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MEMORIAL DE TÍTULOS Este Memorial de Títulos
apresenta, de forma discursiva, circunstanciada e numa perspectiva histórica,
uma análise crítica sucinta das atividades acadêmicas que venho desenvolvendo
ao longo do período de formação e na atuação profissional. São destacados os
elementos constitutivos dessa itinerância que foram fundamentais para a sua
dinâmica e que acabaram servindo como referências para o universo de possibilidades
em termos de novas perspectivas de formação e de atuação. Um texto
estruturado numa perspectiva histórica para ser submetido como parte dos
requisitos da inscrição no Concurso Público para Docente do Magistério
Superior (Edital 03/2004), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no qual
sou candidata ao cargo de Professor Assistente do Departamento de Educação II
da Faculdade de Educação (FACED), em regime de dedicação exclusiva, para
assumir a Matéria Didática e Tecnologias Contemporâneas. Um breve auto-retratoFilha primogênita de uma família de trabalhadores do antigo bairro proletário de Salvador, o Bairro da Liberdade. Do lado materno, a referência era a determinação da jovem senhora, que substitui o tempo de aprender as primeiras letras pelo trabalho nos engenhos do recôncavo baiano, na produção de farinha e azeite de dendê. Do lado paterno, a referência era a persistência, resistência e seriedade do jovem negro descendente de pescador de baleias da praia de Itapuã, que consegue alcançar o nível profissionalizante do ensino com muito esforço e com uma das caligrafias mais cuidadosas e inspiradoras que eu já conhecera. Ter nascido dessa união tem um significado muito especial, que não pode ser traduzido por qualquer tentativa de racionalização sobre a minha história de vida. Contudo, a simples tentativa fortalece o sentimento de que o tempo passa, as pessoas mudam, mas as experiências que vão sendo vividas ao longo da vida, desde a mais tenra idade, compõem a nossa própria essência, condiciona e provoca os nossos sonhos, são referência para as nossas perspectivas. Pensando nessa história de
vida a sensação é de que não deixei de ser ainda, a moradora do bairro da
liberdade, que adora brincar na avenida, que transforma qualquer comprimento
de cordão em uma “cama-de-gato” ou qualquer recipiente de metal em “pé-na-lata”,
que vai à escola a pé, que solicita a ajuda do comerciante da esquina para
atravessar a rua, que anda de mãos dadas com a irmã, que se aventura nos
becos, escadarias e árvores mesmo com medo de se perder, de cair. Com uma
infância marcada por limitações de todas as ordens, mas com uma alegria muito
grande de conviver com pessoas de diferentes cores, idades e credos, que foi
possível desenvolver o gosto por sonhar, produzindo novos sentidos
para a vida, indo além do que as condições concretas de existência naquela
época favoreciam. A vida na escola, a escola na vidaEntrar na escola foi algo
tão marcante que ainda lembro das primeiras aulas nas salas improvisadas pela
paróquia do bairro para alfabetizar as crianças. Era interessante que mesmo
quando estava em casa a brincadeira predileta passou a ser a imitação do que
ocorria na sala de aula. Não demorou para que minha mãe se esforçasse e
presentear-me com uma pequena lousa, o que tornaria completa a simulação
diária realizada com minhas irmãs e amigos do bairro. A partir da 1a.
série tive a oportunidade de ser matriculada no Centro Educacional Carneiro
Ribeiro – CECR. Então, em um turno tinha aulas na Escola Classe II, até a
quarta série, e depois na Escola Classe IV, da quinta até a oitava série. No
turno oposto as aulas aconteciam na Escola Parque. Nas Escolas Classe
eram realizadas as atividades de instrução, baseadas no ensino de
leitura, escrita e aritmética, nas ciências naturais e sociais e outras
atividades ligadas ao currículo formal para cada série. Nessa década (1980),
em que pese toda a movimentação em torno de mudanças políticas e mudanças no
campo da educação e apesar do projeto político-pedagógico que deu origem ao
CECR, os meus registros são de um cotidiano escolar marcadamente conservador.
A ligação com os princípios tradicionais era evidente na postura dos
professores que se limitavam em realizar exposições verbais dos conteúdos,
nesse momento era terminantemente proibido qualquer desatenção ou conversa
paralela, o silêncio era a principal regra que deveríamos obedecer depois de
ordenados em fileiras nas salas de aula. Uma grande ênfase era dada à
repetição, as rotinas de trabalho na sala de aula passavam pela leitura individual
e em voz alta das lições como “Lia, a Centopéia” do livro de
Português. Nesses momentos, deixar de aplicar a entonação correta, a cada
ponto ou vírgula, era motivo de interrupção brusca e correção impaciente da
professora. Estudar matemática era frustrante,
o que mais assustava era o dia da sabatina, para o qual os alunos
tinham que ter decorado a tabuada. Cometer um erro, no momento em que
a professora perguntava individualmente, era fatal. Tenho fortes
recordações da separação da turma entre “fileiras dos sabidos” e “fileiras
dos burros”. Até a oitava série, os valores tradicionais estavam
presentes, os professores tinham uma postura autoritária, as aulas
praticamente não se diferenciavam quanto à estrutura de apresentação de
conteúdo e aplicação de exercícios, os conceitos e fórmulas deveriam ser
repetidos e memorizados, o intenso controle disciplinar era constante tanto
dentro quanto fora das salas de aula. Dedicar-se aos estudos, naquele
momento, representava, em primeiro lugar a chance de ficar isento da
“vergonha de não saber”, depois a busca da valorização atribuída pelo
professor aos alunos que tivessem os melhores desempenhos e, por fim,
significava entrar no jogo da competição entre colegas pelas melhores notas.
Um dos momentos mais esperados era o resultado final e a aprovação para a
série seguinte, quando um novo ciclo recomeçava. No turno oposto frequentava
a Escola Parque, onde eram realizadas atividades ligadas ao trabalho, ao
esporte, às artes, ao convívio social (loja, clubes, organizações infantis).
Relembrar esse espaço é tornar possível a compreensão da amplitude e
complexidade da proposta de Anísio Teixeira, apesar de todas as dificuldades
de manutenção das idéias originais do CECR. Na verdade, a própria
infra-estrutura da Escola dificultava uma prática pedagógica meramente
tradicional, uma vez que ela foi elaborada, até nos detalhes de sua
arquitetura, com base em princípios da educação integral para a formação de
cidadãos ativos na construção de sua realidade. Passava as tardes numa grande
movimentação, ora praticando educação física ou jogando voleibol no ginásio
de esportes, ora aprendendo a produzir peças com cerâmica no setor de
trabalho; encenando, cantando ou tocando um instrumento no setor artístico; futucando
os livros na biblioteca de “paredes de vidro”; brincando na imensa
área da escola, que tinha espaços livres, áreas arborizadas, o teatro de
arena, o campo de futebol e outros tantos cantos secretos que só os
alunos conheciam. Os alunos podiam fazer opções entre as inúmeras atividades
oferecidas em cada setor, poderiam circular pelas áreas livre, tinham
alimentação e assistência à saúde, tinham acesso a informações por diferentes
meios disponíveis no interior da Escola. Era uma verdadeira e pequenina
universidade infantil, que dava aos alunos a oportunidade de participar, como
membro da comunidade escolar, de um conjunto rico e diversificado de
experiências. Assim, passei a adquirir hábitos de observação, a desenvolver
minha capacidade de imaginar e ter idéias, de executar projetos, a
projetar-me para o futuro.[1]
Ter sido aluna do CECR, que
incluía a Escola Parque, com todas as contradições vivenciadas pelo seu
projeto nessa década de 80, significou o fortalecimento de minha habilidade
em sonhar, em produzir novos sentidos para a vida, para o estudo. Nem sei se
posso chamá-la de escola ou de vida, mas sei que fui muito feliz naquele
espaço ao aprender, brincar, correr, cair, melar, trabalhar, interpretar,
cantar, namorar, brigar, crescer. Mas eu sabia que estava numa ilha
que recebia alunos de uma pequena parcela de uma população pobre, que vivia em condições precárias do ponto de vista
do saneamento, do transporte, do atendimento a saúde, das opções de
entretenimento e de acesso à cultura, todos estes aspectos característicos do
descaso generalizado que tem atingido os bairros populares da cidade, assim
como atingiu (e atinge) o nomeado “Bairro da Liberdade”. Aos poucos a vida fora da
escola era problematizada, como ocorreu na belíssima ocasião em que os
membros da equipe da qual fazia parte, numa gincana de bairro, encampou a
idéia de apresentarmos, com muita criatividade, o desfile de abertura com o
tema: “Educação ontem, hoje. E amanhã?”, o que significava, no fundo,
uma iniciativa de adolescentes que procurava evidenciar as dificuldades da
nossa comunidade em termos de acesso à escola e condições de estudo. Esse
fato indicava o processo de desenvolvimento de alguns valores fundamentais
para a minha formação, que estavam presentes tanto na atitude dos meus pais,
ao insistirem em dar condições para que as filhas pudessem estudar, quanto na
indescritível potencialidade oferecida pela escola de Anísio Teixeira e os
princípios fundamentais para a formação de verdadeiros cidadãos. A passagem para o ensino médioDiante da iminência de
deixar a Escola Parque, ao final da oitava série acreditava que deveria
ingressar numa escola que proporcionasse uma boa educação em nível médio. O
problema era que o descrédito sobre as escolas públicas era demasiado. Isso
fez com que minha família e eu nos agarrássemos ao que parecia ser uma
alternativa única, ingressar na antiga Escola Técnica Federal da Bahia –
ETFBA. A escolha estava muito mais centrada na idéia de ter acesso a um
ensino com mais qualidade do que a algum tipo de definição acerca dos rumos a
serem tomados para a vida profissional. No momento em que foi necessário
optar por um dos cursos técnicos oferecidos pela escola, a opção pelo Curso
de Química, estaria ligada, na verdade, a todo um imaginário sobre a
“cientificidade” que estaria por trás dessa profissão. O fascínio pela idéia
de que trabalhar em um laboratório significava realizar experimentos,
descobrir novos materiais, lidar com o desconhecido. Apesar do medo de
crescer, também fazia parte desse horizonte o mito de que ter um
diploma da ETFBA facilitaria a inserção no disputado mercado de trabalho,
enfrentamento necessário para que pudesse contribuir com a renda de minha
família. No processo de formação
técnica em química foram iniciadas reflexões, não sistemáticas, sobre a
prática pedagógica desenvolvida no interior das salas de aula e laboratórios
da Escola. Começava a se delinear nesse período a minha busca por um novo
sentido para a experiência vivida na escola. Eu comecei efetivamente a
formular questões a partir das provocações frequentes dos professores da
Escola, que procuravam ir além de sua função de transmitir objetivamente
algumas informações técnicas. A afirmação da necessária postura política
diante da realidade, um dos traços mais fortes dessa fase de minha formação,
teve uma influência direta desses professores, que demonstravam ser pessoas
engajadas que lutavam pelos seus e pelos nossos direitos, lutavam por uma
educação pública de qualidade. A cada novo dia, eu
vivenciava diferentes relações, com uma grande diversidade de colegas,
tentando entender o valor que estava implícito nas atividades pedagógicas
que, objetivamente, instrumentalizava profissionais em formação para o
exercício profissional. Teve um papel fundamental a convivência com os
colegas nas atividades livres em diferentes espaços que também devem ser
considerados como espaços de aprendizagem. Eram marcantes os momentos de
reuniões formais ou informais como as que se realizavam no grêmio estudantil;
os jogos e momentos de recreação nas quadras e no ginásio; a espera para o
início das aulas na passarela que interligava os prédios, chamada de Leblon;
as atividades culturais realizadas no pátio em frente a área de refeições,
chamado de praça vermelha; na sala de estudos e biblioteca, onde os
alunos faziam exercícios juntos, tiravam dúvidas entre colegas, onde
circulavam provas aplicadas e resolvidas em semestres anteriores por outros
colegas. Assim, emergia o desejo de aprofundar a reflexão sobre as práticas
educativas e as relações entre os sujeitos dessa práxis no seu processo de
construção de conhecimento. Aí nascia o interesse pelos atos de ensinar e aprender,
partindo da reflexão sobre as a educação como uma prática social que, na
perspectiva escolar, pouco evidenciava o seu lado prazeroso. Era o
começo de um direcionamento profissional, o despertar do desejo de atuar no
campo da docência, no sentido de promover transformações necessárias para que
essa atuação viesse a contribuir com enriquecimento da vida e da formação de
sujeitos autônomos. Cheguei a exercer a
profissão de técnico em química, no laboratório de uma indústria de resinas.
