artigo publicado na Gazeta Mercantil de 13.11.97. pag. 02
Globalização. Da economia à Cultura...
As última semanas foram animadas pela crise das bolsas. No plural, sim. Hoje, o balançar da bolsa em Hong Kong equivale ao balançar das bolsas pelo mundo afora. O corre-corre passa a tomar conta não somente daqueles habituados ao linguajar dos pregões mas também dos que tem apenas uma pequena poupança. Mesmo os que vivem do salário mínimo e com ele faziam pequenas prestações para comprar uma TV ou um ferro, viram-se no meio deste mercado oscilante de juros absurdos. Não dá para ficar de fora! Ninguém está de fora! Não adianta fugir para um bucólico recanto de montanha ou mar. Estamos todos inseridos no tal mercado global. Os analistas econômicos desta Gazeta tem escrito sobre isso com freqüência.
Mas, quando pensamos em globalização a associamos de imediato às questões econômicas. No entanto, este é apenas um dos muitos lados desta moeda. O que está acontecendo com a cultura? E qual o papel da educação em países como o nosso, inserido neste mercado globalizado?
Ao tocarmos neste ponto estamos entrando no cerne da questão já que ele é fundamental para mantermos a nossa autonomia enquanto nação. O trabalho está se modificando. O trabalho intelectual passa a adquirir outros contornos e a escola passa a ser obrigada a assumir outro papel. Não pode mais ser a repassadora das informações por uma razão muito simples: estas informações já estão disponíveis através dos meios eletrônicos de comunicação e informação. Cabe a escola, neste novo contexto, trabalhar com outros elementos. A meninada, e falo aqui dos ricos mas também dos pobres, já vive um outro universo. Um universo globalizado. Fala-se do futebol daqui e da Itália ou Espanha com a mesma intensidade. Sobre a morte de uma princesa ou de um robô no espaço.
As televisões estão cada dia mais presentes nas casas, os videogames nas ruas que levam às escolas. Vive-se hoje um mundo onde a proliferação de imagens e informações é a constante. Esta meninada já pensa de forma diferente. E a escola precisa acompanhar esta movimentação, não como modismo, como algo inexorável que tenha que ser seguido para se inserir num mercado planetário mas como condição sine qua non para a sua inserção com autonomia num mundo globalizado. Mas não apenas economicamente globalizado. Um mundo globalizado também na cultura.
Esta globalização, diferente de outras épocas, não é apenas a possibilidade de receber as informações que vem de fora. É muito mais e aí que chegamos ao ponto fundamental. É a possibilidade de produzir aqui conhecimentos e culturas...globais! Esta passa a ser a diferença fundamental e é justo aí que temos o nosso maior desafio. O desenvolvimento tecnológico dos sistemas de comunicação introduz este elemento novo no processo de articulação entre aquilo que chamo de local com o não-local.
Estamos vendo inúmeras inciativas de colocação de computadores e televisões nas escolas, sejam elas particulares ou públicas. O governo Federal implanta um projeto de informatização que prevê a instalação de 100 mil computadores até o final do próximo ano. Tenho insistido que estes computadores em si não serão úteis se os mesmo não estiverem conectados em rede, à rede mundial Internet. E, o mais importante neste processo, não é conectar as escolas à Internet para que possamos visitar a bolsa de Hong Kong, o museu do Louvre ou a biblioteca do Congresso Americano. Isto é importante mas o fundamental é colocar cada escola na Internet para que a economia, a cultura, a vida de cada pessoa e região possam estar presentes de forma planetária na Internet. Precisamos colocar a realidade do São Francisco, do Oeste baiano, da região cacaueira com suas vassouras de bruxa e as soluções ali já articuladas para o problema... Mas também aqui não queremos apenas as páginas oficiais das Prefeituras ou Órgãos Públicos das cidades. Queremos cada aluno, cada professor, cada cidadão contando e escrevendo sua própria história. Deste conjunto de histórias estaremos fazendo as múltiplas e singulares histórias desta nossa nação. Um nação com cidadãos ativos, críticos e participativos...
Assim, cada escola transforma-se em um centro de produção de cultura e conhecimento e não simplesmente num espaço da reprodução pura e simples de um saber sistematizado e dominante.
Este é, sem dúvida, uma grande desafio, que só será alcançado se pudermos fortalecer, com autonomia e dignidade, nossos professores e escolas públicas.
Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da UFBA. Autor de Uma escola sem/com futuro: educação e multimídia, pela Papirus. Email: pretto@ufba.br Home-page: www.ufba.br/~pretto