19/04/2002 - página 07
A Reitoria da Ufba
Nelson Pretto e Luís Felippe P.
Serpa
A cada quatro anos a Ufba vê-se envolvida com a eleição de uma nova
Reitoria. Algo que poderia ser uma simples questão interna de uma
comunidade, não tão pequena assim, passa a ser uma questão da sociedade
baiana. A Ufba hoje, só considerando seus alunos, servidores e
professores, constitui-se numa comunidade de muito mais de 20 mil pessoas.
Mas a presença da Ufba na Bahia não pode ser medida apenas pelo número
de pessoas diretamente a ela vinculada. Uma Universidade, por definição,
é um universo de produções, de conhecimentos, de culturas, de ciências
e de tecnologias. Todos no plural, por ser a Universidade, essencialmente,
um espaço da pluralidade, um espaço essencial de intervenções. Uma
Universidade acomodada não é, por definição, Universidade. As questões
políticas envolvendo a escolha de novos dirigentes fazem parte dos
questionamentos mais amplos da sociedade. Pensar na Universidade, com a
sua autonomia, garantida pela sua própria origem desde o século XII e,
no Brasil, consagrada pelo Artigo 207 da Constituição Federal, não se
afigura, portanto, apenas como uma questão de retórica. A Universidade
– e a Ufba bem representa esse ideal – é por natureza uma instituição
comprometida com a sociedade. Compromisso esse evidenciado não somente
pelo atendimento aos seus mais de 18 mil alunos de graduação e mais de
mil na pós-graduação ou pelos serviços médicos e hospitalares que
presta, mas, principalmente, pelo que representa do ponto de vista de
intervenção no cotidiano da nossa vida social. Pensar o carnaval, as
questões ambientais, as políticas públicas de educação e cultura –
que insistem nossos governantes em tratá-las de forma separada! – são
alguns dos elementos cotidianos dessa interação da Universidade com a
sociedade. Esses são apenas alguns exemplos. Existem tantos que seria até
insanidade elencá-los todos de uma só vez. Parece-nos, entretanto,
importante ressaltar alguns fatos, de certo modo recentes, que marcam a
intencionalidade da instituição universitária de interagir com a
sociedade. A histórica luta das universidades públicas baianas pela criação
da Fundação de Apoio à Pesquisa da Bahia (FAPESB), finalmente instalada
neste ano; as pesquisas da escola de Economia sobre a questão do emprego
na Bahia e no Brasil; os estudos sobre a questão da mulher, recentemente
visualizados pelo acampamento das mulheres trabalhadoras rurais organizado
pelo Neim; as discussões do Ceao, Extensão e da Faced sobre as cotas
para negros no ensino superior... Colocar reticências é nossa costumeira
forma de incluir tudo o mais que existiu, existe ou está por vir.
A referência ao Reitor Edgard Santos sempre vem à tona quando se fala da
Ufba e isso, por uma razão que nos parece muito simples: ele sempre
imaginou que a Universidade e a Bahia se confundiam. Talvez as ações na
área das artes e humanidades tenham se constituído no carro chefe da
longa gestão de Edgard à frente da Ufba. Ilustres figuras das artes e
das humanidades da Bahia, volta e meia, fazem referência ao reitorado de
Edgard Santos, como sendo o espaço e o tempo de provocações
fundamentais para a formação do que estas personalidades são hoje no
campo das artes, da música, da literatura. São os Caetanos, os Gils, os
Tom Zés, os Glaubers, os Antonios Risério, os Miltons Santos, que
relembram aqueles momentos, nas décadas de 50 e 60, quando, aqui em
Salvador, participavam, como estudantes da Ufba ou não, dos concertos na
Reitoria, das apresentações no Santo Antônio e na Residência Universitária,
das manifestações políticas organizadas por estudantes e professores da
Ufba, dentre tantas outras atividades que marcavam o cotidiano de Salvador
e da Bahia pela ação da Universidade.
A Bahia de hoje não é mais a Bahia de ontem. A Ufba também não o é.
Entretanto, a oportunidade de escolher uma nova Reitoria – a partir de
uma ampla consulta a todos os segmentos da Universidade – constitui-se
numa oportunidade sem igual para, sem perder de vista as experiências
desse passado recente, analisar o que propõem para o futuro os tantos
candidatos e candidatas que começam a surgir, tardiamente, já que até o
final de maio precisamos ter o processo concluído. É pois, fundamental,
pensar a Universidade numa perspectiva maior, não atrelada ao poder político
local e nacional, nem subserviente a modelos impostos pelos organismos
internacionais que insistem em ditar as regras e procedimentos, vinculando
a Universidade à perversa lógica de mercado, como único e grande
regulador de tudo, da produção de sapatos, carros e produtos petroquímicos
à cultura e ao conhecimento.
Assim, esperamos propostas que enfrentem, de forma corajosa e sem
ressentimentos, o aviltante processo de privatização interna das
universidades, Ufba inclusa, materializados pela presença generalizada de
fundações privadas, de projetos e cursos de especialização com orçamentos
próprios, os quais corrompem um ideal universitário de independência,
autonomia e criatividade, impossível de ser concretizado em órgãos,
instituições ou setores umbilicalmente comprometidos com aqueles que o
sustentam.
A campanha eleitoral da Ufba está apenas começando. Cabe a todos nós,
comunidade universitária e sociedade baiana, cobrar dos candidatos e
candidatas uma posição mais clara sobre a Universidade nesse mundo em
profunda transformação e, para tal, esperamos dos órgãos de imprensa
da Bahia e do Brasil um maior espaço para que essas idéias possam ser
amplamente discutidas.
Nelson Pretto é diretor da Faculdade de Educação da Ufba e Luís
Felippe Serpa é professor da Faculdade de Educação e foi reitor da Ufba
(1994-98) http://www.faced.ufba.br.
|