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Elio Gaspari
entrevista da semana...Nelson Pretto
(42 anos, professor de introdução à informática na Faculdade de Educação
da Universidade Federal da Bahia)
-O senhor acha que o programa do Ministério da Educação de colocar 100 mil computadores
nas escolas públicas vai dar certo?
-Não sou profeta para saber. Posso lhe dizer que tenho dois medos. O primeiro é que essa
chegada dos computadores atropele os professores. Já começou o treinamento dos
treinadores. São cursos de dois meses. É muito pouco. O segundo é que esse projeto
tenha mais a ver com números e festas. Depois da euforia, a nova tecnologia transforma a
velha escola numa velha escola um pouco mais cara. Minhas dúvidas se relacionam muito
mais com a concepção do que é o computador na escola do que com a colocação de mais
uma máquina na sala de aula. Se você pergunta, é bom ou ruim? É bom, mas isso não
quer dizer que vá dar certo.
-Onde o senhor acha que o processo está errado?
-Está errado porque está segmentado. Um pedaço do processo não fala com o outro. O
ministro Paulo Renato Souza disse que a "TV Escola", que usa uma rede de
emissoras de TV para treinar professores, não tem nada a ver com o projeto de
informática. Ora, só tem. O Ministério da Educação não fala com o da Cultura, nenhum
dos dois fala com o da Ciência e Tecnologia, que cuida da rede da Internet e nenhum dos
três fala com o das Comunicações, que está travando o desenvolvimento da rede de
escolas. Finalmente, ninguém fala com os garotos. É a garotada que vai impedir o furto
dos computadores. É a garotada que vai lutar pela manutenção das máquinas. Nesta
semana, em Salvador, eu vou assistir a uma aula na UFBA. Sabe quem serão os professores?
Garotos de classe média e pobres que convivem com computadores. Eu até hoje não vi um
projeto de interligação das escolas com a Internet.
-Como o programa está no começo e é possível corrigi-lo, o que o senhor propõe?
-Primeiro, que se interligue o que está desconectado. Segundo, que em vez de se pensar
num programa que funciona como um trator, se veja primeiro quais são as experiências que
estão dando certo. Terceiro, que se perceba a importância da Internet. Ela não é uma
fase seguinte. Ela é um presente escancarado. Saiba de uma coisa: Mãe Estela me disse
que seu candomblé de Salvador já está na Internet. Ela já se comunica, há tempo, por
e-mail. Não é a Internet que deve entrar na escola, mas as escolas que devem entrar na
rede. Esse negócio de ver a Internet como um negócio que te leva aos quadros do Louvre
é irrelevante. O que ela vai fazer é levar Santo Amaro da Purificação para Estocolmo.
Se eu tivesse que oferecer uma sugestão, diria apenas: vamos devagar, vamos perseguir a
transformação, não a novidade. |