Informática e acarajé.

Nelson Pretto

publicado em A TARDE - Caderno de Informática de 15.05.96, p. 02.

Meu computador pessoal, que carrego para todos os lados e ligo em qualquer tomada tem, amarrado no cabo de força, uma fitinha do Bonfim. Não dá para brincar com as variações de corrente, especialmente em tempos de chuvas fortes...

Nesta mesm'A Tarde, alguns dias atrás, André Lemos (FACOM/UFBA) fazia algumas importantes reflexões sobre as relações entre valores planetários, locais e o tal cyberespaço. Foi daquele artigo que peguei emprestado o título deste de hoje. Estamos, aqui na Bahia, absolutamente integrados ao mundo global. Vivemos, em várias áreas, uma pobreza infernal mas, em termos comunicacionais, estamos na ponta. Estão presentes em nosso estado emissoras de televisão que trazem as informações dos quatro cantos do mundo. Últimos dados do IBGE indicam que 75% por lares brasileiro tem pelo menos um aparelho de TV. Temos as TVs por assinatura chegando, pelo menos em parte da cidade. Liderado pela UFBA, a Internet aqui se implantou e agora já podemos dizer que é de domínio público. Vários provedores se instalaram e, hoje, qualquer micreiro que tenha uns reais a mais por mês pode cair na rede. Na área pública, a Universidade continua mantendo a Rede Bahia, ponta da Rede Nacional de Pesquisa, agora já conectada ao mundo com duas linhas de 64 kbps, fazendo com que as navegações possam se dar de forma um pouco mais tranqüila.

Mas esta tranqüilidade introduz, por outro lado, uma nova questão: o que buscar nesta mega-rede chamada Internet? Tudo que lá está é importante? Não... e este talvez seja uma dos maiores problemas que vivenciamos neste momento histórico. Passamos da absoluta falta para uma "enxurrada" de informações disponíveis, deixando-nos quase atônitos para lhes darmos um tratamento que possa, de fato, ajudar os nossos propósitos, sejam eles educacionais, científicos ou simplesmente de lazer.

Isto nos obriga a dar um grande salto de reflexão. Refletir, basicamente, sobre algumas questões, talvez velhas, mas ainda fundamentais. Como recebermos criticamente este conjunto de informações potencialmente disponíveis? É exatamente neste momento que retorna à cena a necessidade de podermos estabelecer com a rede Internet uma relação de crítica e de capacitação para uma busca de informações que nos ajudem de fato. Primeiro desafio posto, podemos pensar num segundo e grande desafio.

Refiro-me a fundamental tarefa de colocar nesta rede, disponível para todo o planeta, as nossas informações. Os nossos acarajés, vatapas, nossa música, cultura, nossa economia enfim, todos os nossos valores e desejos. Então, temos uma necessidade premente de nos colocarmos mais fortemente na Internet, de estarmos presentes de forma mais intensa neste cyberespaço. Temos que considerar que toda esta rede, as nossas infovias da informação construída com muito investimento público, só se justificam se estiverem repletas de informações que favoreçam o nosso cotidiano. Parece-me que isto não está acontecendo ou, pelo menos, não está acontecendo com a intensidade que julgo necessária.

Temos que pensar na Internet como o local para obtermos informações sobre emplacamento de veículos e também como possibilidade de realizar o próprio emplacamento. Na educação, temos que pensar na possibilidade de entrar nos sites universitários para realizar matrículas, trocar programas de disciplinas, verificar horários de funcionamento das bibliotecas, localizar livros e dali saltar até as livrarias da cidade, que lá estarão com seus catálogos e ofertas, para fazer o nosso pedido. Poderíamos também entrar nas páginas dos cinemas para saber dos filmes em cartaz e dali, dar um pulinho em Hollywood para saber sobre diretores, autores, roteiristas. Da mesma forma que poderíamos ver os nossos produtores com seus filmes e vídeos expostos. Em pé de igualdade, o que é mais importante!

Um pouco disso a gente já tem nos páginas baianas da Internet. A PROMOEXPORT, por exemplo, mantém um belo conjunto de páginas com informações bastante completas sobre a economia baiana. A Prefeitura alimenta as páginas do carnaval. As ONGs (Tamar, Axé, CEAS, Combonianos, Olodum, Germe) também estão presentes mas, de forma ainda muito tímida.

Muito mais gente e instituições precisam ocupar lugar neste cyberespaço. Imaginem, a título de provocação, a CONDER com dados sobre a região metropolitana de Salvador. A Academia Baiana de Letras com a produção dos nossos acadêmicos. Os nossos grupos ambientalistas, colocando as informações sobre as nossas reservas ecológicas, com a possibilidade de alucinantes viagens pela Chapada Diamantina ou Litoral Norte. Poderíamos ter também um roteiro sobre as atrações do Pelourinho, dos shows que acontecem na cidade, no Vila, TCA, ICBA, ACBEU. Nestes, além da programação cotidiana, passearíamos virtualmente por dentro de todos os seus espaços. Imagine o Liceu de Artes e Ofícios constituindo-se num grande centro de referência sobre a questão da adolescência. A biblioteca do CEAO, que possui um dos maiores acervos sobre a chegada dos africanos ao Brasil, estando mais forte na Internet, constituiria-se numa importante fonte de pesquisa para baianos e não baianos.

Estas navegações, em busca de informações e serviços, sem os transtornantes deslocamentos físicos por nossas avenidas e estradas esburacadas, nos levaria a todo o nosso planeta, sem nem mesmo sairmos de casa.

Com isso, além de termos uma presença mais forte e marcante neste mundo que é a Internet, teríamos mais tempo livre para nosso lazer, cultura e informação. Mais tempo para, por exemplo, ir até a baiana da esquina, comer um delicioso acarajé...

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