizagem. Lembrava dos jovens colegas professores que ainda insistem em retardar o seu envolvimento com as chamadas novas tecnologias argumentando que elas são complicadas.
Motivada pela possibilidade de ficar esse tempo todo falando comigo, ela foi aprendendo e, principalmente, se divertindo muito. Ao mesmo tempo, ela passou a usar mais a rede para os seus próprios contatos. Visitava sítios dos programas de televisão, falava com pessoas e parentes de outros lugares, mandava mensagens para serviços de atendimento ao consumidor. Enfim, a internet passou a fazer parte do seu cotidiano de comunicação. Um universo que se ampliava e me fazia lembrar o famoso ator espanhol Pellicena - que está lá pelos 66 anos de idade - que, em uma entrevista ao El Pais em julho deste ano, afirmava que podiam lhe tirar tudo da vida, a mulher, a comida, a casa, mas não podiam lhe tirar o computador. Exageros à parte, o que observo ao estudar as possibilidades de uso dessas tecnologias na educação, é que temos um enorme mundo de desafios pela frente. Um deles, sem dúvida, é o uso da rede pela chamada terceira idade.
Com o crescimento da vida média no planeta, as aposentadorias acontecendo mais cedo, aumentar as possibilidades de comunicação entre as pessoas torna-se um novo desafio para jovens e velhos. As noções de distância e de tempo vão se modificando. A gente vai aprendendo a conviver com uma possibilidade de acompanhar as coisas que acontecem em todas as partes do mundo simultaneamente. Percebo com isso, que as pessoas já estão escrevendo mais, manifestando-se mais e, assim, produzindo conhecimentos. Essas tecnologias possibilitam mobilizações que podem superar as tradicionais fronteiras físicas e políticas. A internet pode ser uma nova possibilidade de articulação mais ampla e, também uma outra mais familiar, onde as pessoas podem estar distantes fisicamente e com uma sensação de proximidade mais intensa.
Aceite este desafio, mesmo que sua mãe esteja aí pertinho: bote ela na internet. Com mais gente usando a rede, mais gente estará nos ajudando nessa verdadeira guerra que travamos para garantir o acesso das camadas populares à internet. Com isso, quem sabe, não estaremos construindo um mundo mais feliz e com as pessoas mais próximas, mesmo que elas estejam fisicamente bem longe uma das outras.
* Professor da Faculdade de Educação da UFBA.
Pós-doutoramento no Centre for Cultural Studies/Goldsmiths
College (www.goldsmiths.ac.uk/cultural-studies/)
da Universidade de Londres.
E.mail:pretto@ufba.br
Home-page www.ufba.br/~pretto/