As crianças na Internet
Nelson Pretto

publicado em A Tarde, 23.07.97.

 

Estou aqui em Cambridge/EUA, no famoso Media Lab do MIT, convidado para uma reunião com cerca de 200 pessoas de mais de 40 países da América Latina, Ásia, África e outros países em desenvolvimento para discutir o futuro das crianças e do aprendizado nestes países, agora inseridos neste mundo digital e global.
  Fomos convidados porque Nicholas Negroponte, Seymort Papert, aquele que criou a famosa tartaruguinha do Logo, e tantos outros, estão preocupados com o futuro das crianças neste mundo digital e global. Eles criaram a Fundação 2b1 (to be one, que em inglês quer dizer ser um) que, junto com o MIT, promoveu este encontro. As idéias foram muitas, e visitar o site da 2b1 (http://www.2b1.org) pode ser uma boa alternativa.
  Estivemos juntos durante cinco dias com pessoas vindas da África do Sul, Slovênia, Armênia, Bangladesh, Malásia, Senegal, Argentina, Colômbia, Costa Rica e tantos outros países em desenvolvimento. São pessoas que estão trabalhando com as chamadas novas tecnologias, especialmente computador e Internet, para promover o fortalecimento de crianças nestes países.
  Estivemos aqui no mais famoso pedaço de criação de tecnologias do futuro (outro dia falo mais sobre isto) convivendo com pessoas que estão experimentando formas de fazer com que as crianças possam de fato estar presentes neste mundo digital, pensando sobre o futuro e o que mais podemos fazer para que este seja mais justo, mais democrático e que os povos possam se falar mais intensamente, com respeito às culturas e aos valores locais.
  Com o corpo aqui mas com a cabeça e o coração presentes de forma intensa na Bahia, vejo o quanto os nossos projetos estão articulados com o que de mais avançado está acontecendo nesta área. Quando Alan Kay, o criador do computador pessoal em 1978, veio até aqui e nos mostrou uma gravação com os formandos de Harvard, uma das mais importantes universidades do mundo, que no dia da formatura não sabiam explicar o porquê das estações do ano, lembrei logo do meu livro sobre A Ciência nos Livros Didáticos, publicado há mais de 10 anos, quando já discutíamos isso aí na Bahia. Mas o importante não era isso. Para mim, o que importa é que vejo que muita gente está insistindo na mesma questão. Não adianta simplesmente colocar as tecnologias dentro da escola. É necessário, como afirmou Alan Kay, discernir sobre o seu uso. Os cursos de especialização do projeto de informatização das escolas no estado da Bahia já estão acontecendo e precisamos estar atentos. O que vimos aqui, mais uma vez, é a certeza de que não adianta simplesmente ensinar o professor a usar as máquinas. É preciso ir muito mais além. É preciso dar condições e autonomia para que estes professores, juntamente com as crianças, possam repensar a escola.
  Para tal, conectar é a palavra de ordem. Os participantes deste encontro foram unânimes em afirmar que um dos maiores problemas que enfrentamos é a conectividade. E para isso, temos que aprender também com a experiência dos outros. Esteve na conferência o governador de West Virgínia, um dos menores e mais pobres estados dos Estados Unidos, descrevendo a experiência de colocar todas as escolas públicas do seu estado conectadas à Internet, iniciando pela pré-escola. Imaginem, colocando as crianças desde cedo fazendo aquilo que elas já sabem para produzirem conhecimento. A companhia telefônica local se encarregou das conexões e, perguntado sobre como conseguiu tal tarefa, o governador não hesitou na resposta: “Well, fiz uma pequena pressão!”. Acho que devemos pensar um pouco mais nisso na Bahia.
  Temos uma grande tarefa e um grande desafio pela frente e necessitamos de muita vontade política e participação da iniciativa privada para avançarmos na construção de um mundo melhor. Os projetos nós já temos. Discuti aqui a experiência da Prefeitura Municipal de Salvador, com o Projeto Internet nas escolas. Também o projeto que a UFBA tem junto com a Escola Parque, para criarmos o Cyberparque Anísio Teixeira. Algumas idéias, de tantas outras que temos e podemos produzir juntos. Estamos abrindo caminhos para esta tão necessária união entre os países e os povos de todo o mundo. Que tal aproximarmos um pouco mais os que vivem em nosso próprio estado, incentivando alguns destes projetos? Isto pode ser um bom começo.

Nelson Pretto, 42, é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, doutor em Comunicação pela USP, autor do livro Uma Escola sem/com Futuro – Educação e Multimedia, pela Papirus. Email:pretto@ufba.br Home page: http://www.ufba.br/pretto 

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