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Ainda os didáticos OPINIÃO
NELSON PRETTO
O MEC faz um enorme alarde porque uma comissão por ele contratada encontrou erros nos
livros didáticos em circulação no país. Grande novidade! O assunto é corrente no
Brasil, no mínimo, desde a década de 70. Desde então, insiste-se na normatização como
solução para os problemas educacionais, enquanto as políticas públicas para a área
estão centradas, basicamente, nos materiais, produtos e equipamentos.
A correta opção de retornar à escola a condução do processo educacional, no caso, com
a escolha pelo professor do livro a ser utilizado, esbarra, obviamente, na dificuldade de
como fazer esta avaliação para melhorar a escolha.
Enquanto as editoras alegam que fazem os livros com a qualidade exigida pelos professores,
o MEC cria, mais uma vez, uma comissão para analisá-los, sem nem mesmo lembrar que ele
próprio já demandou e financiou uma enorme quantidade de pesquisas sobre o tema (O que
sabemos sobre o Livro Didático, Unicamp/89) que já apontavam inúmeros absurdos,
distorções e, o mais importante, propostas de políticas para o setor. Alguns Estados
avançam nesta área.
Eu mesmo coordenei no Inep um programa que previa uma articulação com a FAE, para dotar
as escolas públicas de condições para esta análise. Isto porque, atribuir ao professor
esta responsabilidade, sem lhe dar as devidas condições, não muda em nada a situação.
Lamentavelmente nada andou, e a qualidade dos livros é a mesma.
Em 1994, mais uma vez, o MEC/FAE produziu um relatório indicando problemas de conteúdo
nos livros. O mesmo já feito por Marisa Lajolo e Hilário Francklanza (Unicamp), Nilda
Alves (UFF), Regina Zilberman (PUC/RS), Silke Weber (UFPE e SEC/PE), entre tantos outros.
Tudo indicando exatamente o mesmo dessa famosa lista.
Se não tivermos uma base -no nosso caso, escolas e professores- bem qualificada para
tratar este material como qualquer material científico e cultural, ou seja, sujeito à
crítica, não teremos solução para o problema. Ou teremos a pretensão de contratar
alguns iluminados para elaborarem em Brasília um livro ideal para ser adotado em todo o
Brasil? Não podemos esquecer, aliás, que esta proposta sempre circulou no Planalto
Central...
Não se estará, agora, imaginando uma disseminação em massa deste conteúdo ideal, via
televisão? Com os kits tecnológicos chegando às escolas, daqui a pouco estaremos vendo
listas de vídeos condenados pelo MEC... Isto porque o centro da questão -o professor-
continua sendo deixado de lado.
Não me preocupa nem um pouco um livro didático afirmar que o atual presidente da
República é José Sarney. Preocupa-me, e muito, encontrar um professor trabalhando com
este livro e passando a seus alunos esta informação. Isto é que deveria preocupar todos
nós. Mas... quem sabe, não será, no fundo, tudo a mesma coisa?!
Nelson Pretto, 41, é professor da Faculdade de Educação e
assessor da reitoria da UFBA (Universidade Federal da Bahia). |