Foi mais um período de aprendizagem no qual tive a sorte de contar com
pessoas interessadas em fomentar o desenvolvimento de outras. Pude aplicar
tudo o que havia aprendido na ETFBa e ir além enriquecendo minha experiência
na área de química auxiliando no desenvolvimento de novos produtos e na
reflexão e intervenção na dinâmica do processo produtivo dessa indústria. O
desejo de prosseguir os estudos em outra área de conhecimento foi crescente.
Em pouco tempo passei a conciliar o trabalho com o estudo, quando ingressei
na Universidade Federal da Bahia para realizar o sonho de estudar no Curso de
Pedagogia. Ter optado em deixar o emprego, após um ano de conciliação, foi um
mais que um risco diante da necessidade que não deixava de existir de que eu
pudesse contribuir para a renda da família. Essa opção era uma resposta
autônoma diante da necessidade mais imediata, em busca da realização
profissional, da realização pessoal, da inserção política na realidade
educacional. “Eu faço universidade”: a graduação em Pedagogia A graduação em Pedagogia foi uma opção que implicou em resistências na minha família, dadas as expectativas suscitadas em torno dos egressos da ETFBA, no que diz respeito a alteração da situação econômica da família a partir da inserção mercado de trabalho que valoriza a formação técnica adquirida nesta instituição. Além disso, acreditavam que mesmo retardando a inserção profissional no mercado de trabalho, a opção pela continuidade dos estudos em nível superior em cursos mais valorizados socialmente seria favorecida pela formação básica proporcionada pela Escola, elevando as chances de sucesso diante das barreiras da seletividade do ensino superior público na Bahia. Desse modo, família e amigos reagiram negativamente diante da decisão de ser professora e pesquisadora em educação. Questionavam o investimento em uma carreira que não traria uma efetiva ascensão social ou benefícios econômicos. Evidentemente, tais
preocupações eram pertinentes ao contexto de uma família pobre, na qual nunca
houve um membro sequer contemplado com as condições de prosseguimento dos
estudos, em especial, pela necessidade de direcionar esforços redobrados para
a manutenção da existência através do trabalho. Nesse contexto, não restava tempo
para construir sonhos, para pensar em novas possibilidades para a vida, para
produzir uma outra realidade. No entanto, o que significava uma desnecessária
frustração de expectativas para alguns, era considerado uma grande vitória
para mim. Assim, durante o Curso de
Pedagogia, no período entre 1993 e 1997, na Faculdade de Educação (FACED) da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) iniciei um processo muito rico de
sistematização dos problemas que tanto me sensibilizaram durante a
experiência escolar. O curso transcorreu entre descobertas, reflexões,
mudanças de visão de mundo. Para tanto, foram significativas as atividades
didáticas realizadas nas disciplinas curriculares, as atividades de
representação estudantil e, muito especialmente, as atividades da iniciação
científica. É necessário registrar, ainda, a relevância dos momentos de
convivência com os sujeitos que fizeram e fazem o dia-a-dia da FACED, o estar
na Faculdade, nos pátios, corredores, escadas, auditórios, biblioteca, salas
de reunião, laboratórios, o observar os murais, ou seja, toda a
ambiência promovida era indiscutivelmente um convite à alegria de aprender,
de produzir conhecimento, de viver a universidade, de pensar e viver o mundo. As atividades didáticasO Curso ofereceu um
conjunto de componentes curriculares que foi significativo para a elaboração
de uma visão complexa sobre o fenômeno educativo na contemporaneidade. O
passeio pelos fundamentos da educação através de disciplinas relacionadas com
a Filosofia, a História, a Sociologia e a Psicologia foi fundamental para a
ampliação da perspectiva multidimensional como base para compreensão dos
nexos da educação, provocada pelo acesso e interpretação do conhecimento
sistematizado nessa área. A compreensão sobre os processos educativos como uma
prática político-social, organizados por sujeitos, dirigidos por sua visão de
mundo e de conhecimento, dinamizados por decisões políticas foi fortalecida e
ampliada nos estudos sobre estatísticas educacionais, sobre a estrutura e
funcionamento dos diferentes níveis de ensino. A preparação para a produção
acadêmica foi providencialmente realizada nas disciplinas de metodologia do
trabalho científico. Outras disciplinas como a Didática II e Introdução à
Informática na Educação, foram fundamentais para a compreensão do processo de
ensino, contribuindo para a articulação entre os fundamentos da educação e as
diferentes possibilidades de planejamento, desenvolvimento e avaliação da
prática pedagógica no contexto contemporâneo, marcado pela presença das
tecnologias da informação e comunicação. As oportunidades de realização de estágio curricular, integradas a um acompanhamento direto dos professores da FACED, significou a iniciação da vida profissional no campo da educação centrada no princípio do trabalho cooperativo e dialógico. O estágio docente, em Curso de Magistério, foi realizado na Disciplina História da Educação, na Escola Estadual Raphael Serravalle. Foi um período de aprendizado intensivo, provocado pela inquietante articulação entre teoria e prática numa realidade concreta e complexa da escola pública na Bahia, na qual questões ainda não analisadas no curso de formação ou aquelas estudadas isoladamente afetavam diariamente o trabalho docente sob experimentação. Um outro estágio curricular
foi desenvolvido na área da supervisão educacional no Programa de Educação ao
Servidor Público – PROESP, da própria FACED. Nesta oportunidade, a concepção
de estágio curricular como um momento de simples aplicação, numa dada
realidade, de conhecimentos assimilados durante o curso foi completamente
superada. Na verdade, a experiência vivenciada durante esse estágio
representou um momento de novas aprendizagens, em especial pelo enfrentamento
dos desafios históricos que o Programa enfrentava para a sua consolidação, como
falta de um corpo docente permanente, uma vez que quem assumia as salas de
aula dirigidas à formação básica de jovens e adultos eram professores
estagiários selecionados entre graduandos de cursos de licenciatura da UFBA. As atividades curriculares
formais tiveram que dividir espaço na minha formação com as atividades de
representação estudantil, que a despeito da ausência do reconhecimento de sua
importância no processo de formação universitária (o que levou a que quase
nada fosse registrado e considerado pela academia), elas foram fundamentais
para o desenvolvimento da consciência política e responsabilidade com o nosso
espaço-tempo. O início de minha participação nas mobilizações internas de
estudantes da FACED foi proveniente do espírito insatisfeito com as condições
de estudo disponibilizadas pela Universidade. Os estudantes criticavam a
falta de oportunidades para o acesso à informação, a ocorrência de problemas
da estrutura curricular, a inexistência de discussão sobre temas da “ordem do
dia” da educação, a falta de condições para a participação estudantil em
eventos da área, a falta de atividades culturais e a limitação dos espaços de
integração e convivência na Faculdade. Essas e outras
reivindicações passaram a ser compreendidas como uma questão que atingia
outros cursos de Pedagogia no Estado e até mesmo no país. Essa compreensão se
consolidava na medida em que eu passava a participar dos fóruns estudantis
fora da FACED. Cheguei a participar de diversos encontros, estaduais e
nacionais, de estudantes de Pedagogia, inclusive na coordenação de Grupo de
Trabalho Educação e Novas Tecnologias (ANEXO 1). Inevitavelmente, essa
participação política se estendeu para o envolvimento com estudantes de
outros cursos da própria UFBA e, além de ter assumido a presidência do
Diretório Acadêmico de Pedagogia por um ano, também fiz parte de uma gestão
do Diretório Central de Estudantes da UFBA. Nesse percurso ocupei várias das
cadeiras de representação estudantil nos órgãos colegiados da UFBA, como por
exemplo, no Colegiado de Pedagogia e no Conselho Universitário da UFBA
(ANEXOS 2 e 3). Acrescentar um parágrafo
sobre a importância de ter vivenciado a mobilização estudantil junto à
reflexão sobre a relevância das atividades didáticas realizadas durante a
formação inicial é um desafio. No fundo, está cristalizada a idéia de
incompatibilidade entre as dimensões técnica e política na formação do
professor. Certamente, as contribuições advindas dessa experiência têm um
grande destaque no enfrentamento do trabalho docente nos dias atuais. Esse reconhecimento só é possível para o
profissional compreender a si mesmo não só como um especialista, técnico em
pedagogia, mas como um professor autônomo que toma a dimensão política de sua
ação como um aspecto fundante do desafio de educar para a cidadania na
sociedade atual. A Iniciação científicaO meu encontro com os
programas de iniciação científica na FACED foi provocado pelo interesse em ir
além do que aprendia nas salas de aula e pela necessidade de obter auxílio
financeiro para que eu pudesse assumir as despesas básicas para a minha
permanência no Curso, como as de deslocamento, aquisição de material e
livros, alimentação nos períodos de estudo, desde que optei pelo estudo,
deixando o emprego na indústria. As oportunidades de iniciação científica
eram restritas. O universo de projetos de pesquisa que conseguiam aprovação
de bolsas de iniciação científica era menor que a quantidade de estudantes
interessados. Assim, era necessário concorrer com outros estudantes para ter
direito a desenvolver a atividade que aprendi a considerar como a mais
fundamental dentro do processo formativo. Era necessário atender a um dos
principais critérios explícitos em qualquer processo seletivo para bolsistas,
por imposição das agências de financiamento dos projetos, a de incorporar
estudantes que tivessem um alto desempenho acadêmico, mensurado pelos
resultados finais obtidos nas disciplinas. Tendo atendido a esses e
outros critérios, fui premiada com a primeira bolsa de pesquisa
oferecida pelo projeto “As Escolas Técnicas Federais do Norte e Nordeste
do Brasil: sua contribuição à formação de uma nova qualidade da força de
trabalho”, coordenado pela Professora Iracy Silva Picanço e financiado
pelo CNPq e INEP/MEC. Essa pesquisa pretendia conhecer o modo estas
instituições e suas práticas pedagógicas se alteravam na medida em que
ocorriam transformações no seu exterior e procurava investigar a natureza
destas escolas que vêm se dedicando à formação de um segmento da força de
trabalho presente na base das atividades produtivas das regiões Norte e
Nordeste do país[2]. A forma
como fui orientada e integrada ao GRUPO DE PESQUISA EM TRABALHO E EDUCAÇÃO
levou-me a um rápido amadurecimento sobre a necessária organização do
trabalho científico. Nesse período elaborei pela primeira vez um projeto de
pesquisa, na verdade um sub-projeto, intitulado “O Estudante do Ensino
Técnico: suas representações”. Este sub-projeto norteava as ações que
mais tarde viriam a ser executadas na vigência da bolsa, apontava para o modo
como mais tarde os dados coletados seriam analisados e para a apresentação de
um relatório conclusivo. Para o cumprimento do
desafio, mesmo no meu segundo ano de graduação, passei pelas etapas de
revisão de literatura, delimitação de objeto de pesquisa, definição de
objetivos, metodologia, elaboração de instrumentos, realização de visitas a
campo, gravação e transcrição de entrevistas, categorização, sistematização e
análise de dados, produção de texto através de relatórios parciais e final.
