São Paulo, quinta-feira, 29 de junho de 2000

Universidade Corporation: início do fim

 

A universidade passou a ser o alvo maior de grupos hegemônicos do mercado, apoiados pelas políticas do governo

 

depois, veja crítica do jornalista elio gaspari e nossa resposta, lá embaixo 


LUIS FELIPPE PERRET SERPA e
NELSON DE LUCA PRETTO


A universidade constituiu-se, durante este milênio, em uma instituição de estudiosos enquanto um centro de produção de conhecimento, de instância de reflexão crítica da sociedade e, mais importante ainda, como um dos pilares mais significativos da formação histórica da sociedade moderna e das gerações que se sucederam desde o século 12. Nas duas últimas décadas deste milênio, em todo o mundo, desenvolveu-se uma concepção hegemônica de universidade com dois traços fundamentais:
1 - O mercado sobrepondo-se às sociedades nacionais e à relação entre essas sociedades;
2 - O conhecimento, núcleo central da universidade, constituindo-se no principal fator de produção e, assim, tornando-se, enquanto produto, uma mercadoria.
Em consequência, a universidade passou a ser o alvo preferencial dos grupos hegemônicos do mercado, apoiados pelas políticas de governo.
Por exemplo, os temas de avaliação e de autonomia estranhamente tomaram a cena, como se na instituição universidade não existissem processos sistemáticos de avaliação, destacando-se a instituição como produtora da sua própria crítica, pois tudo que se coloca como crítica à universidade tem sido produzida em seu interior. A autonomia é um pleito histórico desde a origem da instituição, primeiro em relação à igreja no medievo e, posteriormente, ao Estado na modernidade.
No entanto, a avaliação que se pretende tem o objetivo de transformar a universidade em uma organização empresarial, pois os parâmetros que norteiam a avaliação proposta são de mercado, tais como produtividade, eficiência, eficácia, com ênfase na quantidade do produto, que contamina a qualidade acadêmica, trazendo para o interior da instituição os valores de mercado. Consequentemente, o que se propõe como autonomia não ultrapassa o conceito de heteronomia que pressupõe a existência do outro no acordo, sendo esse outro os parâmetros do mercado e, com isso, sepultando de uma vez por todas a batalha milenar da instituição pela autonomia.
Como exemplo, apresentamos alguns dados recentes do ensino superior nos Estados Unidos retirados do artigo "A nova universidade", de David L. Kirp, da Universidade da Califórnia (Berkeley), (www.thenation.com/issue/ 000417/ 0417kirp.shtml), de 17 de abril deste ano, e cotejaremos com os correspondentes nacionais das instituições federais de ensino superior:
1 - A paridade aproximada dos salários existentes nos Estados Unidos até duas décadas e meia atrás, antes tida como norma, deu lugar agora à disparidade, pois lá, um professor titular de letras, por exemplo, não ganha mais que um professor-assistente iniciante de contabilidade. No caso brasileiro, além dos baixos salários, a política do governo é cada vez mais diferenciar as remunerações através da famosa GEDs, a gratificação instituída para remunerar a presença em sala dos professores.
2 - Nos Estados Unidos, aproximadamente a metade de todo o pessoal de educação superior, hoje duas vezes mais que em 1970, são de meia jornada. Eles são literalmente "adjuntos", marginais ao empreendimento. Além disso, metade dos docentes de tempo integral são agora contratados por tempo limitado, sem chances de efetivação, marcando uma profunda mudança na cultura acadêmica. No nosso caso, enfrentamos o contingenciamento de vagas para concurso e a forte presença dos professores substitutos (contrato temporário) e, no horizonte, a perspectiva de um quadro docente regido pela CLT.
3 - Nos Estados Unidos, 25% dos estudantes de graduação formam-se em negócios, contra apenas 4% em 1970, enquanto as matrículas em ciências sociais e humanas despencam. No Brasil, as matrículas seguem as mesmas tendências, comandadas pelo mercado.
Se a sociedade não desejar ser, cada vez mais, reduzida ao mercado, terá que construir criativamente uma bifurcação nessa tendência, que deveria ter características contra indutivas, baseadas na ordem generativa da universidade e na natureza da conformação das múltiplas subjetividades coletivas e institucionais que emergem cotidianamente nas sociedades contemporâneas, o que significa que a instituição deverá ser um espaço diferencial das múltiplas subjetividades, exercitando a vivência de contextos e a convivência da diferença. Para isso, é necessário operar múltiplos agenciamentos, explorar singularidades e se referenciar não em parâmetros econômicos, mas sim nas dimensões da cultura. Caso contrário, é o fim da universidade e o início da mais cruel das empresas, aquela que lida com as idéias enquanto mercadoria.


Luiz Felippe Perret Serpa, 65, professor da Faculdade de Educação da UFBA (Universidade Federal da Bahia), foi reitor daquela universidade de 1993 a 1998.
Nelson De Luca Pretto, 45, diretor e professor da Faculdade de Educação da UFBA.

Elio Gaspari critica...

São Paulo, domingo, 02 de julho de 2000

CURSO MADAME NATASHA DE PIANO E PORTUGUÊS

Madame Natasha tem horror a música. Ela procura reduzir a baderna do idioma, oferecendo bolsas de estudo às pessoas que acredita poder ajudar. Acaba de conceder mais uma, dupla, aos professores Luiz Felippe Perret Serpa e Nelson De Luca Pretto, ambos da Universidade Federal da Bahia. Referindo-se à tendência que leva um número cada vez maior de estudantes a preferir cursos de negócios, enquanto caem as matrículas dos interessados nas ciências sociais e humanas, disseram o seguinte:
"Se a sociedade não desejar ser, cada vez mais, reduzida ao mercado, terá que construir criativamente uma bifurcação nessa tendência, que deveria ter características indutivas, baseadas na ordem generativa da universidade e na natureza das conformações das múltiplas subjetividades coletivas e institucionais que emergem cotidianamente nas sociedades contemporâneas, o que significa que a instituição deverá ser um espaço diferencial das múltiplas subjetividades, exercitando a vivência de contextos e a convivência da diferença."
Madame pede desculpas, mas não conseguiu entender o que eles quiseram dizer. Para dizer o que disseram, só do jeito que escreveram.

nosso fax para elio gaspari

Salvador, 3 de julho de 2000.

Meu caro gaspari

grato pela referência/reprodução do nosso texto.

Sua coluna transcende o jornal que o publicou.

Estamos aguardando a bolsa.

abraços

felippe e nelson

e você, entendeu?!!!! email-nos  felippe e nelson