Nelson Pretto - pareceres emitidos
Parecer de Nelson (De Luca) Pretto - Faculdade de Educação da UFBA - para a dissertação Hibridizações no cotidiano escolar: escola & "novas" tecnologias da comunicação e informação, de DEISE JULIANA FRANCISCO.
Trafegando entre casa e praia, entre Salvador e Rio de Janeiro, tendo meu corpo sendo transportado e transportando átomos, átomos em forma de páginas. Páginas impressas com um delicioso texto sobre as hibridizações do cotidiano. Mais de um mês de trocas de bits que circularam pela rede Internet na tentativa de viabilizar a minha presença física - tão importante neste mundo de comunicação digital e instantânea! - e, eis que estou aqui, sei lá mais em que lugar, escrevendo numa pequena máquina, que transformará minhas idéias em bits, enviará por linhas telefônicas e encontrará vocês, fisicamente reunidos, para discutir este trabalho que consumiu 24 meses de trabalho e reflexão. Sinto-me aí, de uma forma ou de outra, tentando dar minha contribuição para uma discussão que deveria ser mais do que o encerramento de destes 24 meses mas, principalmente, ser a avaliação de um caminhar, que precisa ser desdobrado. Que bom se aí estiverem as Ludmilas, Helenas, Maiaras, com seus nomes fantasias ou não, para que meus comentários e de minhas colegas de banca possam ser discutidos com Deise Juliana e que este trabalho possa de fato, contribuir para a escola Fátima e tantas outras escolas públicas, do Brasil e de fora, que vivem hoje este momento de crise e, exatamente por isso, tão rico. Claro Lévy, um momento onde :"nada esta decidido a priori". Acerta Deise em abrir assim seu texto. Extamente por nada estar decidido que precisamos nos debruçar sobre estas questões.
Logo na introdução me parece que a perspectiva teórica adotada é posta de forma muito clara, uma vez que "trata-se, portanto, de uma questão não mera e simplesmente de eficiência, funcionalidade, mas acima de tudo política." O grifo é meu! E com dimensões muito mais amplas das que estamos, lamentavelmente, acostumados, na nossa área da educação. "Este corpo não é natural, esta roupa não é neutra, esta pista não é una."(p.23). A escola esta inserida e Deise Juliana se propôs, neste convívio com colegas da academia e do dia-a-dia da escola, analisar um pouco mais estes "respingos desta onda de informatização".(p.30). E o fez bem...
A qualidade do texto certamente ajudará o leitor a acompanhar o percurso desta dissertação. Não quero dizer que este texto não necessite de pequenos reparos aqui e acolá. Numa segunda parte deste parecer farei algumas pontuações mas, de antemão saliento que elas não desmerecem o trabalho.
Trabalho que considero de muito boa qualidade, conseguindo apresentar uma navegação entre teóricos da atualidade que tratam a questão de forma muito clara e, segundo minha análise, muito coerente com o que a autora pretendeu investigar. Os conflitos entre incorporar ou não estas ditas novas tecnologias da comunicação e informação ao cotidiano escolar estão presentes em várias partes do mundo e o trabalho consegue fazer uma importante e coerente retrospectiva sobre as concepções que estão permeando as diversas experiências em andamento. Me parece também muito apropriada a distinção feita entre a Informática Educativa (IE) e as Novas Tecnologias da Comunicação (NTC) de forma a esclarecer o leitor sobre seus percursos históricos e sobre seus caminhos de convergência no mundo contemporâneo.
A estrutura do texto é bastante interessante e foge do convencional. Por esta mesma razão, será sempre alvo de mais atenção por parte dos críticos à esta concepção de educação (estou falando de concepção de educação, sim!) que aqui está sendo apresentada. Mais uma razão para um cuidado redobrado com ela. Digo isso porque, mesmo tendo uma grande sintonia com as idéias teóricas que dão sustentação ao texto e, principalmente, ao seu estilo, creio que alguns problemas de estrutura poderiam ser evitados. Um dos aspectos que mais me chama a atenção e que dificultou minha leitura reside no fato de que alguns das principais concepções entre as correntes que discutem as tecnologias da comunicação e informação estão distribuídas ao longo do texto de forma, algumas vezes, quase que dispersas. Vejamos.