Além disso, participei de reuniões científicas da linha de pesquisa em
Trabalho e Educação (ANEXO 4), tanto dentro quanto fora da FACED. Em 1995, o
pôster “As Escolas Técnicas Federais do Norte e Nordeste do Brasil” foi
selecionado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFBA para ser
apresentado na 2a. Jornada Nacional de Iniciação Científica
durante a 47a. REUNIÃO ANUAL DA SBPC, realizada no período de 09 a
14 de julho de 1995, em São Luís/MA, quando fiz a primeira participação em
evento fora do Estado da Bahia. Posteriormente este mesmo trabalho foi
selecionado para apresentação no XVI SEMINÁRIO ESTUDANTIL DE PESQUISA DA
UFBA, realizado de no período de 14 a 17 de novembro de 1995, em Salvador/BA,
juntamente com o trabalho “O Estudante do Ensino Técnico: suas
representações” (ANEXOS 5, 6 e
7). Com o término do prazo
dessa bolsa fui incorporada como na categoria de Bolsa Trabalho da UFBA, na
pesquisa “Produção Acadêmica na UFBA sobre o Mundo do Trabalho”,
realizado pela comissão local da UNITRABALHO – REDE INTERUNIVERSITÁRIA DE
ESTUDOS SOBRE O TRABALHO. Sob a orientação das professoras Iracy Silva
Picanço e Ana Lúcia Magalhães, participei das primeiras etapas do projeto,
quando foram discutidos os objetivos e relevância da proposta, foram traçadas
as estratégias básicas para que tais objetivos fossem atingidos, foram
elaborados os instrumentos e cronograma da pesquisa. A primeira etapa
definida foi o levantamento de pesquisas em diversas áreas do conhecimento
cuja abordagem estivesse relacionada ao mundo do trabalho. Essa etapa
contemplava pesquisas já realizadas ou em andamento, o que foi traduzido numa
metodologia que envolvia o levantamento de dados bibliográficos em
bibliotecas da UFBA, levantamento de teses e dissertações nos programas de
pós-graduação e a conversa direta com pesquisadores de diferentes áreas a
partir da revisão de sua produção científica. Em um segundo momento, eu fui
direcionada para a digitação dos dados coletados. Participei ainda, do
processo de classificação e sistematização realizado pelas coordenadoras, bem
como da organização da publicação do relatório final. Ter participado desse
trabalho, nas suas diferentes etapas, aprofundou reflexões que já vinham
sendo feitas. O fato de envolver-me com a dinâmica de produção de
conhecimento e de ter estabelecido relações com pesquisadores de outras áreas
modificou a minha postura diante da comunidade científica. Poderia traduzir
essa mudança como um momento chave para o desenvolvimento da própria
autonomia oriunda do entendimento nascente sobre a necessária parceria e
complementaridade apontada pelo trabalho acadêmico. Um detalhe não menos
importante foi a utilização da informática para o registro dos dados da
pesquisa, pude constatar na prática do trabalho científico o quanto é
possível aprender e como a aprendizagem que ocorre ligada ao trabalho é
sólida e significativa. Ali nascia a minha habilidade para a autoria mediada
pela informática. Ao final dessa Bolsa foi apresentado um pôster XVII
SEMINÁRIO ESTUDANTIL DE PESQUISA DA UFBA, em 1996. Com o término desse
trabalho e depois de ter cursado a Disciplina Introdução à Informática na
Educação, na qual desenvolvi pequenos trabalhos de pesquisa de campo
sobre o uso de computadores em escolas, fui selecionada como Bolsista de
Iniciação Científica do projeto de pesquisa “Formação de Professores a
Distância - Uso de Redes/Estado da Arte”, coordenado pelo professor
Nelson De Luca Pretto. Nessa nova fase passei a fazer parte do GRUPO DE
PESQUISA EM EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIAS (GEC). As atividades
desenvolvidas no GEC foram fundamentais para o fortalecimento de minha
autonomia enquanto pesquisadora, uma vez que a ênfase do trabalho era a
produção em grupo através de processos de colaboração e convivência mediada
pelas próprias tecnologias. O Grupo se organizava para a resolução de
problemas, para a realização de estudos, para a elaboração de textos
escritos, materiais audiovisuais e hipertextuais. Ao buscar compreender a
relação entre educação e as tecnologias contemporâneas, o GEC assumia no seu
cotidiano as perspectivas de uso e produção das tecnologias, a partir de
reflexões contextualizadas sobre o tema. Procurando uma apropriação autônoma,
o GEC buscava explorar, cotidianamente, as diferentes possibilidades de
interação entre pessoas e expressão de idéias produzidas coletivamente. Essa
articulação entre as dimensões de reflexão e produção, marcada pela
interatividade entre os membros do grupo ocorreram, principalmente, através
das listas de discussão, das sessões presenciais de estudo e orientação
coletiva, da realização de trabalhos conjuntos (organização de eventos,
cursos, apresentação de trabalhos, viagens). No centro desse processo de
formação inicial está situada, certamente, a experiência inaugurada com a
participação no primeiro projeto de pesquisa como bolsista de iniciação
científica, o que representou uma referência básica para todo o meu
relacionamento posterior com a pesquisa na universidade, tanto no decorrer da
graduação quanto na pós-graduação. Essa experiência vem servindo como
parâmetro ainda hoje, diante dos desafios do trabalho docente no ensino
superior e do inalienável compromisso com a inclusão de novos pesquisadores
no complexo e problemático campo da educação. Os estudos realizados sobre os
vínculos entre Educação e Comunicação, iniciados no GEC, tornaram o desejo da
continuidade da investigação como uma consequência natural e necessária para
a minha formação. Pouco tempo após o término da Graduação em Pedagogia, eu
ingressei no Mestrado em Educação com um projeto de dissertação voltado para
essa área.[ASP1] Mestrado em EducaçãoAo finalizar o curso de
Graduação em Pedagogia, as questões analisadas no projeto de pesquisa do qual
fazia parte como bolsista de iniciação científica continuavam provocando
muitas reflexões. A pesquisa sobre o Estado da Arte da Educação a Distância
proporcionou uma visão panorâmica das diversas iniciativas nessa área, com
atuação no âmbito nacional. Muitas questões precisavam ser respondidas diante
da notada expansão dessa possibilidade de articulação entre o mundo da comunicação
e os processos educativos. O esforço para entender a complexidade em que
estava situada a EAD parecia estar se transformando em um investimento
inadiável. Novos sentidos pareciam estar sendo construídos para a experiência
educacional a distância, diante da inserção acelerada, marcante e convergente
de diferentes tecnologias de informação e comunicação. A necessidade de
reflexão sobre o tema foi instigada, na medida em que me envolvia nos
processos de ensino-aprendizagem realizados a distância no GEC e,
principalmente, a partir da incorporação do uso das tecnologias da
comunicação e informação no meu cotidiano. Desse modo, ingressei no curso de
mestrado no Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação da UFBA, no qual
permaneci no período entre 1999 e 2001, desenvolvendo o projeto de pesquisa
intitulado, inicialmente como: “Avaliação no Processo de Educação a
Distância: Um Estudo de Caso nas Tele-salas do Telecurso 2000 coordenadas
pelo SESI-BA” (ANEXO 8). Contexto de emergência do Mestrado em EducaçãoDiante da necessidade de
compatibilizar a vontade de estudar com a demanda por atuar
profissionalmente, cheguei a iniciar a carreira no magistério superior
lecionando a disciplina Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1o.
e 2o. graus, na Universidade do Estado da Bahia – UNEB, como
professora substituta. Nesse momento, procurei discutir as questões da então
recente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, aprovada em dezembro
de 1996, a história de sua elaboração, o significado de sua aprovação naquela
conjuntura e as implicações educacionais provenientes. As oportunidades de
discussão sobre as exigências de um processo de ensino diferenciado, que
envolvesse novas linguagens se afirmavam na prática de sala de aula que era
desenvolvida, apesar das limitadas condições de trabalho encontradas nessa
unidade de ensino superior e da pouca importância relativa atribuída às
disciplinas pedagógicas no interior dos cursos de licenciatura nas áreas
específicas, como aquelas em que eu atuava (ANEXO 9). Ao mesmo tempo ingressei no
curso de Pós-Graduação, no qual pude direcionar o desejo de discutir os
vínculos entre a Educação e Comunicação na medida em que me especializava em
Gestão e Planejamento Educacional. Ao final da Especialização, o grupo do qual
fazia parte apresentou o trabalho final intitulado “Projeto de
Intervenção: Núcleo de Educação e Multimeios”, elaborado após um período
de avaliação da situação educacional em termos tecnológicos de uma rede de
ensino (no Município de Santo Antônio de Jesus/BA), que visava a implantação
de um centro tecnológico voltado para a formação dos professores da rede
municipal. As contribuições da
Disciplina Ciência e Educação, ministrada pelo Professor Luiz Felippe Perret
Serpa, que cursei como aluna especial do Programa de Pós-Graduação em
Educação da UFBA, foram básicas para a formulação de uma compreensão acerca
da evolução histórica das imbricações entre a concepção de conhecimento,
natureza e de mundo e as práticas educativas. Essa contribuição foi
incorporada nas reflexões sobre o significado das transformações atuais da
relação entre sujeitos no processo de construção de conhecimento diante da
presença marcante das tecnologias da informação e comunicação, aspecto que
não poderia ser desconsiderado dentro das necessidades de ressignificação das
práticas educativas que antes tomavam tais tecnologias como meros
instrumentos para uma maior distribuição massiva de informações. A dissertação de mestradoA dedicação ao
aprofundamento de estudos sobre os vínculos entre Educação e Comunicação,
realizada no período do curso de especialização, fez com fosse amadurecida a
idéia de submeter um projeto de dissertação ao Programa de Mestrado em
Educação. Tendo sido selecionada, passei a desenvolver a pesquisa que deu
origem a minha dissertação de mestrado – EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E OUTROS
NÓS: uma análise das telessalas do Telecurso 2000 coordenadas pelo SESI na
Bahia – sob orientação do Professor Nelson Pretto. A opção pela análise
da experiência do SESI/BA, em termos da implantação e coordenação do
Telecurso 2000, foi orientada por uma preocupação maior de reconhecer e
compreender os nós que envolviam as diferentes possibilidades de
encaminhar uma experiência educacional que utiliza as tecnologias da
informação e comunicação. Diante das diversas iniciativas em EAD
