Nelson Pretto - pareceres emitidos

Parecer de Nelson Pretto - Faculdade de Educação da UFBA - para a dissertação Fim de Século: a escola e a geografia de Maria Inez da Silva de Souza Carvalho.

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A dissertação de Maria Inez da Silva de Souza Carvalho, Fim de Século: a escola e a geografia, discute "a geografia que atualmente se ensina na escola brasileira". E o faz muito bem. Situa de forma correta, no meu entendimento, uma panoramica mais ampla do momento histórico contemporâneo. Para tal a autora navega pelos conceitos de modernidade e pós-modernidade, sem a preocupação de uma assunção excludente (ou um ou outro!) mas referenciando de forma clara os autores que trabalham com estas correntes filosóficas. Assume, portanto, esta discussão como parte de um processo que busca justamente a (re)construção do mundo neste final de século (ou milênio). Em rico momento, a autora introduz um dos conceitos que me parecem mais fundamentais, o conceito de tempo e sua relação com o espaço, fechando o foco para a geografia, que passa a ter nos novos elementos espaço-temporais uma possibilidade de "afirmação, não mais como a prima pobre da história, mas como uma ciência que tem um papel fundamental na explicação do mundo"(p.16). Este pano de fundo, explorado ao longo dos dois primerios capítulos, foi sendo construido numa articulação entre correntes filosoficas, concepção de geografia(as), seu ensino e a possibilidade de uma transformação tanto da própria geografia, como da ciência em geral.

A anlise das concepções da geografia vão dar embasamento e abrirá espaço para uma investigação mais profunda do seu ensino. Nesta análise, a autora contrapõe autores como Lacoste, Vesentini, Moreira, entre outros, com Soja, sendo este, nitidamente, assumido como principal opção teórica para este trabalho.

Metodologicamente a autora define-se por uma pesquisa qualitativa, o que me parece adequado para o seu propósito, enveredando por uma investigação com centro nas professoras de geografia das escolas analisadas e do processo educativo por elas coordenado. Passou a investigar, portanto, "o cotidiano da geografia escolar brasileira" a partir de cinco recusas básicas definidas a partir de Gauthier (pg 30) onde o envolvimento do pesquisador com este cotidiano será fundamental para a compreensão do processo e não apenas dos fenômenos isolados.

Acho absolutamente pertinente e bem colocado o salto teórico proposto pela autora ao centrar sua análise nos chamados materiais didáticos tradicionais, como os livros didáticos, mas não perder de vista a existência de um mundo que transforma-se de forma muito acelerada tendo significativo papel a presença dos meios de comunicação eletrônica, introduzindo verdadeiros desafios à educação e, aqui, não somente da geografia.

De outro lado, a autora deixa claro que a qualidade da educação não está necessariamente ligada ao caráter público ou privado de cada escola, sem contudo deixar de colocar de forma bastante pertinente a crise do ensino público brasileiro como pano de fundo da análise que será a partir de então desenvolvida com base nas observações realizadas em cada uma das escolas investigadas. Os anexos vão demonstrar adiante que esta diferenciação termina por ocorrer mas que o conceito de qualidade - em particular no que diz respeito à concepção de geografia - merece ser aprofundado. E isto será feito. E será feito com uma análise que passa pelo reconhecimento da mudança nas concepções de geografia mas, o principal, que apesar do corpo de conhecimento científico apontar justamente para estas mudanças, o que se observa é uma praxis que mantém o tradicional. E, pior, dizendo que não é o tradicional que se está praticando. Para ela, isto ocorre porque, "nos gritos por transformação, os desvios de rota são comuns", como afirma em sua conclusão (p.107).

Sobre este aspecto a autora concentra boa parte do trabalho, analisando a chamada geografia crítica e a forma como ela foi (e vem) sendo praticada, inclusive gerando algumas grandes distorções. O depoimento colhido pela autora em sua vida profissional e descrito na página 86, ilustra de forma quase dramática a questão. Numa escola, preparando um grupo de alunos para um feira de ciências, a autora é arguida pelos alunos: "Inez, para a parte dos mapas, você vai ter que dar uma mão para a gente. Sabe o que é? Não entendemos nada de mapa porque no ginásio só demos geografia crítica."

Chegamos perto do final. Do final de uma análise do ensino da geografia. Da geografia escolar. Da escola e da educação em última instância. Num mundo de comunicação generalizada, onde o novo vem chegando de forma rápida e brusca. De forma muito clara para o contexto do trabalho a autora suporta-se no livro de David Harvey A Condição Pós-Moderna, e cita Neil Smith: "O Iluminismo está morto, o Marxismo está morto, o movimento da classe trabalhadora está morto... e o autor também não se sente muito bem. " Entre os autores, a esta altura, talvez deva incluir o autor deste parecer...

Sem dúvida as conclusões da autora são importantes para a geografia e o seu ensino mas não se trestringem a ela. O trabalho aqui exposta pode, sem o medo das generalizações precipitadas, ser considerado como uma análise crítica do todo o conjunto da escola e da prórpia educação neste final de século (ou milênio).

Considerado o exposto nestas breve linhas, sou de parecer favorável à aprovação da dissertação de Maria Inez da Silva de Souza Carvalho, Fim de Século: a escola e a geografia.

Salvador, 27 de novembro de 1996.

Nelson (De Luca) Pretto