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publicado em A Tarde, de 14/02/2001

Serviços na Net
A sociedade da informação na Bahia

Nelson Pretto*

As transformações tecnológicas dos recentes anos, em especial na área das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), introduziram mudanças significativas em todo o planeta. Nos últimos tempos, com a internacionalização da economia, passou-se a falar em globalização e muito exatamente pela presença desse aparato tecnológico.

Os recentes encontros em Davos, na Suíça, e em Porto Alegre, no Brasil, são apenas uma mostra dos caminhos que a humanidade está trilhando e, mais do que tudo, dos confrontos que estão presentes na escolha de um ou de outros desses caminhos.

Paralelamente a essa internacionalização da economia, totalmente dependente e catalisada pelas redes de comunicação eletrônica, boa parte dos países de todo o mundo passou a pensar e a elaborar políticas públicas para a chamada Sociedade da Informação.

A mundialização econômica é o aspecto mais visível, mas, de fato, é apenas uma parte da questão. A presença dessas tecnologias está introduzindo modificações em diversas outras áreas e, particularmente, induzindo também uma globalização cultural. Essa globalização da cultura não se dá desvinculada dos fatores econômicos e, exatamente por isso, ela é perversa.

Nossos desafios são, portanto, não o de simplesmente entender como colocar o país na rota da sociedade da informação, mas o de pensarmos que tipo de sociedade estamos querendo. Precisamos compreender o significado atual do conceito de cidadania, que não pode ser confundido apenas com o direito de ser consumidor.

A sociedade da informação, entre tantos outros fatores, tem na rede mundial Internet um de seus pilares mais sólidos. Para o Ibope, em 2000, eram 9,8 milhões de usuários da Internet no Brasil, ou seja, menos de 7% dos brasileiros, sendo que cerca de 30% pertencentes às classes C e D, e menos de 6% dos municípios brasileiros têm provedores de acesso. Conexão, portanto, é importante, mas precisamos ter clareza de que é uma condição necessária mas não suficiente. Precisamos formar o cidadão para esse uso, mas não podemos cair na armadilha que induz a pensar que basta preparar o trabalhador para usar os computadores e a rede. Também aqui isso é necessário, mas não suficiente.

Precisamos articular essa chamada alfabetização tecnológica com as demais alfabetizações. Nesse sentido, é fundamental que, no processo de universalização do acesso, tenhamos o cuidado de incluir as escolas públicas como parte integrante desse processo.

Nós, aqui na Bahia, temos uma situação singular, como, aliás, é próprio desta terra. Fizemos um esforço hercúleo para aqui montar a Internet. Com dificuldades, a Ufba e o governo do Estado articularam-se nessa empreitada desde o início dos anos 90, montando a Rede Bahia. Não foi fácil e tivemos muitas dificuldades, mas chegamos a uma estrutura que deu conta de alavancar a rede em nosso Estado, se não como desejávamos, mais próximo da percepção ampla que entende a Internet como um fenômeno cultural e não apenas tecnológico.

Com isso, por exemplo, ajudamos a alavancar, simultaneamente, o sítio Zumbi, que congrega um número considerável de ONGs, e a Promoexport, com um grande centro de referência sobre a vida econômica baiana, disponível para todo o mundo. Mas não foi só isso.

Demos oportunidade ao mundo dos negócios para que suas iniciativas comerciais na Internet pudessem decolar. A Telebahia – hoje Telemar – sabe bem o que significou o nosso esforço no apoio a seu desenvolvimento nessa área. Diria que a Telemar, hoje, tem uma dívida com o povo baiano e suas instituições públicas que a ajudaram, dando oportunidades, transferindo tecnologias e recursos humanos, para sua instalação enquanto pólo de referência de provimento da Internet no Brasil.

Ao recordar esses fragmentos dessa história tão recente, quero enfaticamente chamar toda a comunidade baiana, em especial, a comunidade empresarial, para o nosso maior desafio: universalizar o acesso à Internet, com especial ênfase para as camadas menos favorecidas de nossa Bahia, tão grande e tão desigual.

Podemos – e devemos! –, na Bahia, “sermos singular” mais uma vez. Podemos montar uma rede forte, que articule o desenvolvimento social e cultural de todas – e de cada uma em particular – as regiões de nosso estado.

Estaríamos, com isso, mexendo, simultaneamente, na educação, na cultura, no desenvolvimento social de todas essas regiões e, como conseqüência, no desenvolvimento econômico de nosso estado.

Um movimento nessa linha será fundamental para o desenvolvimento do estado da Bahia a caminho de uma Sociedade da Informação que tenha no cidadão o seu foco prioritário. O desafio está posto. Certamente, as dificuldades são muitas. Mas como nos lembrou em Porto Alegre, semana passada o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “deixemos o pessimismo para tempos melhores”.

 * Doutor em Comunicação e diretor da Faculdade de Educação/Ufba. http://www.ufba.br/pretto

 

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