O bug do milênio na educação
Nelson Pretto
O inúmeros contatos que podemos fazer via Internet têm possibilitado, em grande velocidade, a intensificação dos trabalhos coletivos. Como não acreditamos que estas tecnologias afastam as pessoas, destes contatos à distância começam a ser articulados inúmeros projetos em comum, vários deles com a presença física dos interlocutores. Estes encontros passam a ocorrer nos diversos cantos do planeta e são antecedidos e precedidos de contatos, ditos virtuais, muito intensos. Coisas deste mundo contemporâneo, um mundo em veloz transformação.
Estamos chegando ao ano 2000. O ano do bug do milênio, onde as máquinas não vão sabe se estamos na frente ou no passado por causa das confusões dos dígitos. A humanidade vive um momento especial. O processo histórico do desenvolvimento da ciência e da tecnologia universalizou o homem moderno, criando condições objetivas para que ele seja, ao mesmo tempo, universal e tribal (não-local e local). O filósofo italiano Gianni Vattimo, em seu livro A sociedade Transparente, já dizia que, apesar de todos os esforços de concentração das grandes corporações transnacionais "vivemos o mundo da comunicação generalizada, da sociedade do mass media, com uma multiplicação de valores locais".
Estas transformações e desafios que estamos vivendo estão intimamente relacionadas com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e informação que, mais recentemente, ganham incremento a partir do movimento de aproximação entre as diversas indústrias (de equipamentos, eletrônica, informática, telefone, cabos, satélites, entretenimento e comunicação). Este movimento, que é a condição objetiva para o aperfeiçoamento destas tecnologias, faz com que, potencialmente, aumentem as possibilidades de comunicação entre as pessoas.
No entanto, como em todo momento de transição, ainda convivem, neste mesmo tempo, valores deste mundo em transformação com os valores antigos, vinculados aos velhos paradigmas da sociedade moderna. A concentração do capital na esfera do sistema mundial de comunicações é um destes elementos da modernidade ainda presente no momento atual. Esta concentração, que se dá em direção à constituição de impérios de comunicação, gera uma centralização na produção das imagens, das notícias e da informação. O Brasil não foge à regra, com uma grande concentração da propriedade dos meios de comunicação.
Paralelamente, o recente processo de privatização do sistema de telefonia brasileiro coloca a questão na ordem do dia da sociedade como um todo. Isto porque, com um sistema privatizado, se não tivermos uma legislação bastante forte na defesa dos interesses daqueles que não tem recursos para pagar pelo acesso aos meios, teremos um incremento considerável na parcela dos excluídos desta sociedade de informação.
Para nós, que atuamos no setor educacional, estas são questões fundamentais porque, mais do simples tecnologias, o que estamos vendo é o surgimento de uma nova razão, um nova forma de pensar e viver, que começa a ser gestada, articulada por todos esses elementos maquínicos de comunicação e informação.
Países como o Brasil, com tantos problemas sociais a serem enfrentados, depara-se com este novo desafio: construir uma escola que forme o jovem profissional que viverá um novo milênio, num mercado de trabalho em constante transformação.
Os jovens, que já vivem plenamente este mundo alucinado uma vez que convivem mais intimamente com computadores, televisão, videogames, terminam trazendo para a escola este mundo impregnado de imaginação, emoção, raciocínios rápidos e velozes, introduzindo, portanto, estes nos novos elementos, mais presentes e mais determinantes do seu universo cultural.
É neste contexto que torna-se premente um maior acesso das escolas públicas a este mundo de comunicação e isso só será possível se tivermos uma legislação que obrigue as novas operadoras dos sistema de telecomunicações a investirem na universalização do acesso aos serviços. Legalmente, a Lei Geral das Telecomunicações, aprovada pelo Congresso Nacional em julho de 1997 (Lei n° 9472) prevê, em seu artigo 81° a criação de um Fundo de Universalização de Acesso/Serviço. O assunto precisa ser regulamentado e está tramitando na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, da Câmara dos Deputados, como o Projeto de Lei nº 3.808/97, de autoria do Deputado José Pimentel do PT/CE, sendo relator o Deputado Paulo Bornhausem do PFL/SC, segundo informações da ANATEL (http://www.anatel.gov.br)
O que precisamos de forma urgente é evitar que tenhamos um outro bug neste final de milênio. Um bug muito preocupante do que o dos dígitos dos computadores, que provocará uma aumento vergonhoso da exclusão social em nosso país. Neste sentido é importante que todo cidadão, professor, estudante, empresário, político, trabalhador, acompanhe a tramitação desta lei, no sentido de viabilizar uma legislação na área que possibilite a adoção de políticas que diminuam a exclusão em nosso país, favorecendo que as nossas escolas públicas possam efetivamente ter acesso ao mundo da comunicação.
Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. É doutor em Comunicação pela USP. Autor de Uma escola sem/com futuro: educação e multimídia, pela Papirus, entre outros. Email: pretto@ufba.br Home-page http://www.ufba.br/~pretto