publicado em A Tarde, de 09.03.99.
10/03/99
Internet de graça... em Londres
Nelson Pretto*
Especial para a A TARDE, de Londres
Um dos assuntos que parecem estar tomando conta das
discussões em todos os lugares é o crescimento da
Internet. A Inglaterra, que nunca foi muito chegada a
estas inovações tecnológicas, vive, nos últimos anos,
um especial momento de sua história. Todas as pesquisas
indicam tanto um crescimento do número de usuários como
do aumento das compras on line.
Calcula-se que já são mais de 7 milhões de usuários,
distribuídos entre os grandes provedores. As
universidades oferecem conta assim que você se
matricula. Tudo é feito on line. Os tradicionais
provedores do mundo também estão por aqui. Pesquisas
recentes dos mais diversos institutos e corporações,
publicadas na imprensa, indicam que uma em cada quatro
casas na Grã-Bretanha possui um computador, e um quarto
deste total tem dois ou mais. Os demais indicadores
sociais aqui também fazem diferença, evidentemente.
Como estou falando da situação inglesa, vou deixar para
você, leitor, pensar na situação brasileira. Se você
tem acesso à rede, e é portanto um dos privilegiados,
pode ir até o sítio do Ibope (http://www.ibope.com.br/digital)
e ver que o resultado do último levantamento sobre a
Internet no Brasil é alentador quanto ao crescimento,
mas, ainda é extremamente concentrador. Tem acesso quem
tem dinheiro para acessar!
Voltemos à Inglaterra. Independentemente do fato de se
ter aqui um custo muito alto para uso do sistema telefônico, existem algumas alternativas para se ter,
absolutamente de graça, uma conexão Internet.
Assim que aqui cheguei, passei a usar um provedor chamado
Freeserve (http://www.freeserve.co.uk), que
oferece a possibilidade de abertura de conta para acesso
discado e espaço para páginas de até 5 MB. Fiquei
impressionado e logo parti para descobrir um pouco mais
do sistema. Claro que eu queria saber como eles ganhavam
com isso, porque longe de mim imaginar que, de fato,
ninguém ganhava alguma coisa.
O sistema funciona basicamente como qualquer outro
provedor comercial. Passa-se em uma das lojas da Dixons
uma grande cadeia de venda de eletrodomésticos
, pega-se um CD e pronto. A instalação é simples
e a configuração não tem mistério nenhum. Nem parece
coisa de computador, acredite! Sou um usuário deste
serviço e a sua eficiência é de matar de inveja quase
todos os nossos provedores privados aí de Salvador.
Nunca encontrei uma linha ocupada.
Não deu outra. O crescimento de usuários foi estupendo.
Segundo matéria do jornal Evening Standard, nos
primeiros dois meses já eram 475 mil usuários e já se
fala em mais de 900 mil, com cerca de 800 mil ativos. O
negócio já passa a valer cerca de 1.139 milhões de
dólares e as ações da Dixons na bolsa subiram
inacreditavelmente. O que parecia algo sem muita
explicação um grande rede de lojas ganhar
dinheiro oferecendo Internet de graça terminou
sendo, efetivamente, um grande negócio.
Com a privatização da telefonia, a briga aqui na
Inglaterra é feia. A própria Britsh Telecom (BT)
oferece um acesso gratuito, mas apenas à navegação. Um software, também de muito fácil instalação, é
enviado pelo correio ou baixado da página da BT na rede.
Pronto, um ícone da empresa aparece na sua tela, você
dá o tradicional duplo-clique e passa a navegar sem
problemas. Sem senha e sem nada! Neste caso você também
paga só uma ligação local, mas para a mesma BT. O
problema desta conexão e o que a diferencia das demais
é, obviamente, que tudo tem que ser feito estando
conectado. O custo de sua conta, certamente, ficaria um
pouco salgado mas, não deixa de ser uma boa opção.
Quem sabe a nossa eficiente Telebahia não pensa em algo
nestes moldes?!
Sei que a situação brasileira não pode ser comparada
com a do Reino Unido. Mesmo assim, acredito que os
empresários brasileiros poderiam fazer um pouco mais
para que tivéssemos um país um pouco mais conectado.
Isso não resolveria todos os nossos problemas, mas
poderia possibilitar que mais gente tivesse acesso a este
mundo das comunicações e, com isso, talvez ajudar a
diminuir as desigualdades sociais de nosso país, que
tanto nos envergonham quando estamos aqui fora.
* Nelson Pretto é professor da Faculdade de
Educação da Universidade Federal da Bahia. Home
page http://www.ufba.br/pretto
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