No capítulo um, mais especificamente em 1.6 é apresentado dois grandes caminhos para a relação informática e educação: ensino de informática e ensino com informática. Um apresentação bem fundamentada, o texto deixa claro que o que se está considerando mas, para o leitor que já vem atentamente acompanhando as primeiras 90 páginas, fica uma surpresa: parece que só existem estas duas alternativas... Da uma sensação de confronto com o que autora vem fundamentando até aqui. A menos de um parágrafo no meio da página 92, que levemente se reporta ao fato destas categorias desprezarem as hibridizações, nào temos condições de perceber que muito mais coisa será dito a partir daí. As outras múltiplas possibilidades começam a aparecer somente depois, na página 113 e novamente nas páginas 133 a 135. Aqui a autora retoma a questão apresentando outras vias, que serão, em essência, o centro desta pesquisa. Este salto, sem um parágrafo mais forte, pelo menos, desde este primeiro momento, me parece poder prejudicar o leitor desavisado ou, no mínimo, não acostumado com as referências teóricas adotadas pela autora.
Para o salto da IE às NTC (p.117) a autora faz uma coerente e importante retrospectiva, passando pelos importantes conceitos de informática, transistores, teoria da informação, miniaturização, outros artefatos tecnológicos, imbrincamentos técnicos, fases do desenvolvimento da informática, Internet, convergência de equipamentos, hipertexto, estatuto da informação, para finalmente, chegar na apresentação e análise do presenças destas tecnologias na escola. Começamos a acompanhar a descrição e análise da escola e suas relações com as tecnologias. Novamente aqui, parece-me que acontece um corte. Corte brusco. Exatamente na página 157, quando estamos vivendo a cena 3, que se propõe, como todas as cenas descritas antes e depois, a contar-nos um pouco dos "flashes de um suposto filme, fragmentando dados, imagens fixadas em minhas [de Deise Juliana!]retinas" (p.155), que somos surpreendidos com uma volta no tempo com uma apresentação das produções acadêmicas que analisaram esta questão. Ficou, em minha opinião, no mínimo, feio! Reparem que a próxima cena, só vai acontecer na página 165, ou seja, nove páginas adiante.
Uma das belas discussões e conclusões que podemos tirar deste trabalho diz respeito à separação entre a sala de aula e a informática. E mais, o quanto este ambiente informatizado esta acima... "Eu aqui, bem humana e tal..."(p.62). Questão esta que será retomada ao longo de muitas das próximas páginas especialmente na fala das professoras relatadas na cena 4 (pag. 165).
Os que me conhecem um pouco mais sabem o quanto sou contra estes pareceres escritos para avaliar dissertações e teses. Não creio que seja este o caminho e acredito que nossas condições nas Universidades públicas brasileiras estão se deteriorando cada dia, diminuindo cada vez mais as possibilidades de embates teóricos importantes para o próprio avanço da ciência. Não é a toa que estamos em greve! A falta de recursos impossibilita a nossa presença e, com isso, creio que a defesa fica sempre empobrecida.. De outro lado, se aí estivesse, estaria poupando a audiência - se é que ainda alguém ainda me "ouve"! - de tantos detalhes que poderiam ser comentados de forma muito mais dinâmica numa mesa de discussão acadêmica. Peço pois desculpa mas... tenho que continuar e aqui, de fato, com questões mais pontuais que farei subdividas em itens, e da forma mais esquemática possível, para acelerar o processo.
Longa lista mas de pequeníssimos problemas no meu entendimento. Os fiz com o objetivo de contribuir para que o trabalho depositado na biblioteca possa de lá ganhar asas, ir para a escola Fátima, para outras escolas, para que muitos leitores/as possam refletir mais sobre este longo caminho que temos na perspectiva de aproxima a educação e comunicação.
Considero, portanto, o trabalho aprovado. Sugiro estes pequenos acertos numa próxima versão. Meu conceito é A mas sugiro que a autora faça uma revisão no texto.
Este parecer pode e deve ser lido pela autora.
Salvador/Rio de Janeiro, 13 de abril de 1998.
Nelson De Luca Pretto