18/07/2001

SBPC

 

Ciência, política e arte

 

ENTREVISTA - Educador defende posicionamento dos cientistas políticos presentes na SBPC frente à crise baiana.

Carlos Ribeiro

 
Imagine o leitor a delicada responsabilidade de hospedar-se cerca de 700 estudantes, de todas as regiões do país, numa cidade mergulhada num clima de insegurança sem precedentes, resultante da grave crise provocada pela greve das polícias Civil e Militar. Esta é a espinhosa missão do diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, Nelson Pretto, nesta 53ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC, que acontece até hoje, em Salvador.

  Mas, para ele, o que se deve mais ressaltar, neste momento crítico, é que a SBPC, como entidade política, histórica, junto à universidade, precisa refletir sobre esses acontecimentos e tomar uma posição, que é a de “enfrentar, com clareza e transparência, as questões políticas do mundo contemporâneo, em particular, do caso baiano”. “Não podemos estar fazendo de conta que nada está acontecendo. Não podemos transformar uma reunião da SBPC numa pequena festa, numa despolitização total”, diz ele.
 
 
P – Que avaliação o senhor faz do posicionamento da SBPC diante da grave crise verificada em Salvador, com a greve dos policiais civis e militares?

R - Não podemos ter uma posição asséptica em relação a essas questões. Precisamos criar um caso político. Observe que, nas matérias nacionais, não houve nenhuma referência à relação da SBPC com a greve, o que é uma omissão lamentável. A questão da greve é uma situação política fundamental. A imprensa precisa ouvir os nossos cientistas políticos, porque os cientistas são formadores de conceitos políticos.
 
P - É verdade que existe a articulação de uma comissão que acompanhe, pela SBPC, as negociações do governo do Estado com os grevistas?

R - Não estamos defendendo a interferência da universidade no governo estadual. É fundamental que se diga que a SBPC não está se posicionando no sentido de concordar com policiais encapuzados e aquartelados. Nós não estamos querendo interferir no movimento da polícia nem do governo do Estado. O que nós defendemos é que haja a negociação. Dessa forma, a SBPC está se colocando em posição de tentar mediar a crise e retomar o seu papel histórico de enfrentar, com clareza e transparência, as questões políticas do mundo contemporâneo, em particular, no caso baiano.
 
P - Trata-se de uma atitude coerente com o perfil histórico da instituição?

R - Exato. A SBPC é uma entidade fundada em 1948 por um pequeno grupo de cientistas de São Paulo, que se transformou numa sociedade de importância muito grande, em função de congregar cientistas de várias áreas do saber. A própria entidade ganha peso por tratar da diversidade, que faz parte da sua própria natureza. Durante todo o regime militar, a SBPC constituiu-se num dos principais fóruns políticos na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do país. E, no momento em que retorna, após 20 anos, para a Bahia, ela chega em uma greve das polícias, que, inclusive, invadiram a universidade.
 
P - De repente, as questões políticas e culturais ganharam relevância nessa reunião da SBPC. Como o senhor vê a relação delas com o aspecto científico primordial da instituição?

R - Ciência, política e arte, ou, melhor dizendo: ciências, políticas e artes, no plural, estão intensamente integradas, fazem parte de um único todo. Tentar separá-las, como querem os cientistas tradicionais, é matar qualquer uma das três áreas. Não podemos transformar uma reunião da SBPC numa pequena festa e numa despolitização total. As reuniões da SBPC são uma grande mostra para a sociedade do que se faz e do que se pensa em termos de ciência, de política, de cultura e de educação em todas as áreas. Elas são um amplificador no qual a ciência do Brasil inteiro se mostra para a sociedade.
 
P - Como integrante da comissão central da SBPC que aconteceu em Salvador, em 1981, de que forma o senhor avalia essa atual reunião?

R - Acho que a SBPC está hoje excessivamente atrelada ao Estado e excessivamente despolitizada. Posso dar um exemplo: em 1981, quando percebemos que não havia espaço para a realização de grandes debates, nós colocamos um circo no epicentro da SBPC, de forma que o circo passou a ser o palco das grandes discussões políticas. E o que a organização fez este ano? Ela manteve o circo, mas reduziu o circo a circo. Deixou ele distante, não é mais o palco dos acontecimentos. Ao fazer isso, separou ciência de arte, e isso é um crime. Quando ele estava encravado no meio e era o palco das discussões políticas, ele era mais do que circo, ele representava o palco e o dinamismo das discussões científicas, políticas, inclusive culturais e artísticas.
 
P - Com essa separação, ficou reduzido a um mero entretenimento?

R - O circo sem a política vira apenas entretenimento. Do ponto de vista artístico e cultural, a programação está sendo maravilhosa. Não estou dizendo que sejam ruins essas atividades acontecerem no circo. O que critico é que haja essa divisão. Do ponto de vista da ocupação do espaço, tirar o circo do centro é esvaziar de sentido a presença dele na SBPC. Não podemos pensar o circo como um folclore que a Bahia introduziu no evento. A introdução dele, em 1981, foi um marco conceitual na concepção que temos da universidade e da SBPC.
 
P - E qual é o centro, hoje, da SBPC?

R - Antes, cada ocupação da SBPC era o centro. Hoje, o centro é o comércio: é a lojinha, é o bar. Cada barraqueiro coloca um carro, igual ao mercado do peixe. Essa é a lógica do mercado. E há também a chamada Expociência, que eu chamo de Expogov, porque o que tem lá são estandes promocionais dos governos. Você tem uma inversão absoluta daquilo que a SBPC era historicamente. A universidade não pode estar atrelada ao mercado. Isto significaria a morte da universidade. A instalação de um bar no espaço da SBPC é tão importante como uma discussão científica sobre questões cardiovasculares em pacientes idosos. São coisas diferentes, mas, conceitualmente, são a mesma questão.
 
P- Você acha que esta descaracterização reflete-se, também, na programação cultural do evento?

R - Quando Luiz Marfuz cria um dragão alucinado, maravilhoso, que tem escamas e cospe fogo, puxando pessoas, ele tem o compromisso de criar fatos políticos, simbolizando a diversidade que tem que ser a universidade e, por conseqüência, a SBPC. Ele não pode cair na coisa do vai-na-onda. Então, com tudo programado para que todos os dias tivesse uma linha filosófica diferenciada, que respeitasse os diversos ritmos, e no meio virar axé-music!? É óbvio que isso não deve acontecer. Você não pode reproduzir o pagode e a axé-music, e colocar isso para dentro da universidade. Não podemos cair nessa armadilha.

 

Página inicial de Nelson Pretto.

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