
29/08/2001
Acordo de manhã e dou uma
caminhada pelo Rio Vermelho para deixar o sol tomar um pouco de conta de meu
cotidiano, que vai logo se iniciar. Depois de um café, pego o carro e saio pela
cidade em direção ao trabalho. Um começo meio lento e, na porta da garagem do
prédio, saio bem devagarinho, já que vou cruzar um passeio.
Ao me aproximar da saída vejo um senhor, não tão velho assim, mas
desgastado pela vida e pelo tempo, caminhando no passeio, com um saco cheio de
pititinga, que deve ter conseguido na beira da praia, ali, do outro lado da rua,
onde acabei de caminhar. Ele, quando me vê chegando, com o carro, devagarinho,
como estava, mesmo assim, toma um susto monumental, pois não imaginava que eu
pudesse dali sair.
Paro, e, de dentro do carro, faço um sinal com um modesto sorriso
nos lábios, como se dissesse: passe, por favor... a preferência é sua! Tomado
pela alegria, o senhor me abre um sorriso com todos os seus três dentes
estampados. Uma felicidade total. Uma alegria monumental por estar sendo tratado
como... como gente! Como alguém que merece respeito, seja lá quem for. A
cena me impressiona.
Faço única e exclusivamente a minha obrigação de motorista que
cruza um passeio: dar passagem a um pedestre. Nada demais, nada de excepcional.
Apenas vi aquele senhor caminhando, distraído, pensando, quem sabe, na
pititinga que levava daquela manhã, na labuta do dia, sem emprego e sem o que
comer ou dar de comer a, quem sabe, tantos e tantas filhas que estavam em casa.
Ou, ainda, pensando na casa que não tem. Ou, apenas, lembrando do mar do Rio
Vermelho que ele deixava para trás em direção ao Vale das Pedrinhas. O velho
homem me vê parado, dentro de um carro com ar-condicionado, banho tomado e
partindo, também, para um dia de labuta, mas... de um outro modo. Ao me ver lhe
dar passagem, explode de alegria por ter sido, simplesmente, tratado como gente.
Penso comigo: que mundo é este que vivemos? As coisas mais simples,
mais óbvias, mais singelas, passam a ser consideradas as mais nobres,
exatamente pela ausência de nobreza nos simples gestos das pessoas. Estamos
vivendo aterrorizadas por um cotidiano de crises, apagões, corrupções, com os
valores mais básicos indo todos por água abaixo.
No banco do carro, um livro que gosto muito: Ética para Náufragos,
do espanhol José Antonio Marina. Penso comigo, num relampejar de segundo: se
esses valores básicos de solidariedade, de ética, de generosidade, continuarem
a desaparecer, como estão desaparecendo, nos nossos tempos de tanta globalização,
será que, de fato, ao vermos os barcos afundando, mais do que já vemos
acontecer em nosso País, restar-nos-á alguma coisa? Será que estaremos
deixando tudo para ser resolvido no tapa, na base do quem puder vence e quem não
puder será o derrotado e nada lhe sobrará?
E Marina propõe, direto, sem meias palavras: A ética da sobrevivência
tem que ser superada por uma ética da dignidade”. Mas ele nos diz um pouco
mais: “São mesquinhas e falsas todas as queixas acerca da natureza humana”!
Claro, defeitos temos todos e estamos convivendo com eles cotidianamente e, por
isso mesmo, devemos estar abertos para novos e permanentes aprendizados. Com os
mais velhos, com os mais novos, com os diferentes de cada um de nós.
É ainda Marina quem diz: “O que aconteceu até agora não
determina o que vai acontecer amanhã”. Penso muito sobre isso, mas... hoje,
minha manhã já foi diferente. O sorriso e a alegria daquele velho senhor me
disseram muito. Também ele me considerou gente e me fez pensar no quanto os
gestos pequenos e singelos podem ser transformadores de muitas coisas. De coisas
grandes, mas também de coisas pequenas. Para mim, esta cena, no mínimo,
transformou mais de meus quase normais dias da semana. Esse foi, certamente,
diferente e muito especial. Bom dia!
P.S: uma senhora ligou e deixou esse recado em minha secretária eletrônica. achei tão lindo! ouça-a
Caro Nelson,
Marcos Jorge
At 11:27 11/10/2001 -0300Outro dia uma senhora me pediu para atravessa-la..pois tinha sofrido um acidente...e depois disso ficava apavorada qdo tinha que atravessar uma rua. Fiquei pensando..: no meio de tanta gente o que ela viu de diferente em mim para ter coragem de contar-me essa história..sem vergonha...sabendo que havia chances de eu sair correndo..imaginando que fosse assalto..pedido de esmola..e por ai vai. Eh incrivel como ha cada dia que passas as pessoas se trancam mais dentro de si mesmas...e têm medo de qualquer vulto que se aproxime..mesmo que este vulto..seja uma pessoa....
Gostei muito do texto.beijos,Carol
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