desenvolvidas no país, essa me parecia instigante pela sua popularidade,
abrangência, pelo seu caráter privado e pelo pioneirismo no campo da Educação
de Jovens e Adultos. Há algum tempo as práticas
de EAD vêm sendo ressignificadas, argumento que se fortalece diante dos
diferentes problemas que têm sido provocados pelas experiências ainda
centradas no uso de TIC para realizar uma educação em massa. O Telecurso 2000
está inserido nesse tipo de concepção e por isso, a despeito de sua
popularidade, é uma expressão concreta de uma série de tensões e conflitos. A
dissertação conclue que esse programa de EAD chega nas telessalas, instaladas
dentro de empresas ou de organizações que as representam, como uma imposição
aos jovens e adultos trabalhadores, através de uma programação fragmentada,
fechada, não flexível e centralizada, que tem na prática de avaliação um dos
principais indicadores do conservadorismo ineficaz que denuncia o esgotamento
do modelo adotado. Apesar da inadequação do modelo de educação de massa para
as demandas educacionais contemporâneas, ficou evidente que o sucesso
do Telecurso 2000 está ligado a um grande esforço engendrado pelos grupos
interessados no processo de mercantilização da educação e da manutenção da
situação política, ideológica e econômica que ainda prevalece no país. A síntese realizada após
três anos de trabalho no curso de pós-graduação, sendo os dois primeiros anos
de dedicação exclusiva, como Bolsista da COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL
DO NÍVEL SUPERIOR (CAPES[ASP2]), foi produzida a partir de uma longa convivência
no campo de pesquisa, participando de teleaulas, assistindo reuniões entre os
professores (orientadores) do programa, visitando empresas, conversando com
os alunos do Telecurso 2000, levantando e lendo documentos (ANEXO 10). De
todo modo, os resultados conquistados no curso de mestrado foram além da
aquisição do diploma de mestre em educação, após o veredicto da banca
examinadora da dissertação, que considerou o trabalho aprovado com
distinção durante a sessão de defesa no dia 04 de abril de 2002. O
processo de produção da dissertação foi, certamente, mais rico que seu
resultado, uma vez que envolveu aspectos relevantes da vida acadêmica que
estão na base de sustentação da titulação e mesmo dos indicadores de
produtividade. Cito, como exemplo, a integração e reconhecimento em
comunidades de produção de conhecimento e o desenvolvimento de projetos
coletivos, que evidenciaram a imbricação entre teoria e prática, para além
dos muros da universidade. Inserção na comunidade científicaDurante o curso de mestrado foi necessário ponderar acerca de algumas idéias consolidadas no meio acadêmico como, por exemplo, julgar-se que a elaboração do trabalho científico exigia o isolamento do pesquisador, um estado de concentração perfeita para que a produção fosse efetivada e, então, comunicada. Essa orientação era por demais incoerente com as questões teóricas sob estudo que remetiam para a permanência da colaboração no processo de construção do saber. Nesse estudo, que se situa na linha de pesquisa Comunicação e a Educação, a ênfase estava centrada em conceito como inteligência coletiva[3], aprendizado em rede e interatividade.[4] A participação em reuniões
científicas, nessa fase, se deu a partir da apresentação do trabalho
“Educação a Distância e o Telecurso 2000”, durante o XIV ENCONTRO DE PESQUISA
EDUCACIONAL DO NORDESTE E NORDESTE (EPENN), realizado entre os dias 16 a 18
de junho de 1999 em Salvador/BA. A participação nesse fórum teve continuidade
nos anos subsequentes, tanto no XV EPENN, em 2001, em São Luís/MA, como no
XVI EPENN, em 2003, em Aracajú/SE. Na seqüência de eventos, foi apresentado o
trabalho “Telecurso 2000: um estudo de caso em telessalas implantadas na
Bahia” (2001), que discutia os aspectos metodológicos do projeto de
pesquisa e o trabalho “Crítica ao Telecurso 2000 a Partir da Experiência
da Bahia” (2003), que apresentava os dados obtidos, análise de dados e
conclusões sobre a pesquisa que consubstanciou a dissertação de mestrado
(ANEXOS 11, 12 e 13). Além disso, fiz parte do painel sobre Sociedade da
Informação: possibilidades e limites da Tecnologia da Informação e
Comunicação em Educação, composto por outros membros do GEC, cujo texto
foi publicado na íntegra nos Anais do evento e no CR-ROM. A integração à Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPED), da qual me tornei
membro tão logo ingressei no mestrado foi de suma importância para o
desenvolvimento da dissertação. Na 24a. REUNIÃO ANUAL DA ANPED,
realizada em Caxambu/MG (2001), eu obtive o mérito do aceite do artigo
intitulado “Educação a distancia: solução ou novos desafios?”. O
artigo foi apresentado no GT 16 – Educação e Comunicação. Além disso, o texto
completo teve publicação impressa, na Internet e em CD-ROM. O resumo foi
publicado nos Anais do Evento. Esse trabalho foi fruto das primeiras análises
sobre a EAD realizadas durante o mestrado, nas quais procurei discutir a
superficialidade da idéia de que a EAD tem em si uma vocação democrática
pelo fato de garantir a ampliação do acesso à educação. Mostro que ao lado da
perspectiva redentora que acompanha as práticas de EAD muitos problemas têm
acompanhado as iniciativas nessa área. Tais problemas precisam ser
considerados para que haja uma compreensão mais precisa sobre a natureza da
EAD e os desafios que estão postos na contemporaneidade, em especial pela
problematização da concepção de comunicação e educação em massa proveniente
das novas formas de comunicação disponíveis, centradas numa intensa
interatividade (ANEXOS 15a e 15b). Na 25a. REUNIÃO
ANUAL DA ANPED, também realizada em Caxambu/MG (2002), um segundo artigo, intitulado “Telecurso 2000 e o Problema da Educação em
Massa no Brasil”, foi aceito para a publicação integral e do
resumo. Neste trabalho apresentei as análises realizadas no mestrado sobre as
especificidades do programa Telecurso 2000 como uma iniciativa de EAD que tem
conquistado espaços na experiência educacional nacional ainda que esteja
centrado em um modelo de educação de massa, no qual prevalece a lógica de
comunicação unidirecional e a disseminação de informações em larga escala.
Apresento dados do projeto pedagógico e do cotidiano da utilização do
programa como forma de evidenciar a sua insuficiência em relação às demandas
educativas do público para o qual se dirige (ANEXOS 16a e 16b). Na 26a. REUNIÃO ANUAL DA
ANPED, realizada em Poços de Caldas/MG (2003), o terceiro artigo, intitulado
“Educação Superior para Professores em Exercício: Formando ou Improvisando?”
foi aceito para a publicação integral e do resumo. Este trabalho já
estava vinculado aos estudos iniciados com o projeto de tese, que venho
desenvolvendo atualmente no Curso de Doutorado em Educação. Neste trabalho
procurei mapear a discussão sobre a educação superior entre os professores em
exercício no sistema de educação básica do Brasil diante da “efervescente”
demanda gerada pela Lei 9.394/96 – das Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB). Ter submetido esse conjunto de idéias à esta comunidade
científica, o que teve como consequência a incorporação de contribuições às
idéias originais, vem fortalecendo as bases de construção do objeto de
investigação no atual projeto de pesquisa (ANEXOS 17a e 17b). A busca de interlocução em
comunidades fora do âmbito educacional tem feito parte da percepção
multidimensional que tenho dado as pesquisas que vêm sendo realizadas. Assim,
foi fundamental poder dialogar com os membros da SOCIEDADE BRASILEIRA DE
COMPUTAÇÃO – SBC, durante o seu XXI Congresso, realizado em 2001, na cidade
de Fortaleza/CE. Nessa oportunidade, membros do GEC e eu participamos do
evento com a apresentação do trabalho “Ensinar & aprender: caminhos
metodológicos e mapas de navegações um movimento vivenciado”, que
analisava a experiência desenvolvida pelo grupo em uma de suas ações de
extensão universitária, procurando enfatizar a abordagem das tecnologias da
informação como estruturantes de uma nova proposta curricular para formação
de professores (ANEXOS 18a e 18b). Já o trabalho “Os meios
de comunicação: um problema para a educação a distância” foi publicado e
obteve contribuições importantes, durante a sua apresentação no XXV CONGRESSO
BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO organizado pela SOCIEDADE BRASILEIRA DE
ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DA COMUNICAÇÃO (INTERCOM), que ocorreu no ano de
2002, em Salvador/BA. Neste fórum o trabalho apresentado procurou dialogar
sobre as implicações para as práticas educativas na EAD diante da vigência do
paradigma comunicacional centrado na lógica de distribuição/recepção de
informações e da ampliação das tensões provocadas pela presença de novos
meios de comunicação, os quais caminham junto com a emergência de novos
paradigmas relacionados com a disposição, cada vez maior, de cada
sujeito/comunidade em produzir e expressar conhecimento, uma disposição por
mais interatividade (ANEXOS 19a e 19b). No FÓRUM MUNDIAL DE EDUCAÇÃO,
em outubro de 2001, na cidade de Porto Alegre/RS apresentei o trabalho “Tecnologias:
um problema para a Educação a Distância” (ANEXOS 20a e 20b). A ênfase do
texto era a discussão sobre o uso das tecnologias na educação como uma
questão de decisão política que está voltada para a criação de condições de
exercício do direito humano à educação e à informação. Ter participado
do Fórum, provocou uma grande ebulição na minha itinerância acadêmica pelo
impacto que me causou ver uma organização tão avançada em termos da discussão
sobre a cidadania planetária, na qual a convivência entre as
diferentes culturas está baseada no respeito mútuo e na dignidade humana,
anulando a idéia de um falso universalismo uniformizante que faz da
diferença motivo de inferiorização ou que em nome da igualdade descaracteriza
as diferenças.[5] Nessa oportunidade, ter
vivenciado a ressonância de idéias em um contexto tão amadurecido foi
emocionante. Este fórum é, exatamente, oriundo das reuniões do FÓRUM SOCIAL
MUNDIAL, o principal movimento atual de estruturação das sociedades que vem
fazendo crescer a reação crítico-propositiva em relação ao processo de
globalização econômica e seu caráter excludente e inexorável. Foi importante
poder amadurecer a concepção de que a produção de conhecimento que é feita na
universidade precisa provocar novas atitudes diante da realidade, fazer com
que os sujeitos envolvidos nessa produção passem do estado de inércia diante
das injustiças sociais e, verdadeiramente, tomem partido em prol de um
mundo melhor. As principais palavras de ordem do Fórum traduzem a lição
