| 30/05/2002 Colunas Um professor com nome
Nelson De Luca Pretto Conversava esses dias com minha filha e com algumas colegas, todas universitárias em São Paulo. O papo girava em torno dos seus futuros e de como estava a universidade. Meu vício de formação nunca me permite, nesses papos, deixar de fazer uma costumeira pergunta: quem é o seu professor de tal matéria?! Invariavelmente, a resposta era: não lembro o seu nome, não! Nas primeiras vezes que escutava esse depoimento ficava apenas um pouco impressionado, mas na medida em que isso se repetia, comecei a ficar seriamente preocupado. Será que os alunos de hoje não sabem nem mesmo os nomes dos seus professores? Isso tem algum significado ou essa é uma questão absolutamente secundária para esses tempos neoliberais?! Lendo A TARDE dias atrás, deparo-me com carinhosa carta de um ex-aluno do Colégio Antônio Vieira relembrando Pe. Ugo Meregalli, que acabara de nos deixar. Emocionado, pensava na importância de Pe. Ugo nas vidas de muitos adolescentes do Vieira, a exemplo da minha. Essa leitura remeteu-me ao início de minha formação e do meu próprio trabalho de professor, formado na labuta diária de dar aulas em uma quantidade enorme de escolas de Salvador e Feira. Ao longo de minha formação, alguns mestres marcaram o meu cotidiano de aluno e, com certeza, me fizeram ser um professor, digamos, um pouquinho diferente. Um desses mestres foi Pe. Ugo. Fui seu aluno muito pouco tempo. Tive alguns bons professores, mas Pe. Ugo destacava-se por algo que sempre me deixou intrigado: ser um professor absolutamente rigoroso e seguro no seu metiê e, ao mesmo tempo, um profissional que essencialmente acreditava no ser humano – inclusive em nosotros, uns pequeninos bagunceiros e aprontadores de primeira! – com uma preocupação de justiça social que não se prendia a discursos e retóricas, mas fundada numa prática diária. Uma prática alegre, materializada, entre outras tantas coisas, nas verdadeiras maluquices que ele inventava, como nas tais histórias dos tubarões e pobres, que a carta aqui em A TARDE tão bem rememorou. Ugo Meregalli, sim, como nome e sobrenome, não passaria pela vida de nenhum estudante, por menor tempo que fosse, sem uma forte lembrança do seu nome e de sua presença. A escola tinha um outro ritmo, é verdade. Não vivíamos um momento de tanta associação da educação com o mercado, como se a educação fosse um simples produto que devesse ser vendido e comprado. A mercantilização da educação, com a proliferação generalizada de escolas, faculdades e até universidades, traz de bom o fato de ampliarmos o número de vagas, possibilitando o acesso ao ensino superior a um número maior de cidades. No entanto, uma nova questão surge e já nos inquieta: que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de escola estamos implantando e, principalmente, que cidadão está sendo formado por nossas escolas. Está sendo colocado no mercado um número muito grande de profissionais, mas será que esse pragmatismo da formação aligeirada e tão voltada para um mercado que nem tão concreto é, não está nos levando a um jeito de “educar para vencer” a qualquer custo, com profissionais que só aspiram ao pódium, isto é, “sair direto da faculdade para a diretoria”, “ser o primeiro em tudo”, “entrar no mercado de trabalho sem pegar fila”, como dizem os inúmeros outdoors de faculdades espalhados pela cidade?! Por outro lado, com esse aumento quase alucinado, também se ampliam os postos para professores e, estes, diferentes dos nossos antigos mestres, terminam, também eles, sendo profissionais quase que descartáveis, que podem ser substituídos de forma quase automática quando algo não funciona a contento. Professores e professoras que passam pela vida dos estudantes sem uma identidade, sem rosto, sem um significado maior, como aquele dado por Pe. Ugo quando nos empurrava, literalmente, para compreender melhor o mundo das funções, da geometria, dos cálculos. Quando nos levava a entender as dificuldades de resolver essa equação existencial contemporânea, de tantas variáveis, que não consegue dar conta de algo mais sublime que é o respeito pelo ser humano e pela igualdade social. Padre Ugo deixa saudades, mas também uma lição: ser professor é, antes de tudo, considerar o ser humano e querer uma sociedade menos desigual.
Nelson De Luca Pretto é Doutor em Comunicação e diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. http://www.ufba.br/pretto
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