São Paulo, domingo, 17 de agosto de 1997.
Elio Gaspari
entrevista da semana...

Nelson Pretto
(42 anos, professor de introdução à informática na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia)
-O senhor acha que o programa do Ministério da Educação de colocar 100 mil computadores nas escolas públicas vai dar certo?
-Não sou profeta para saber. Posso lhe dizer que tenho dois medos. O primeiro é que essa chegada dos computadores atropele os professores. Já começou o treinamento dos treinadores. São cursos de dois meses. É muito pouco. O segundo é que esse projeto tenha mais a ver com números e festas. Depois da euforia, a nova tecnologia transforma a velha escola numa velha escola um pouco mais cara. Minhas dúvidas se relacionam muito mais com a concepção do que é o computador na escola do que com a colocação de mais uma máquina na sala de aula. Se você pergunta, é bom ou ruim? É bom, mas isso não quer dizer que vá dar certo.
-Onde o senhor acha que o processo está errado?
-Está errado porque está segmentado. Um pedaço do processo não fala com o outro. O ministro Paulo Renato Souza disse que a "TV Escola", que usa uma rede de emissoras de TV para treinar professores, não tem nada a ver com o projeto de informática. Ora, só tem. O Ministério da Educação não fala com o da Cultura, nenhum dos dois fala com o da Ciência e Tecnologia, que cuida da rede da Internet e nenhum dos três fala com o das Comunicações, que está travando o desenvolvimento da rede de escolas. Finalmente, ninguém fala com os garotos. É a garotada que vai impedir o furto dos computadores. É a garotada que vai lutar pela manutenção das máquinas. Nesta semana, em Salvador, eu vou assistir a uma aula na UFBA. Sabe quem serão os professores? Garotos de classe média e pobres que convivem com computadores. Eu até hoje não vi um projeto de interligação das escolas com a Internet.
-Como o programa está no começo e é possível corrigi-lo, o que o senhor propõe?
-Primeiro, que se interligue o que está desconectado. Segundo, que em vez de se pensar num programa que funciona como um trator, se veja primeiro quais são as experiências que estão dando certo. Terceiro, que se perceba a importância da Internet. Ela não é uma fase seguinte. Ela é um presente escancarado. Saiba de uma coisa: Mãe Estela me disse que seu candomblé de Salvador já está na Internet. Ela já se comunica, há tempo, por e-mail. Não é a Internet que deve entrar na escola, mas as escolas que devem entrar na rede. Esse negócio de ver a Internet como um negócio que te leva aos quadros do Louvre é irrelevante. O que ela vai fazer é levar Santo Amaro da Purificação para Estocolmo. Se eu tivesse que oferecer uma sugestão, diria apenas: vamos devagar, vamos perseguir a transformação, não a novidade.


copiado sem pedir autorização mas com as devidas referências.

o que tá rede é prá se pegar, yeah!!!!

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