que ficou marcada com essa participação é que uma outra educação é
possível, um outro mundo é possível. Tenho trabalhos publicados
também em três diferentes livros. Fui convidada para contribuir com o livro
organizado pelo prof. Dr. Otton Jambeiro[6],
juntamente com meu orientador de mestrado, prof. Nelson Pretto, para o qual
produzimos o capítulo “(Re) pensando a avaliação em EAD”. Outros dois
livros organizados por Lynn Alves e Cristiane Nóvoa receberam minhas
contribuições com os capítulos “Para que avaliar na educação a distância” [7]
e “Os meios de comunicação: um problema para a EAD”[8],
sendo este último fruto do trabalho apresentado no INTERCOM (ANEXOS 21, 22 e
23). Essas publicações e
participações em diferentes fóruns políticos e científicos de discussão têm
caracterizado a busca contínua pela colaboração e amadurecimento. Nesse
sentido, a minha integração aos diferentes canais de comunicação disponíveis
tem sido um elemento chave para as produções individuais, tanto pelas
contribuições diretas que meu trabalho tem recebido nesses fóruns quanto
pelas contribuições indiretas, que eu classificaria como a própria segurança
e autonomia que advém da postura de explicitar as idéias, procurando submeter
a própria produção aos olhos do coletivo pensante da área educacional e
outras áreas afins. Uma itinerância entrecruzada: pessoas e tecnologiasTodo o processo de produção
de idéias durante o curso de mestrado esteve sempre aberto à vivência da
contemporaneidade na sua plenitude. Estar “antenada” com os acontecimentos,
conversar com as pessoas, interagir através dos diferentes meios de
comunicação, assistir TV com os filhos e assistir as sessões de cinema,
participar de reuniões científicas, futucar câmeras fotográficas,
gravar vídeo, construir conteúdo para a Internet. Faz parte dessa itinerância
a participação nas atividades didáticas do Curso de Mestrado, a participação
nas atividades que o GEC assumia, como foi o caso da Biblioteca Virtual de
Educação a Distância (Prossiga/CNPq) – BVEAD, o Canal Interno de Televisão da
FACED – ÉduCANAL, o Projeto CONEXÕES, as Oficinas de Vídeo e Internet e o
Curso Ensinar & Aprender: Caminhos Metodológicos e Mapas de Navegação. As disciplinas cursadas
como parte do currículo do Curso de Mestrado em Educação, por diferentes
razões, deram uma grande contribuição para a minha formação (ANEXO 24). A
memória das discussões travadas no interior das salas de aula instiga a
continuidade do processo de análise das tão intrincadas realidades da
educação. De modo articulado ao debate de conceitos e da troca de informações
estava o exercício de posturas diferenciadas nas salas de aula. As discussões
sobre os diferentes objetos de pesquisa, as dúvidas sobre questões
metodológicas, as intervenções dos professores iam somando força a cada
projeto de pesquisa dos mestrandos e doutorandos. Para além das atividades
didáticas era possível encontrar a disposição permanente para o diálogo e a
habilidade apresentada pelos professores do Programa de Pós-Graduação em
provocar reflexões de modo permante sobre o objeto de pesquisa e sobre as
questões teórico-metodológicas. Essas mesmas características se evidenciaram
durante a realização de disciplinas que tinham como interlocutores os
professores de outros programas de pós-graduação na própria UFBA, como foi o
caso do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FACOM – Faculdade de
Comunicação. A minha integração a equipe
da BVEAD acabou intensificando o processo de busca, articulação e produção de
informações e conhecimento sobre o tema, através da Internet. Além de
direcionar todo o trabalho de pesquisa realizado na rede para a alimentação
de dados da BVEAD, o fato de estar em contato permanente com a estética e a
lógica dos conteúdos apresentados na Internet favoreceu o desenvolvimento da
habilidade em criar páginas de conteúdo pessoal, com finalidades
acadêmico-científicas. Desse modo, foi desenvolvido o site pessoal hospedado
no provedor da própria UFBA. Nesse espaço virtual, que vem sendo integrado a
várias possibilidades interativas, desenvolvo a minha autoria e busco
compartilhar idéias. Lá publico informações, textos, sons, imagens e “links”
que servem como ponto de articulação com outros conteúdos de interesse,
encontrados na própria rede (ANEXO 25). As atividades realizadas
junto ao ÉduCANAL, têm sentido como parte da minha formação para o mundo de
imagem e informações que está a nossa volta. Conviver nesse ambiente, que tem
ampliado o acesso aos meios de produção de informação em diferentes
linguagens repercute em toda uma estrutura cognitiva em processo de
desenvolvimento. Ao envolver-me com o ÉduCANAL, passei a incorporar,
naturalmente, as possibilidades de expressão para além da oralidade e da
escrita, passei a pensar e elaborar discursos com imagens, usando as
diferentes linguagens hoje disponíveis no nosso cotidiano para expressar
idéias e provocar o diálogo. Os estímulos da FACED não pararam por aí. A cada
novo sinal de iniciativas sobre a questão a FACED se faz presente, em
especial através do GEC, para efetivar a sua participação, como foi o caso da
implantação da TV UFBA que, em articulação com outras universidades baianas,
compõe o primeiro canal universitário da Bahia, e como ocorre mais
recentemente com as discussões sobre TV digital. Um outro conjunto de
atividades com uma forte implicação na realização do mestrado, foi a
participação na gênese do Projeto Conexões, tanto através das
reuniões e quanto de sua lista de discussão. O objetivo desse
projeto/movimento vem sendo promover a apropriação da rede Internet e dos
recursos de comunicação com a implantação da infra-estrutura de telecentros
que operam a partir de uma concepção não instrumental das tecnologias da
comunicação e informação. Desse modo, pretende articular diferentes
associações comunitárias, organizações não-governamentais, escolas públicas,
professores em serviço e em formação na UFBA, além de agentes de diversas comunidades
dentro de uma nova lógica comunicacional que explora as mudanças nos modos de
agir, pensar e ser possibilitadas por essas tecnologias. As Oficinas de Vídeo e
Internet oferecidas pelo GEC aos professores do Movimento dos Sem-Terra
e aos professores do Programa de Alfabetização Solidária se traduziram
em momentos de troca de saberes e ampliaram o entendimento sobre a
importância de que sejam dadas oportunidades para que os professores se
aproximem das tecnologias como agentes da produção de conhecimento e
expressão de idéias. O diferencial que está sendo apresentado na
contemporaneidade quanto à inclusão dos sujeitos sociais passa pela discussão
sobre a necessária descentralização dos meios de produção e circulação da
informação, no entanto a apropriação a ser realizada é relativa ao nível de
conhecimento construído nos diferentes grupos, até mesmo para explorar as
diferentes possibilidades que já fazem parte da realidade atual. O papel da formação de
professores, nesse sentido, é fundamental. Partindo desse reconhecimento o
GEC tem procurado desenvolver ações experimentais que procurem problematizar
a formação de professores, indo além da mera crítica a modelos tradicionais
já estabelecidos. Nesse contexto se insere, por exemplo, o Curso Ensinar
& Aprender: Caminhos Metodológicos e Mapas de Navegação, com uma
estrutura curricular inovadora, hipertextual. Este foi um curso oferecido por
profissionais da FACED/UFBA aos professores do Centro Federal de Educação
Tecnológica da Bahia – CEFET/BA, que aliava as aulas presenciais com a
comunicação via rede internet (ANEXO 26). As etapas de planejamento,
desenvolvimento e avaliação desse curso foram pensadas dentro de uma
perspectiva não-linear da educação, buscando evidenciar a necessidade
de práticas pedagógicas que têm como princípios os conceitos de descentralização,
horizontalidade e participação, elementos fundantes do processo de
produção de conhecimento em rede e de formação dos sujeitos na
contemporaneidade. No período do curso, com o processo de consultas públicas
após o lançamento do Livro Verde[9]
do Programa Sociedade da Informação pelo Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT), teve lugar a realização de debates locais, inclusive com a organização
de uma sessão de consulta pública do MCT envolvendo toda a comunidade baiana.
Os resultados dessa consulta pública foram ainda mais ampliados com a
disponibilização dos dados na Internet.[10]
Os desafios de (com) partilhar idéiasFaz parte do turbilhão de
acontecimentos vivenciados no período do curso de mestrado em educação a
realização de inúmeras atividades formais e informais nas quais pude
compartilhar as idéias que vinha elaborando durante o processo de produção da
dissertação. A cada oportunidade para falar sobre o que estava pesquisando,
era possível me surpreender repensando aspectos relacionados com a
dissertação ou com o campo de atuação enquanto professora-sujeito da
contemporaneidade, escrevendo textos reflexivos e alterando minha forma de
perceber o mundo a minha volta. Certamente, os principais
momentos desse tipo aconteceram durante as aulas de Didática na FACED,
dirigida aos estudantes dos diferentes cursos de licenciatura da UFBA,
durante a vigência do contrato de trabalho como professora substituta. Esse
contrato teve duração de dois anos, iniciados após o término do 2o.
ano de vigência da Bolsa de Demanda Social da CAPES para a realização do
mestrado. Por um lado eu estava
mergulhada em estudos de mestrado que apontavam para a insuficiência das
relações vivenciadas em espaços tradicionais de aprendizagem diante da
disposição, cada vez maior dos sujeitos, para estar interconectados com o
mundo, procurando envolver-se em processos ativos de produção de sentido para
a vida e para a sua formação. Por outro lado, durante as aulas de Didática na
FACED, os professores em formação relacionavam os conteúdos
programados na disciplina com a sua experiência de escolarização,
principalmente dentro da própria universidade, bem como articulavam o que
estavam estudando com observações sobre a sua atuação profissional, no caso
daqueles que estavam em pleno exercício da função docente em instituições da
educação básica ou outros espaços educativos. Era o momento de lavar a
roupa suja e pensar em recomendações: “os professores lá do meu curso
deveriam estudar Didática!”. Ouvi muitos relatos dos estudantes sobre as
condições que limitavam sua formação na universidade. Freqüentemente, eram
estabelecidas comparações entre os conteúdos abordados na disciplina e as
relações pedagógicas vivenciadas no cotidiano das diferentes licenciaturas.
