Sexta-feira, 28 de Abril de 2000

A cidade se mostra na tela

Ágil e bem-humorado, 'Mapas urbanos' tem na poesia e na música seu fio condutor

Nelson Pretto

Sobre o que é esse programa?! Eu... eu.. eu acho que é sobre poesia. É sobre as cidades. É sobre como os poetas vêem as cidades. Os arquitetos falando... não.. não. Sobre o que é esse programa?! É sobre tudo isso e assim começa cada um dos pacotes de três programas que o Canal GNT - para quem tem acesso à tevê por assinatura - está veiculando há mais de seis semanas. Como diz Caetano num dos episódios, "primeiro São Paulo, depois Rio, ou ao contrário, não sei". Agora é a Bahia. E o que a Bahia tem? Tem Caetano, tem Risério - seríssimo em suas falas! - Waly - louquíssimo, como de costume. Margareth falando e cantando Elegibô. Uma delícia...

A série é composta de programas semanais sobre São Paulo, Rio e Bahia, nessa ordem. Abriu com São Paulo, com a cara de São Paulo. Depois veio o Rio com a sua cara. Portela, Mangueira, Ivo Meireles numa interminável subida de morro conta tudo e nos leva junto. Os lixos urbanos, que Macalé detona com todo o seu sarcasmo. A poesia que está em toda a cidade e que articula e se articula com os desenhos urbanos. A cidade se mostra na tela. A tela reflete a cidade, seu traçado, e o programa apresenta os mapas, faz os roteiros e cada um é recheado e contado por personagens que não só viveram os pedaços urbanos citados como têm os seus nomes umbilicalmente ligados a cada um desses espaços. Cantos das cidades com a cara de quem canta as cidades. Desenhos urbanos e suburbanos, do funk carioca de Fausto Fawcett. "Kátia Flávia, calcinha... é o exocet". A Copacabana, princesinha do mar, princesinha porque, como diz Braguinha, é sempre jovem, não poderia nunca ser a senhora Rainha.

No primeiro grupo, uma São Paulo alucinada, com Arnaldo Antunes correndo pela Paulista, dos paulistas, da câmera. Câmera que corre, corta e alucina. Um programa cheio de entrevistas - o que seria meio que sinônimo de coisa chata - mas que tem um ritmo delicioso, que prende, com um formato contemporâneo, veloz quando preciso e sem alucinação de edição desnecessária. Não enrola muito. São menos de 30 minutos, densos. Fala-se um pouco de tudo, mas a poesia e a música dão o tom. E o Rio sem Tom, ficou sem tom pela falta que Jobim faz. Lá e cá. Pela falta que faz Lina Bo Bardi, a Lina do Museu do Unhão. Que desenha uma escada que sustenta uma filosofia de restauro. E a Bahia está em cena desde a semana passada, sempre fazendo referência ao magnífico reitor Edgar Santos. Citado por todos por, entre tantas outras coisas, ter permitido, como diz Risério, a vinda de personalidades do mundo cultural para nossas terras, para ajudar a construir essa Bahia contemporânea, desde os anos 50. Estrangeiros que aqui deixaram suas marcas, inesquecíveis. A Universidade da Bahia - como é carinhosa chamada a UFBA - vivia um de seus momentos áureos, justamente porque fazia o que é a sua função: estava sintonizada com a cidade.

Os concertos na Reitoria, que faziam das segundas à noite ponto de encontro obrigatório para as audições clássicas, que embalavam os nossos espíritos e, principalmente, papos intermináveis, regados a cerveja, no Avalanche, ali na João das Botas. Escola de Música, Martim Gonçalves, Meia noite se improvisa, Teatro Vila Velha e Tom Zé, que passa por todos os Mapas urbanos, fala de sua Irará aqui na Bahia e também de São Paulo, de Salvador, sempre com um carinho e uma pureza sem igual.

Mapas urbanos foi criado, dirigido e editado por Daniel Augusto, que eu mesmo nunca tinha ouvido falar. Se está estreando, é com honras e glórias, com um programa de edição bem humorada e ágil, tomando como fio a poesia e a música. A Bahia tem Armandinho, Caetano, Gerônimo, Capinam. São Paulo tem que ter Ronda e Paulo Vanzolin tem que estar sentado num bar com uma cerveja na frente. Momentos deliciosos, com esse biólogo - andei lendo que vai parar de compor e continuar sendo apenas biólogo, que pecado! - dizendo que Ronda é de um pieguismo desgraçado. E é linda, a cara de São Paulo, do antigo Bar Brahma, com seus veludos vermelhos, na esquina da Ipiranga com a São João, que os homens das cidades destroem e apagam. Apagam do cenário mas não de nossa memória.

Não perca esse passeio pela nossa história. Pegue uma cerveja ou um copo de uísque. Aumente o som da sua tevê. Deixe-se embalar por esses passeios pelas cidades. Feliz-cidade da Bahia!

Carnaval de vanguarda

Dentro da série será apresentada, amanhã, às 21h, a segunda parte do programa Mapas urbanos sobre Salvador, intitulado Carnaval de vanguarda. Com reprise prevista para domingo, nos horários de 11h30 e 15h30, o programa fala sobre as transformações que o Carnaval da Bahia aportou para o mundo. Carnaval de vanguarda conta com depoimentos de personalidades como Antonio Rizério, Caetano Veloso, Cícero Antonio, Capinan, Margareth Menezes, Neguinho do Samba e Armandinho. (Ceci Alves)

 

Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.