textos de nelson pretto

Mais e melhores espaços culturais
Apropriação mercantil da ex-fábrica de papel do Rio Vermelho se confronta com soluções criativas em outras capitais


Nelson Pretto
Especial para a Província

 

publicado na Província da Bahia, número 27. Salvador, maio/junho de 2003. 

 

De ponta a ponta deste enorme Brasil a cultura ganha espaço. Espaço físico, refiro-me aqui! Espaço concreto nas políticas públicas que incluem a cultura como elemento fundamental para a soberania de um povo. Espaços que modificam velhos prédios e velhas práticas políticas na gestão das cidades. Cidades hoje que já têm até Ministério. Alguns desses espaços são sofisticados, buscam atender uma elite que não consegue mais cruzar o Atlântico por conta do dólar. Outros, são abertos para as manifestações de todas as vertentes da cultura. Incluem o hip-hop, rap, Mozart, tribalistas e anarquistas, rabiscos de grafiteiros, telas, fotografias e esculturas de artistas e arteiros de todos os tipos.

Na Porto Alegre do Fórum Social Mundial, na beira do rio Guaíba, uma velha Usina (do Gasômetro) foi transformada em centro cultural, compondo um conjunto de salas para teatro, eventos, cinema e... muito vazio. Espaço para o que der e vier, quando, nos dias de verão, vão ao Gasômetro gaúchos e turistas admirar o belíssimo pôr do sol no Guaíba. Dali, até o anfiteatro do Pôr-do-Sol, um espaço aberto para grandes eventos, áreas verdes que se complementam abrindo lugar para mais manifestações.

No outro extremo do Brasil, ao longo da baia de Guajará, Prefeitura e Governo do Estado – de partidos diferentes, é claro! - brigam para saber quem faz mais e melhor a restauração da velha e histórica área portuária de Belém, colocando-a à serviço da cultura e do patrimônio. Nas Docas, que alguns maldosos chamam de don-Docas, bares, espaços para eventos e exposições. Do ladinho, o novo Ver-o-Peso, mercado histórico totalmente restaurado - meio pausteurizado, é verdade!- onde acompanha-se o vai-e-vem dos barcos com os açaís, bacuris, filhotes, camarões e tantas outras iguarias que fazem do Pará um especial lugar da culinária planetária. Mais adiante, ainda banhada pelo Guajará, a antiga residência de muitas janelas, construída na metade do século XVIII, para ser a residência de um rico senhor de engenho, vira a Casa das Onze Janelas, espaço cultural. Um restaurante, salas de exposição e banquinhos em cuidadosos jardins para namorar e admirar o rio.

Falo dos dois últimos lugares que visitei recentemente e que me fizeram lembrar do pioneiro, acho eu, SESC-Pompéia em São Paulo, numa restauração de Lina Bo Bardi, a mesma do nosso Unhão aqui em Salvador.

Lembro de tudo isso, porque não me sai da memória a velha fábrica daqui da cidade da Bahia. Lutamos pela transformação da Fábrica de Papel e Papelão, que estava encravada na divisa do Rio Vermelho de Cima com a Amaralina, justamente onde o bonde número 14, que vinha pela Garibaldi, depois de passar pelo arco do Garcia, fazendo a curva bem perto do Quartel de Amaralina. Em 1984, e ao longo de quase dois anos, muitas pessoas, pequenas e grandes, de tamanho e importância, batalharam pela transformação daquela fábrica quase abandonada em um espaço para as culturas. Jorge Amado falou. Os ilustres membros do Conselho de Cultura do Estado da Bahia assinaram manifestos. Caetano, o Ministro Gil, Gabeira, Nildão e Renatinho, e tantos outros. Fomos recebidos pelo Ministro da Cultura da época. Também Juca Ferreira, atual Secretário Executivo do MinC, estava na linha de frente daquela luta. Um movimento que já era movimento e fazia muito barulho. Fazíamos danceata, ao invés de passeta! Não queríamos um centro de cultura acomodado e quieto na cidade...

A luta foi perdida. Derrubaram a fábrica e o Rio Vermelho, que vive e faz viver boa parte da cultura de nossa cidade, ganhou um posto de gasolina e um McDonald. A mesmice imperou! O pensamento pequeno de nossos governantes deu espaço à ganância dos poderosos, que, nesta nossa Bahia, sempre fizeram e fazem o que querem.

Hoje, a cidade se espreme entre avenidas que começam a deixar de ser verdes, como a Paralela, onde o desmatamento salta aos olhos, e o Rio Vermelho busca espaços para as manifestações da cidade. Seja na suja praça onde Dinha ganha dinheiro e emporcalha o pedaço sem nenhum investimento, seja num SESI que resgata a possibilidade de um pouco mais de vida inteligente na noite do bairro, com o agito interno e externo, este promovido por Rui da Casa Oito. Movimentos que fazem barulho, como a chaminé da fabrica, que anunciava o início e fim do expediente, o palquinho do largo de Santana, a Casa Oito da Fonte do Boi e o SESI, anunciam que ainda temos vida e que ainda lutamos. Com alegria. A fábrica foi derruba, mas a antiga maternidade Nita Costa, no Morro do Conselho, não! E não só ela... nossa cidade clama por novos movimentos, em defesa de mais e melhores espaços.

 

Nelson Pretto é Diretor da Faculdade de Educação da UFBA. http://www.ufba.br/pretto

 


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