Os depoimentos surpreendiam idéias preconcebidas sobre a necessária ambiência
para a formação de sujeitos em cada área de conhecimento. Os estudantes do
Curso de Filosofia relatavam seu receio em expor e discutir idéias próprias,
eles tinham medo de filosofar, uma vez que eram veementemente impedidos pelos
seus professores de expressar opiniões, eram levados a reproduzir a interpretação
correta do pensamento de autores clássicos, sendo esta interpretação a
que fora produzida pelo próprio professor (sic!). Presenciei desabafos
emocionados de estudantes do Curso de Dança que se sentiam excluídos da
possibilidade de aprender e de explorar os movimentos de seu próprio corpo,
diante dos padrões de exigência impostos por seus professores. Muitas vezes,
fiquei sem resposta para os questionamentos de estudantes dos Cursos de
Química ou Física sobre o papel da errância[11]
no processo de produção do conhecimento, no cotidiano do ensinar e aprender
no ensino básico, quando explicitavam o quanto eles vinham sendo
condicionados a excluir o erro como possibilidade de investigação e
descoberta, dentro das próprias salas de aula de seus institutos de origem
onde aprendiam a ser professor. Em que pese a compreensão sobre a formação do professor como um processo não encerrado no interior das paredes da FACED, muito menos na sala de aula, o trabalho na disciplina amadurecia no sentido de considerar que estava trabalhando junto com professores em pleno processo de formação, mesmo quando os estudantes não estavam em efetivo exercício docente. Essa concepção implicava em deixar de lado a imagem da sala de aula de Didática como uma grande incubadora da qual sairia, mais tarde, uma população de professores pronta para resolver os desafios postos nos diferentes contextos de atuação. Para o processo de formação que estava ocorrendo naquele espaço era inadiável desencadear uma experiência significativa ali mesmo, no interior desta sala de aula. Não só os conteúdos deveriam estar postos no sentido de provocar a crítica ao processo de ensino, mas os procedimentos desenvolvidos e os valores que se manifestavam em sala precisavam estar sintonizados com a proposta de transformação dos modos de ser e estar na escola e nos diferentes espaços de aprendizagem. Assim, mais que apresentar lições a serem assimiladas pelos estudantes, para que estas fossem aplicadas por eles no futuro, a vivência das relações pedagógicas no momento em que elas aconteciam era um aspecto explorado em toda a potencialidade de seu caráter formativo. Esta experiência afetou a
pesquisa de mestrado em curso, que mesmo não mudando de objeto, chegou a
observar alguns aspectos relacionados ao modo como os professores
(orientadores) atuavam nas telessalas do Telecurso 2000, os sentidos
produzidos diante da tarefa de integrar um programa com características
específicas de EAD, o nível de reflexão acumulada em seus percursos de
formação ou em andamento no seu exercício profissional acerca do processo de
ensino mediado diretamente por tecnologias, no qual estavam envolvidos. Outras oportunidades para
discutir o processo de ensino na contemporaneidade foram ocorrendo em outras
disciplinas que participei como docente (Educação a Distância e Educação
e Tecnologias Contemporâneas). Além disso, outras oportunidades de
discussão se fizeram presentes, de modo não seqüenciado, durante a realização
de palestras e cursos de curta duração dirigidos a diferentes públicos. Foi o
caso do Curso de Capacitação Tecnológica para Professores, dirigido a
docentes de diversas áreas do ensino superior, ministrado na FAFICH, em
Tocantins; o Curso Ensinar & aprender: caminhos metodológicos e mapas de
navegações, dirigido aos docentes do CEFET, na Bahia; a palestra Formação de
Professor na Contemporaneidade, dirigida a estudantes da Faculdade Jorge
Amado; a palestra “Excluídos pelo Uso de Novas Tecnologias” e a
palestra “Profissão: Professor, professora”, dirigidas a
comunidade de professores em exercício e estudantes universitários do
Município de Irecê; a palestra Novos modos de ensinar e aprender,
dirigida aos professores do SESC/SENAI; a palestra “Tecnologias
Educacionais” apresentada no ENCONTRO DE INTERESSADOS NA ÁREA DA
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO, organizado pela INFORUM Consultoria; o Painel
“Educação a distância: Presente!”, apresentado junto com outros membros
do GEC, dirigido a professores do Instituto Municipal de Educação José
Arapiraca – IMEJA (ANEXOS 27, 28, 29). Ter acompanhado a
elaboração monografias em cursos de especialização, bem como a produção de
trabalhos de conclusão de curso de graduação foi experiência igualmente
significativa no sentido de pensar junto com outros pesquisadores, de poder
realizar trocas de idéias e contribuir para a formação de outros
professores-autores. Nesse sentido, é necessário registrar sessões de orientação
e da defesa das monografias intituladas “Educação a Distancia como
Instrumento do Processo Ensino-Aprendizagem”, produzida por Ane Clene
Araruna (Especialização/UNEB), “Educação e as novas tecnologias da
comunicação e informação”, de autoria de Cristiane Dourado
(graduação/UFBA) e “Educação na Ponta dos Dedos: as novas tecnologias”,
elaborada por Jane Célia Carvalho (graduação/UFBA). Acrescente-se aí a
participação em bancas examinadoras de trabalhos monográficos como “Educação
de Jovens e Adultos: uma experiência com o Telecurso 2000”, elaborado por
Patrícia da Silva Araújo (graduação/UFBA), o trabalho intitulado “Informática
e Formação de Professores: um olhar crítico sobre o contexto educacional”,
apresentado por Maria Augusta da Silva Moura e o trabalho “A Inclusão
Digital do Professor na Escola Comendador Bernardo Martins Catharino”,
elaborado por Luciene Corrêa. A minha responsabilidade em
ampliar o debate sobre as questões investigadas tem sido contemplada com
algumas oportunidades de diálogo com a comunidade em geral, em oportunidades
de participação em matérias de jornais impressos, programas de rádio e
televisão. Dentro disso, é possível citar as matérias “Pesquisa mostra
fragilidades do ensino a distância no país”, do Jornal Correio da Bahia,
Sessão: Repórter, edição de 14 de abril de 2002 e “Inocência da Criança é
violentada pela TV” do Jornal A Tarde publicado em 23 de setembro de 2001
(ANEXOS 30, 31). Tive uma participação no Programa da Rádio Metrópole, acerca
da qualidade, vantagens e desvantagens dos cursos a distancias, em 07 de
julho de 2002. Fui convidada a participar do Programa TV em Revista, da TVE,
numa entrevista sobre os vínculos entre Televisão e Educação, no dia 08 de
novembro de 2003. Ainda mantenho um site na Internet que disponibiliza
conteúdos relativos a minha produção acadêmica e vida profissional, entre
outros, bem como tenho criado e/ou integrado comunidades virtuais,
principalmente através de listas de discussão.[12]
Diante dessas oportunidades para compartilhar idéias, o processo de reflexão sobre os vínculos entre a educação e o mundo da comunicação se deu de modo dinâmico e instigante. A formulação de novas questões foi intensificada logo após a conclusão e apresentação da dissertação de mestrado. Era crescente o estado de inquietação que, no fundo, busca compreender a dinâmica dos processos de ensino-aprendizagem no contexto atual, marcados pela presença de novas formas de comunicação, interação e relação com o conhecimento. Nos últimos semestres como
professora substituta e nas inúmeras oportunidades de divulgação da
dissertação, a convivência com pesquisadores, professores em exercício e com
estudantes das várias licenciaturas da UFBA passou a repercutir mais
intensamente em minhas reflexões acerca das condições que vinham sendo
oferecidas pelas universidades para a formação dos professores na
contemporaneidade. Mais tarde, essas reflexões viriam dar origem a proposta
de investigação a ser desenvolvida no Curso de Doutorado em Educação. Doutorado em EducaçãoO ingresso no Doutorado em
Educação pode ser interpretado como consequência das pesquisas desenvolvidas
durante o mestrado, em que pese a incorporação da pesquisa como postura
diante da realidade, uma atitude que amadureceu em concomitância entre a
formação em nível de pós-graduação e a realização do trabalho docente no
ensino superior. Desse modo, no curso de doutorado que realizo vem ampliando
as questões formuladas no final da dissertação, quais sejam: o esgotamento da
perspectiva de universalização do acesso e atendimento continuado à educação
nos diferentes níveis como solução rápida e econômica baseada no uso
instrumental das tecnologias da informação e comunicação, predominante nas
experiências brasileiras de educação a distância; a necessária
ressignificação e democratização dos processos formativos na
contemporaneidade que considere o
caráter estruturante das mesmas tecnologias, que vem provocando transformações
nas diferentes formas de relação social, econômica, política e cultural; a
dinâmica da universidade públicas desafiada a oferecer novas condições de
construção de conhecimento para os sujeitos da cultura, em especial para os
professores em formação que integram as práticas educativas contemporâneas. Nessa etapa de finalização
da dissertação, me envolvia com dois grandes campos de atividade: o exercício
da função de professora auxiliar, no Campus XVI da Universidade do Estado da
Bahia (UNEB) situado no Município de Irecê, em suas múltiplas implicações
(atividades didáticas, orientação de monitoria de ensino, coordenação de
projeto, atividades administrativas, organização de eventos de divulgação
científica, movimento docente) e a integração na equipe de elaboração e
desenvolvimento do Programa de Formação de Professores em Nível Superior,
composta por membros da FACED e da Prefeitura daquele Município. A
articulação entre esses e outros campos no plano teórico e prático vem dando
sentido ao projeto de pesquisa intitulado “PROFESSOR NA REDE: desafios das
universidades públicas para a formação de professores da educação básica na
contemporaneidade”, com o qual fui selecionada para ingressar no Curso de
Doutorado do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação da UFBA, em
2001. A emergência do objeto de pesquisaAs constatações acerca da
insuficiência do modelo predominante de EAD baseada na educação em massa,
conclusão da dissertação defendida no mestrado realizado, estavam ligadas a
discussão da necessária superação do modo como as tecnologias da informação e
comunicação estavam sendo apropriadas pelas práticas educativas. A concepção
instrumental das tecnologias reduzia as possibilidades de compreensão,
produção e uso destas tecnologias como fatores estruturantes de novos modos
de compreender o mundo, de viver a realidade, de desenvolver o processo de
ensino-aprendizagem. A vigência dessa concepção constatada na experiência
examinada, assim como a explicitação não existência de neutralidade nessa
opção de uso das tecnologias, tornaram-se evidentes uma vez que a pretensão,
longe de uma educação democrática e integral dos sujeitos, estava centrada em
desencadear um processo de ensino voltado para a formação no nível da
educação básica que pudesse atingir um grande número de pessoas, de modo
rápido, abrangente e econômico. Este problema revelou
dimensões ainda mais complexas quando a concepção instrumental das
tecnologias tornava-se presente entre os sujeitos mais diretamente envolvidos
com a prática de EAD. Durante o mestrado, me voltei para a problematização do
sentido que vem sendo dado ao papel do educador na EAD. A fragmentação do
trabalho, no modelo observado, tornava crônica a tendência sofrida pelos
professores de submissão às determinações absolutamente externas sobre a
organização de seu trabalho, ainda que esse tipo de curso tenha sido
projetado por equipes de especialistas em educação e técnicos da área de
comunicação. Dentro dessa concepção cabe ao educador envolvido com a produção
de material didático, apenas fornecer conteúdos que são adaptados para a
linguagem própria da tecnologia que estiver sendo usada, como se não houvesse
uma relação intrínseca entre os conteúdos e a forma como eles são
apresentados. O total desconhecimento do
professor que se encontrava no cotidiano do processo de ensino-aprendizagem
sobre as diferentes linguagens que constituem a experiência comunicacional
contemporânea parece comprometer um possível trabalho integrado entre os
diferentes profissionais, inviabilizando as possibilidades de diálogo e intervenção
criativa, tanto no contexto da produção como no desenvolvimento – que tem
como desdobramento a integração dos professores que operacionalizam a
recepção local dos conteúdos transmitidos – e na avaliação do processo de
educação a distância. Apesar do conhecimento já acumulado na nossa sociedade sobre os problemas da incorporação instrumental das tecnologias, é possível deduzir-se que esta perspectiva de uso poderá vir a ser a base para a expansão do nível superior de ensino. Uma rápida observação sobre o contexto educacional mais amplo demonstra que as instituições de nível superior estão sendo pressionadas a democratizar o seu acesso e, em que pese a discussão já desencadeada sobre uma necessária reforma universitária, a perspectiva de implantação de redes de ensino superior a distância é uma realidade. Ao ser lançada a discussão sobre o uso da EAD como uma das principais soluções para a expansão do acesso ao ensino superior, é necessário estar atento à prevalência de uma perspectiva de educação em massa dirigida, nesse caso, para uma mera ampliação quantitativa de diplomados em nível superior. Esse debate é integrado ao
conjunto das questões as quais busco resposta, isto porque é possível deduzir
que a necessidade de expansão generalizada do ensino superior, dada a
evolução do sistema como um todo, tem um acréscimo significativo oriundo da
demanda específica de acesso ao nível superior dos professores em exercício.
