15/09/99. Informática, pag. 02

O uso da Informática na Escola

Nelson Pretto *

Especial para A Tarde

Morar fora do Brasil e todos os dias poder ler A Tarde para saber o que acontece em Salvador. Movimentar a conta bancária sem maiores problemas, a menos o de verificar diariamente a desvalorização do nosso real frente a libra da rainha. São algumas das vantagens da Internet que fazem parte daquilo que chamo do "outro lado" do uso da rede.

Tanto na Inglaterra quanto no Brasil, os jornais mostram a tal letra é (e) no começo de quase tudo. O comércio, virou e-comércio. Os negócios viraram e-business. Os bancos estão na Internet assim como as indústrias e, também, as escolas. Recentemente foi defendida na Universidade de Gotembrugo, Suécia, uma dissertação de mestrado intitulada e-ducation onde Urban Nuldén analisa o uso da Internet no ensino superior [http://www.informatics.gu.se].

O que se quer saber no momento é exatamente o que as escolas estão fazendo na Internet. Como estas tecnologias estão sendo incorporadas ao processo educacional e o que elas estão trazendo de transformação, de inovação ou de simples melhoria para a educação de nossos filhos? Estas questões são complicadas e, quando vemos um país como o Brasil seguindo os modelos internacionais e investindo muito dinheiro na informatização do sistema público de ensino, ficamos a nos perguntar que benefícios teremos. Que tem filho em escola particular já se pergunta sobre isso porque muitas vezes paga extra pela terceirização das aulas informática. Mas, para que estas aulas? Aulas de que? Aulas para ensinar a usar processador de textos ou planilhas eletrônicas? As mais avançadas falam em preparar para o futuro. Que futuro?! Será isso um simples modismo que logo passará? Penso que não e justo aí está o problema.

Precisamos estar atentos a estas políticas porque estas tecnologias podem efetivamente contribuir para uma transformação radical no nosso sistema educacional mas somente se forem utilizadas em outras bases. Se gastamos muito dinheiro com estes equipamentos e repetimos os velhos métodos, o que teremos será apenas uma escola mais cara. Na Inglaterra também existem movimentos nessa direção. E, também aqui, os problemas são parecidos. A rede de supermercados Tesco está investindo cerca de 12 milhões de libras (U$ 19,2 milhões) num projeto que vai do trabalho com as escolas (EscolaNet) ao famoso Millennium Dome, uma grande cúpula para shows e exposições (temporárias e permanente) que será inaugurada na noite do ano novo do final do milênio. Parte do projeto [http://tesco.schoolnet2000.com/welcome/1.html] tem como objetivo construir o que eles estão chamando de arquivos do milênio. Para tal, eles se articularam com especialistas na área de currículo e montaram um projeto de apoio pedagógico às escolas interessadas. Basicamente os professores aprendem a usar computadores - é isso mesmo, tem muita gente aqui também que não sabe usar computador! - e levam para as escolas a tarefa de envolver a turma na construção dos chamados arquivos do milênio. Nada diferente do nosso conhecido sistema de investigação onde a meninada vai a campo, no bairro, nas redondezas, para fazer entrevistas com guardas, motoristas, dono de padaria, enfim, com o povo do seu próprio bairro. Os questionários para estas entrevistas são fornecidos padronizados [http://tesco.schoolnet2000.com/welcome/19.html] e, com os resultados coletados pelas crianças - os chamados pesquisadores! -, as páginas são postas no ar. Todas igualzinhas e padronizadas.

Esta é um das minhas grandes preocupações sobre o uso destas tecnologias. Utilizamos algo que potencialmente é a possibilidade de uma efetiva comunicação com criatividade e reproduzimos exatamente as mesmas práticas antigas, repressoras e centralizadas. Vemos aumentar cada vez mais, o controle sobre tudo que se faz.

Mas isso me preocupa não somente porque está acontecendo aqui mas sim pelo que acontece no Brasil. Outro dia observava as páginas produzidas pelos Núcleos de Tecnologia Educacional (NTEs), parte do PROINFO, programa do governo para a informatização das escolas públicas. Alguns destes núcleos colocaram a mão na massa e não esperaram. Foi o caso de Barreiras, na Bahia, que produziu o material e não teve dúvida, colocou sua página no Geocities, mesmo sem a estar atualizando [http://www.geocities.com/Athens/Crete/3359/]. Mas não faz mal. Usou o Geocities, que é um dos inúmeros sítios que oferecem espaço de graça para publicação de páginas. Esse foi um dos mecanismos encontrados por pequenas e grandes empresas para possibilitar a qualquer um, sem controle, ter suas idéias rodando o mundo e é um dos grandes saltos que se pode dar com a Internet. O Geocities foi o pioneiro (agora foi incorporado pelo Yahoo) mas existem outros. O Tripod é mais um exemplo [http://www.tripod.com] assim como o Terra à Vista [http://www.terraavista.pt], um sítio em língua portuguesa que tem crescido bastante e já hospeda 35% de páginas brasileiras. No Brasil existe o Digiweb [http://www.digiweb.psi.br/index.htm] e o InterMeg@ [http://www.intermega.com.br/].

Este movimento de não ficar esperando as definições e padronizações foi importante no início da Internet - e um pouco por isso ela expandiu - mas ainda é importante nos dias de hoje porque, ao mesmo tempo que crescem as possibilidades em função do desenvolvimento das tecnologias, aumentam também os esforços e tentativas de controle sobre jovens, adolescentes e, também, professores.

Navegando pelas páginas dos NTEs do Brasil, onde estão os professores teoricamente mais qualificados nesta área, o que se vê, muitas vezes, são produções padronizadas, que certamente não correspondem à diversidade cultural das regiões onde estes NTEs estão localizados fisicamente. Em Pernambuco, por exemplo, eles tem quase todos a mesma forma e padrão. O que diferencia, por exemplo, um NTE de Caruaru do de Recife ou de Olinda, três cidades e regiões com fortes e maravilhosos traços culturais? O que diferencia a Itabuna do sul da Bahia de Barreiras, no Oeste baiano?

Essas são questões fundamentais e, se não pensarmos nelas, mais uma vez vamos montar enormes estruturas que potencialmente são estruturas comunicacionais, de diálogo e criatividade, e transformá-las em estruturas burocráticas de cumprimento de tarefas. E se nós, professores, estamos fazendo isso apenas como mais uma tarefa padronizada e burocrática, não resta a menor dúvida que muito em breve - ou será que já começou?! - estaremos passando estas mesmas monótonas e repetitivas tarefas para nossos alunos. E eles, mais uma vez, vão nos odiar!

 

(*) Faculdade de Educação da UFBA. Está em Londres fazendo pós-doutoramento no Centre for Cultural Studies/Goldsmiths College. Lançou recentemente a coletânea Educação & Globalização, pela Editora Unijui. E.mail:pretto@ufba.br Home-page http://www.ufba.br/~pretto