Essa especificidade foi inaugurada pelo grande contingente de professores da
educação básica, em exercício, sem formação nesse nível de ensino e que, com
a aprovação da LDB, tomam a questão obtenção do diploma de nível superior
como uma exigência a ser cumprida emergencialmente. Isso orienta as
iniciativas do ensino superior a distância para a perspectiva de atendimento
emergencial de formação de grandes contingente, para a oferta massificada de
cursos de formação de professores em serviço. Particularmente, o fato de
estar lidando com professores em exercício, na docência no ensino superior,
nos projetos de formação desenvolvidos na FACED e de estar tendo acesso às
notícias sobre os problemas da profissão docente, correntemente, provocava a
minha inquietação diante do verdadeiro pânico instalado no país, decorrente
da circulação de informações truncadas sobre as determinações legais para a
formação destes professores em nível superior. A agilidade acionada pelo
Conselho Nacional de Educação – CNE para a criação de instituições privadas
de ensino superior, notadamente os Institutos Superiores de Educação (tipo de
instituição surgida com o advento da LDB de 1996 para a formação de
professores), não foi acionada a tempo de elucidar as ambigüidades da LDB e
evitar que milhares de professores brasileiros iniciassem uma verdadeira
corrida pela rápida obtenção de um diploma. Além disso, a minha
inserção no mundo acadêmico me faz questionar qualquer iniciativa de formação
de professores que não considere a necessária complexidade da ação de educar
na contemporaneidade. Isso significa que parece ser insuficiente limitar a
resposta das universidades a uma adaptação relativa às metas determinadas
legalmente, para a diplomação apressada dos professores em nível superior
(guardando-se ressalvas quanto aos prazos feitas, recentemente, pelo CNE,
dadas as ambigüidades reconhecidas sobre a matéria). É fundamental garantir a
manutenção da universidade como um espaço de formação de professores
comprometido com a sociedade e com a educação como um todo. Isto aponta para
uma ampliação da reflexão sobre o modo como as universidades formam os
professores, para além do simples atendimento emergencial que tem como
consequência uma formação aligeirada e que vê seu compromisso interrompido
com ao final da entrega dos diplomas, sem que haja necessidade de uma transformação
estrutural dessas instituições e do modo como usam as tecnologias da
informação e comunicação. No fundo, a discussão sobre
a expansão e democratização do acesso ao ensino superior, do ponto de vista
de sua capacidade de atendimento, envolve outros problemas que se somam ao
aumento quantitativo de vagas para ingresso e que requerem ser analisados de
modo contextualizado, como, por exemplo, a questão da redução do tempo de
formação e da diversificação dos tipos de instituição. Então, abordar a
questão do ensino superior a distância, quando este se volta para a formação
de professores, significa repensar as bases da universidade e seu compromisso
com a sociedade na qual se encontra. Por estas razões, tomei
como objeto de investigação o modo como as universidades públicas
brasileiras se reorganizam diante da demanda de formação em nível superior de
professores que atuam no nível básico do sistema educacional e diante da
perspectiva, então convergente, de expansão do ensino superior a distância.
Com isso, a pesquisa pretende avaliar o panorama atual de experiências desenvolvidas por universidades
públicas brasileiras no âmbito da formação em nível superior dos professores
em exercício; discutir os modos de concepção, produção e uso de tecnologias
da informação e comunicação nas ações desenvolvidas nesse âmbito; analisar o
nível de articulação das políticas públicas nacionais com implicação nesse
contexto; verificar as condições técnicas e projetos políticos de
universidades públicas voltados para a produção e circulação de informação e
conhecimento; discutir diferentes perspectivas de ampliação da inserção das
universidades públicas na formação de professores através do uso de
tecnologias, inclusive em nível de pós-graduação. Para atingir tais objetivos a pesquisa envolve, enquanto procedimentos, a realização de mapeamentos da experiência de universidades públicas brasileiras, em termos de ações de formação de professores em exercício, procurando levantar dados sobre tempo de atuação da instituição, resultados alcançados, princípios de formação e processo de elaboração de projeto de formação, formas de operacionalização, formas de financiamento, condições de ingresso dos professores da educação básica, condições de estudo, montagem e dinâmica de trabalho do corpo docente, formas de avaliação, articulações da ação de formação em nível superior com a educação básica. Está prevista, também, a observação direta das atividades desenvolvidas nos programas e ações de formação de professores, visitas às instituições, a análise de documentos e de políticas públicas. Em cada experiência selecionada serão investigados os sentidos da formação desenvolvida, quais os significados construídos por diferentes sujeitos, em especial, construídos pelos próprios professores em formação, o sentido de fazer universidade, a configuração do contexto escolar antes da formação, durante e após este processo, as condições de acesso e permanência dos professores no ensino superior, o modo como as universidades estão inseridas na chamada cultura tecnológica, no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão, entre outras questões apontadas no projeto de pesquisa. A conclusão da pesquisa e defesa da tese de doutorado está prevista para o ano 2005. A pesquisa na vidaO projeto de pesquisa “PROFESSOR
NA REDE...”, está enraizado no centro de minhas reflexões e práticas,
ligando-se aos dois principais campos de minha atuação no contexto do ensino
superior na Bahia, seja como professora no Campus XVI da UNEB, localizada na
cidade de Irecê, seja como membro da equipe de elaboração e desenvolvimento
do programa de formação de professores em nível superior, realizado pela
FACED junto a Prefeitura Municipal de Irecê. A dinâmica do trabalho
docente que venho desenvolvendo como professora na UNEB tem como ponto
central as atividades didáticas no curso de graduação em Pedagogia e na
Pós-Graduação em nível de especialização oferecida no Campus XVI da UNEB em
Metodologia do Ensino Superior. Na graduação dei continuidade a proposta do
ensino de Didática iniciada na experiência como professora da UFBA e passei a
assumir outras disciplinas, dada a carência de professores habilitados no
Departamento, a exemplo das disciplinas Ensaio Monográfico, Seminário
Monográfico, Metodologia da Pesquisa em Educação, Metodologia do Trabalho
Científico, Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental. Ainda na
graduação desenvolvi uma experiência interessante com a orientação de uma
monitora de ensino, uma estudante que acompanhava e auxiliava a organização
da disciplina, as aulas e as atividades de avaliação. Na Pós-Graduação , latu
sensu, trabalhei com a disciplina Novas Tecnologias e Educação e assumi a
orientação de monografias, quando tive a oportunidade de conhecer diferentes
interesses de profissionais graduados em áreas fora das licenciaturas. Nessa dinâmica de trabalho
se insere a coordenação do Projeto de Implementação do Núcleo de Pesquisa e
Extensão (ANEXO 32), projeto da área de Ciências Humanas selecionado para
financiamento pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB).
Nesse projeto proponho a instalação de infra-estrutura de apoio à pesquisa e
atividades de extensão no Campus XVI da UNEB, o que envolve a montagem de
espaços de acesso à Internet, gabinetes individualizados de estudo, salas de web-conferência,
salas de projeção de multimídia, montagem de acervo de livros, vídeos, DVD’s
e CD’s, cooperação na montagem da rádio universitária e do Centro de Cultura
e Artes – CUCA (junto ao Diretório Acadêmico de Pedagogia), núcleo de apoio
técnico e logístico para a realização de eventos e de programas de pesquisa e
extensão, de iniciação científica e de qualificação/produtividade dos
docentes do Departamento. Essa proposta nasceu do entendimento de que a
melhoria das condições de pesquisa e produção local de informação e
conhecimento precisa superar as dificuldades generalizadas, comuns em regiões
afastadas dos quase sempre privilegiados centros de excelência. No
contexto do Campus XVI de Irecê, a implantação do NUPE é uma condição
estruturante de mudanças efetivas no desenvolvimento da pesquisa, da formação
permanente de professores e do avanço do conhecimento e desenvolvimento
regional. As atividades relacionadas
com questões administrativas decorrentes do trabalho que realizo têm
provocado a ampliação de meus conhecimentos sobre a organização geral da
universidade, uma vez que têm como base a consulta e assimilação de
informações organizadas no estatuto, regimentos e demais dispositivos
administrativos da instituição. Isso se dá, principalmente através dos
desafios postos na função de Coordenadora do Projeto de Implantação do Núcleo
de Pesquisa e Extensão (NUPE), de membro da Comissão de Reformulação
Curricular de Pedagogia, membro da Comissão de Organização da Jornada
Pedagógica, membro da Comissão de Organização do I Seminário de Pesquisa e
Extensão do Campus XVI, membro da Comissão de Discussão e Avaliação dos
Cursos de Pós Graduação (ANEXOS 33, 34, 35 e 36). O conhecimento adquirido no
exercício dessas funções é uma base importante para a compreensão da universidade,
em sua estrutura e modo de funcionamento, bem como para entender e utilizar
as diferentes formas de participação nos espaços de decisão, tanto no
interior do departamento quanto na universidade como um todo, fazendo valer a
perspectiva da importância do envolvimento do professor de modo autônomo,
para além das atividades didáticas, como um dos responsáveis pelas dinâmicas
internas da instituição e pela construção e execução de seu projeto
político-pedagógico.[13] A consciência de que essa
participação não é neutra e de que no próprio interior da instituição
convivem diferentes projetos de universidade, instiga a minha
crescente participação no movimento docente organizado, através da Associação
de Docentes da Universidade do Estado da Bahia (ADUNEB). Dentro desse
movimento torna-se possível o debate sobre temas como as condições de
trabalho da categoria, os projetos políticos para o ensino superior no
Estado, o significado da universidade pública e democrática no contexto
local, bem como a relação entre universidade e sociedade. A participação no
movimento docente tem evidenciado o quanto a organização entre pares tem um
caráter pedagógico. Esse envolvimento tem sido fundamental para a ampliação
de minha visão sobre o papel do professor no ensino superior, sua
responsabilidade e compromisso ético-político-social. Isso tem uma
repercussão direta e faz parte do processo de produção de sentido sobre todas
as outras atividades desenvolvidas no âmbito da profissão docente. Além
disso, essa atuação está totalmente vinculada aos meus interesses de pesquisa
no doutorado, uma vez que o estudo sobre as categorias básicas que estão
sendo mapeadas nesse trabalho (universidade, formação de professores,
tecnologias da informação e comunicação) vai além da apreensão teórica
tornando-as objetos constituintes da minha prática cotidiana (ANEXO
37). No período atual do curso
de doutorado, as atividades relacionadas com a inserção na comunidade
científica vêm sendo continuadas, com apoio da UNEB para a participação em
eventos de projeção nacional. Como já foi citada, a participação na 26a.
Reunião Anual da ANPED com a publicação do artigo intitulado “Educação
Superior para Professores em Exercício: Formando ou Improvisando?” tornou público uma das primeiras produções
elaboradas em torno do objeto de pesquisa do curso de doutorado. Nesse artigo
apresentei um mapeamento contendo os principais problemas apontados pela
discussão sobre a educação superior entre os professores em exercício do
sistema de educação básica, após a provação da LDB, em 1996. Nessa mesma linha de
estudo, dados especialmente referentes a ampliação da oferta de cursos a
distância dirigida a formação do professores, foram apresentados no trabalho
apresentado no II Congresso de Ensino Superior a Distância (ESUD), o qual
teve sua publicação realizada pela Universidade Virtual Pública do Brasil
(UNIREDE), sob o título “A democratização do acesso a EDUCAÇÃO SUPERIOR
através da formação de PROFESSORES”. Já havia participado do I ESUD, no
ano anterior. Este fórum de discussão especializada, que trata da discussão
de interesse para a pesquisa no doutorado, articulad-se com o contexto
nacional, pela representatividade de seus participantes e pela
respeitabilidade conquistada junto ao governo federal e governos estaduais e
municipais (ANEXO 38). A atuação no Município de
Irecê, na Bahia, como professora da UNEB, favoreceu minha inclusão como
membro da equipe de elaboração e desenvolvimento do Programa de Formação
Continuada de Professores para o Município de Irecê, realizado pela
FACED/UFBA junto a Prefeitura Municipal de Irecê. A partir de um processo de
construção integrada, o programa aponta para a formação de um professor que
se constitua num negociador permanente das diferenças, o que o diferencia do
tradicional papel de guardião e transmissor de conhecimentos. A educação
contemporânea precisa contar com profissionais que respondam à exigência da
construção e socialização de conhecimentos, habilidades e competências que
permitam sua própria inserção no cenário complexo do mundo, desempenhando a
tarefa de participar, como docente, pesquisador e gestor do processo de formação
de crianças, jovens e adultos. O que distingue esse programa é sua estrutura
curricular hipertextual, baseada no cruzamento entre eixos conceituais e uma
série de procedimentos curriculares que se baseiam na promoção da autonomia
do professor na definição dos caminhos a serem percorridos no curso, de
acordo com as necessidades identificadas no exercício de sua práxis
pedagógica. Após a fase de elaboração, participo do Programa nas funções de
coordenação de uma das equipes de orientadores, docência nas atividades
Oficina de Computação e Seminário de Produção Acadêmica e na orientação das
atividades de registro e produção dos professores cursistas.[14] De modo articulado a esses
dois campos de atuação, tendo mantido os vínculos com o GEC, como
pesquisadora e como aluna do doutorado da FACED, tenho participado de
discussões internas à UFBA sobre a postura da universidade diante das
tecnologias, como foi o caso do Workshop “A troca de experiências do
Ensino Superior a Distancia” organizado pelo Centro de Estudos
Interdisciplinares para o Setor Público (ISP), que teve a representação do
GEC com seus projetos. Participei do I Festival GNU/Linux de Salvador, organizado pelo Diretório Acadêmico de Computação (DACOMP) e o coletivo
e-Noise, que aconteceu nos dias 22 e 23 de novembro de 2003 no Campus Ondina
da UFBA, que
contou com a presença de professores da FACED e de outras instituições.
Eventos desse tipo apontam para uma relevante perspectiva de inserção da
universidade na chamada sociedade da informação[15]
a partir de uma postura definida em prol da democratização irrestrita ao
acesso a informação a baixo custo, numa lógica, não mercantilista, mas de
desenvolvimento político e cultural, o que se traduz em projetos a exemplo
dos Tabuleiros Digitais da FACED[16]. Como consequência da
compreensão sobre a necessária autoria a ser desenvolvida na atual sociedade
em rede, potencializada pelo acesso aos meios de produção de informação
proporcionado pelos ambientes nos quais circulo, continuo mantendo o site
pessoal e passei a disponibilizar um BLOG[17]
no qual procuro dar visibilidade às atividades cotidianas que realizo, em
especial para o acesso de alunos. Exemplo dessa prática foi a cobertura do
movimento de Greve dos Professores da UNEB, no período de outubro a dezembro
de 2003 (ANEXOS 39 e 40). Dentro dessa perspectiva de
diálogo propus à UNEB, FACED e Prefeitura de Irecê a criação de uma
publicação intitulada “Educação Re-vista”, um periódico voltado para a
reflexão contínua de temas relacionados com o cotidiano dos diferentes
espaços de aprendizagem, em especial do Município de Irecê e Microrregião, na
zona urbana ou rural. A revista, em fase de elaboração, pretende criar
condições para a publicação e debate de idéias, sendo distribuída
gratuitamente para professores da rede municipal de ensino de Irecê,
estudantes do Campus XVI/UNEB e estudantes da FACED. Com um estilo
crítico-reflexivo e um formato que associa texto impresso articulado a outros
suportes de comunicação e tem o seu próprio processo de concepção, elaboração
e distribuição como uma ação pedagógica, envolvendo estudantes e professores
das instituições envolvidas. As atividades didáticas,
científicas e políticas que compõem este fazer docente dentro e fora da
universidade são fundamentais para a continuidade de minha formação. Existe
um percurso metodológico a ser cumprido para o desenvolvimento do curso de
Doutorado em Educação que realizo. No entanto, seria uma contradição da
proposta investigativa, pelo teor de seu objeto de estudo, deixar de estar
presente e envolvida com a universidade e de buscar compreender a realidade
do ensino superior vivenciando, diretamente, suas possibilidades e
limitações. A vida continua...O envolvimento com as
demandas do GEC e outras atividades na FACED/UFBA ou na UNEB não têm cessado.
No contexto do ensino superior público na Bahia, vivendo intensamente
atividades ligadas ao ensino, a pesquisa e a extensão universitária, bem como
integrando atividades relacionadas com a organização e mobilização docente,
minha capacidade crítica e propositiva vem sendo, permanentemente,
desafiada. A esperança de alcançar uma escola, verdadeiramente, pública e
democrática é o combustível com que esses desafios são
enfrentados. E se essa esperança
parece ser uma grande utopia, concordo com Anísio Teixeira de que “[...] visionários
são os que julgam que se pode hoje formar uma nação pelo modo por que estamos
destruindo a nossa”[18].
Esse é o inquietante movimento de (trans)
formação pessoal e de atuação. Pleitear a vaga para a
Matéria Didática e Tecnologias Contemporâneas, na Classe de Professor
Assistente do Departamento de Educação II da FACED, em regime de Dedicação
Exclusiva, significa potencializar a itinerância relatada. Junto ao título
está presente o compromisso com a sociedade e com a educação, que aplicado à
realidade educacional baiana nos dias atuais atinge dimensões emergenciais,
dadas as implicações de séculos de descaso injusto e premeditado dirigido à
maior parte dos cidadãos. A intenção é cumprir esse compromisso através do
desenvolvimento das atividades acadêmicas no nível da graduação e
pós-graduação, com a disposição de tomar como eixo a atitude/ação da pesquisa
voltada para o espaço-tempo contemporâneo, no qual se destaca a importância
da articulação entre o processo de ensino-aprendizagem e as tecnologias da
informação e comunicação. A competência necessária para realizar tal
intento vem sendo construída, coletivamente e de modo contextualizado, ao
longo de minha formação e atuação.[19] Os acontecimentos que vêm
marcando essa itinerância, que tem na FACED um de seus principais cenários,
têm um valor inestimável no meu processo de formação e atuação. Nesse
memorial, a tentativa de demarcar momentos nesse percurso, baseados nas
etapas formais do processo de formação (graduação, mestrado e doutorado), tem
a finalidade única de ressaltar aspectos que deveriam ser postos sob análise.
Contudo, os acontecimentos narrados estão, de fato, costurados de modo
complexo, sendo impossível passar ao texto escrito a força de cada nó
e a multidirecionalidade de cada segmento dessa rede de experiências,
idéias e sentimentos. Desse modo, esse memorial buscou apresentar um
conjunto de fatos e reflexões com o objetivo de tecer uma análise sobre o
processo de formação e produção percorrida até o presente momento. Nesse
processo é que vem sendo desenvolvida a familiaridade com a pesquisa, desde a
Iniciação científica até o momento. Nessa trajetória, vem sendo conquistada a
clareza, em especial pelo exercício docente que realizo, de que o ensino numa
perspectiva plena não pode estar dissociado da pesquisa, enfim da produção de
conhecimento científico. Esses são os fundamentos implícitos na memória dos
fatos vivenciados, que partem dos primórdios de minha relação com o mundo,
começando pela família e primeiros passos da minha vida escolar e irrompe
durante a iniciação no mundo acadêmico e científico, em especial nas
oportunidades decorrentes dos estudos de pós-graduação. Além disso, na
prolixidade desse texto está a tentativa de expressar a alegria de sentir-me
em meio a um processo dinâmico, instável, rico de possibilidades. É também a
alegria do sentimento de estar acompanhada, de ter compartilhado sonhos, de
ter realizado desejos e de ter tranqüilidade e vontade necessárias para
continuar a viver novas histórias junto com outros sujeitos. |
[1] TEIXEIRA, Anísio. A Escola Parque da Bahia. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.47, n.106, abr./jun. 1967. p.246-253.
[2] PICANÇO, Iracy Silva. As Escolas Técnicas No Norte e Nordeste do Brasil. Em Aberto. BRASILIA, DF: v.15, n.65, p.03 - 04, 1995.
[3] A inteligência coletiva é um dos principais propulsores da cultura cibernética que encontra no especo virtual da Internet um dispositivo de comunicação interativo e comunitário. Ela é caracterizada pela ação conjunta entre competências, recursos e projetos, a constituição e a manutenção dinâmica de memórias comuns, a ativação de modos de cooperação ágeis e transversais, a distribuição coordenada dos centros de decisão e de poder. LÈVY, Pierre. Inteligência Coletiva - Por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1994.
[4]Apesar da recente banalização, o termo interatividade está relacionado a disponibilização consciente de um “mais comunicacional” de modo expressivamente complexo, e diz respeito às interações seja entre usuário de tecnologias comunicacionais (hipertextuais ou não), seja nas relações (presenciais ou virtuais) entre seres humanos. SILVA, Marco. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.
[5] Em busca da cidadania global. Entrevista com Boaventura de Souza Santos, realizada em 10/10/2001. Publicado em Porto Alegre: Sem Fronteira, 2003. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/boaventura_e.html. Acesso em: 25.02.04
[6] JAMBEIRO, Othon; RAMOS, Fernando (orgs.). Internet e Educação a Distância. Salvador: EDUFBA, 2003.
[7] ALVES, Lynn; NOVA, Cristiane. (Orgs.). Educação a Distância. São Paulo: Futura, 2003.
[8] ALVES, Lynn; NOVA, Cristiane. (Orgs.). Educação e Tecnologia: trilhando caminhos. Salvador: Editora UNEB, 2003.
[9]TAKAHASHI, T. (org.). Sociedade da Informação no Brasil - Livro Verde. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, set. 2000. Materiais disponíveis sobre o assunto em
[11] O conceito de errância, bem como o de itinerância, são trazidos no contexto da discussão sobre as práticas curriculares de formação, sendo considerados como dispositivos responsáveis pela construção da autonomia como princípio formativo não outorgado. Desse modo eles se opõem a perspectiva de currículo como trajetória traçada que visam a racionalização e controle externo do processo educativo, reduzido ao saber oficializado e hierarquizado. MACEDO, Roberto Sidnei. Chrysallís, Currículo e Complexidade: a perspectiva crítico-multirreferencial e o currículo contemporâneo. Salvador: EDUFBA, 2002.
[12] É o caso das listas de discussão povo_de_pedagogia@grupos.com.br, pedagogos_modernos@grupos.com.br, didaticamanha@grupos.com.br, eadgec@yahoogrupos.com.br, nupes_uneb@yahoogrupos.com.br, entre outras formadas com turmas de alunos da graduação e pós-graduação, por membros do GEC e outros grupos de pesquisadores.
[13] VEIGA, Ilma Passos A. (org.). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas, SP: Papirus, 1995.
[14] A concepção, estrutura, metodologia e programação do curso encontram-se no site do Programa, hospedado na FACED no endereço: http://www.faced.ufba.br/~irece
[15]Sociedade da informação ou sociedade em rede são conceitos ainda em questão na contemporaneidade, mas de qualquer modo há um reconhecimento geral sobre o modo de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão de informação em rede tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
[16] Os Tabuleiros digitais são móveis, semelhantes aos tabuleiros de acarajé da Bahia, que abrigam terminais públicos de acesso à Internet através de software livre. O projeto tem como meta inserir a comunidade baiana no mundo da informação e da comunicação.
[17] BLOG, abreviação de WEBLOG, em português, significa arquivo na rede. Uma espécie de diário on-line que, diferente de um diário secreto, fica disponível na Internet, aberto à visitação, visualização, cópia e encaminhamento de seu conteúdo, bem como aceitando comentários sobre suas anotações. Este BLOG está disponível em http://notinhas.weblogger.com.br
[18] TEIXEIRA, Anísio. Centro Educacional Carneiro Ribeiro. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.31, n.73, jan./mar. 1959. p.78-84.
[19] Nesse caso, o conceito de competência significa a capacidade de agir, em situações previstas e não previstas, articulando conhecimentos tácitos e científicos a experiências de vida e laborais vivenciadas ao longo das histórias de vida. Isso supõe a capacidade de atuar mobilizando conhecimento, o que supera a noção mais usual de competência que privilegia a atuação individual e a vivência socioeconômica e cultural do indivíduo baseada no simples domínio do conhecimento. KUENZER, Acácia Zeneida. Conhecimento e Competências no Trabalho e na Escola. Boletim Técnico do Senac: Rio de Janeiro: v. 28, n. 2, p. 03-11, maio/ago., 2002. 2002.